Criança que há em mim, faze os barulhos que encantaram meus dias de pequeno ser, para que eu não esqueça dos caminhos que aqui me trouxeram! Canta as músicas da minha infância, reinventa os ruídos das ruas da minha meninice. Sabe os xingamentos de Marciana? Vê se os repete. Recria os barulhos do rio Ivipanim, com seus barcos a vela a romper os silêncios das noites sob o sutil domínio da cruviana. Lembra do barulho das talhadeiras dos calafates abarrotando de sons a Rua da Frente? Mesmo que por um momento, faze retornarem as lembranças das noites de serração, com suas troadas aterradoras!

Lembra do ribombar dos trovões ao chicoteio dos relâmpagos, pros lados de Pedrinhas e Casqueira? Aqui no planalto central, ouvi o grito rouco de um tucano no alto de uma palmeira empertigada, sob os olhares cintilantes dos saguis, em uma manhã de domingo, provocando inveja em duas pitangueiras espraiadas, em sua prenhez de  flores, e em cujos troncos passeiam calangos desajeitados, trazendo à lembrança pequeninos dinossauros que se esgueiravam nos coqueiros de Upanema, deixando marcas nas dunas. Lá, como aqui, um jurassic world em miniatura. Ruídos benfazejos, os dois.

Criança que há em mim, lembra da gritaria da meninada empinando pipas nas várzeas, com o vento levantando nuvens de areia nos descampados do mês de julho? Relembro algo que já escrevi neste blog, somente para ti, menino que há em mim: Vento, quando fores brincar com as pipas dos meninos, seja nas várzeas poeirentas, nas ruas sem calçamento ou no Morro do Urubu, me leva contigo. Assim, sentirei o gosto da liberdade plena.

 Por fim, lembra da barulheira que havia na barraca de Zacarias, nossa Las Vegas na dimensão nano? Aqui, todas as formas de ruídos, vozearia, gritaria, alarido, algazarra, barafunda. Lembra da gritaria dos meninos da Rua da Frente, nadando em torno dos barcos dos beijus, pedindo para que eles atirassem mangas no rio?

Mas o ruído também se exaure. O silêncio nos observa de longe, e logo acampará em nós. Hora para reflexões. Que venham a calmaria, a quietude, a tranquilidade, o remanso, o sossego, a tranquilidade.

É assim que a vida pulsa.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Dois meses depois de seus 80 anos, Toinho Tavernard nos deixa, vitimado por um AVC.

Ao lado de Antonio do Vale (Toinho do Foto), Toinho Tavernard é o grande responsável pelos registros iconográficos areia-branquenses. Muitos monumentos arquitetônicas de nossa cidade sobrevivem hoje apenas nas fotografias de AVale e nas magistrais pinturas de ATavernard.

Para quem com ele conviveu certamente jamais esquecerá suas interpretações de canções de Nelson Gonçalves. E como seu ídolo, ele tinha aquela voz de barítono que deixava seus ouvintes embevecidos. Aos 75 anos resistiu em repetir as performances, porque de vez em quando esquecia trechos das letras.

Eu nasci na casa ao lado da sua, nove anos depois que ele nasceu. Na sala de visitas de nossa casa tinha uma tela em óleo do casamento de meus pais, de sua autoria.

Sua arte manifestava-se em óleo sobre tela. Era a sua ferramenta preferencial. Em 2014 fiz-lhe uma visita e adquiri essa tela com do pôr do Sol, com o Tirol em primeiro plano.

Na ocasião o provoquei a experimentar grafite e nanquim e encomendei alguns quadros, que exponho na sequência. É claro que um artista do seu naipe produz obras-primas em qualquer técnica. Embora em tempos passados ele tenha feito alguns desenhos com grafite e caneta bic, para ele isso não passava de um divertimento. Insisti para que fizesse algumas tentativas profissionais.

Fazendo os primeiros esboços com grafite.

Esboço do Castelinho dos Dantas, de enorme valor histórico, uma vez que a fachada já foi alterada.

Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra, em nanquim.

Talvez esta seja a primeira fachada da prefeitura. Em grafite.

Esboço do moinho da Norsal, em grafite.

O que mais me entristece é que nossa pobreza cultural é de tal ordem, que um artista do quilate de Toinho Tavernard jamais teve de nossos gestores o apoio para criar uma escola de artes em Areia Branca.

É o que consta no registro civil e como foi pronunciado na pia batismal, mas na fala de seus conterrâneos e contemporâneos era simplesmente Zé Leite. Para os que o conheceram na fase adulta, o doutor que lhe foi outorgado na Faculdade de Odontologia da UFRN era acrescentado ao nome popular: Dr. Zé Leite.

Tenho razões para lamentar não ter privado de sua amizade. A única vez que estive em sua presença foi em julho de 1998, quando estive em Areia Branca visitando Antônio do Vale. Certa noite eles (AVale e Zé Leite) se encontraram na rua dr. Almino Afonso (hoje dep. Manoel Avelino), em frente à casa em que Zé Leite nascera. Tinha uma terceira pessoa que não recordo. Os três colocavam em dia papos de antanho, coisas de quando eu era adolescente de calças curtas. Permaneci na minha condição de testemunha privilegiada daquela conversa sobre uma Areia Branca de ruas de areia batida. Lembro que logo depois caminhei pela Rua do Meio (rua Cel. Fausto), em direção à praça da igreja, quando me deparei com Celso Luiz, Dedé de Zé Solon e Carlos Soares, na calçada da casa onde o patriarca José Justiniano Solon faleceria alguns dias depois.

Há um ano, Zé Leite publicou sua autobiografia, intitulada 100 livros para cem amigos. Consulto o exemplar que me foi emprestado pelo seu primo, Antônio José Gois Nepomuceno. Valho-me dessa fonte de primeira mão para relatar meu encontro virtual com Zé Leite. Sempre que alguém que foi meu contemporâneo em Areia Branca me chama a atenção tardiamente, logo passo a analisar as possibilidades de encontros passados. Quero dizer, na mesma época ou em épocas próximas estivemos nos mesmos espaços sem fazer qualquer contato. É por essa via retrospectiva e tendo como fonte seu livro, que faço meu encontro com Zé Leite. E o farei na ordem que os temas aparecem no livro.

Já na p. 26, Zé Leite apresenta os moradores da rua da Frente da década 40-50, começando pela ponta da praça do Tirol. A descrição é detalhada até a casa do Cel. Jorge Caminha, onde nos anos 60 morou Manoel Lúcio, cujos filhos, saudosos Marques Neto e Elsinho foram meus colegas de escola desde o preparatório para o exame de admissão com Maria Felipe, até o final do ginasial no Marista de Natal. A partir daí a descrição tem lacunas. Essa parte bem descrita por Zé Leite está eternizada nesta foto de Antônio do Vale.

A propósito de registros iconográficos, o dr. Zé Leite cometeu o engano típico de quem não tem o hábito da escrita acadêmica. Refiro-me ao fato de que ele usa inúmeras fotografias sem a devida informação da fonte. Na p. 33, uma bela fotografia mostrando canoas e a lancha Santa Isabel de Luiz Cirilo, em frente à igreja é provavelmente de autoria de Antônio do Vale. Ele gostava muito desse ângulo. No meu arquivo tenho essa foto similar àquela usada pelo dr. Zé Leite.

Na p. 98, Zé Leite fala de Nicodemos e reproduz crônica que sobre ele escreveu o ilustre professor de português da salinésia. Texto também reproduzido na quarta capa do livro e aqui também.

Nessa página, Zé Leite me faz viajar no tempo, desde as memórias de meu pai em relação a Chico de Neco Carteiro, aos meus tempos de adolescente, que embevecidos com a sabedoria de Nicodemos ficávamos na praça da igreja, depois dos namoros, ouvindo nosso guru cultural falar sobre quase tudo. Nunca menos de meia dúzia de meninos em busca de conhecimento. É também nessa página que Zé Leite refere-se ao prefácio que Leontino para o livro Guanabara de Chico de Neco Carteiro. Caminhos cruzados esses que a vida nos reserva. Pois a orelha do livro Guanabara foi escrita por mim, e tomo a liberdade de reproduzi-la aqui, sem saber se Zé Leite a leu.

 

A dor e a paz do amor eterno

Lembro um olhar/lembro um lugar/teu vulto amado/lembro um sorriso/e um paraíso/ que tive ao seu lado . . .

Era assim que Chico de Neco Carteiro encantava Zezinha nas enluaradas noites da Fazenda Guanabara. E com a mesma e comovente entonação do seu cantar, ele revela-nos, em narrativa precisa, toda a dor que a perda da pessoa amada provoca. Revela-nos também que a dor é grande, mas não supera em intensidade a felicidade que viveram e a que persiste na forma da prole que criaram. É a paz que emerge do amor eterno que faz Chico suportar a dor.

Nos trechos mais tocantes deste livro, acompanho meu amigo como se estivesse caminhando na relva plantada pela sua dor e embalado pelo lamento de amor de Beethoven na sua obra dedicada ao luar, o mesmo luar em que inúmeras vezes Zezinha se viu enamorada pelo cantar de seu amado. No aconchego da fazenda Guanabara, até um inocente beijo era acompanhado pelos pungentes versos de Catulo da Paixão Cearense: Ontem ao luar nós dois em plena solidão/. . ./A dor da paixão não tem explicação/ . . . /É mister sofrer para se saber.

Nos trechos mais serenos, ao largo dos atropelos da vida, Chico me faz lembrar A. J. Cronin em seu magnífico Pelos Caminhos da Vida. E com a precisão e poder de síntese do médico e escritor escocês, o filho de Neco Carteiro nos leva pelas ruas de Areia Branca, sua tão amada terra natal, que jamais esquece e que lhe faz lembrar o paraibano José Américo de Almeida, quando diz que tudo se desfaz, menos os elos nativos que prendem o homem à terra.

E não é apenas a terra em que nasceu que ele descreve com emoção. Este sentimento transborda nas páginas do livro quando, por exemplo, narra cenas cariocas. Me surpreendi emocionado quando ele relata a primeira vez em que ficou no pátio da Igreja da Glória apreciando a movimentação dos carros dos carros no aterro da Glória. Chico me fez caminhar um pouco mais e chegar ao aterro do Flamengo, onde ficava minha primeira morada na Cidade Maravilhosa, em 1970, quando lá fiz meu bacharelado em física.

E com sua precisão também me sinto caminhando em ruas históricas que jamais visitei na cidade do Recife: apanhamos um ônibus e descemos na Av. Guararapes. Depois de passarmos em frente ao Savoy, paramos um pouco na esquina do Cine Trianon, confrontando com o prédio dos Correios e Telégrafos; logo adiante a ponte Duarte Coelho, que separa a Av. Guararapes da Av. Conde da Boa Vista.

E com a sensibilidade saindo pelos poros, Chico não poderia deixar de terminar o livro por onde comecei esta breve apresentação:  lembro a saudade/ que hoje invade/ os dias meus/  para o meu mal/ lembro afinal/ um triste adeus/ sou agora/ no mar desta vida/ um barco a vagar/ onde está seu olhar/ onde está seu sorriso/ e aquele lugar/ eu devia, sorrir eu devia/ para o meu padecer ocultar/ mas diante de tantas lembranças/ me ponho a chorar

Carlos Alberto dos Santos

 

Na p. 101 Zé Leite faz uma justa e merecida homenagem Máximo Rebouças e suas iniciativas para preservação do acervo histórico areia-branquense. Visitei, há uns 5 anos, e fiquei deslumbrado com seu pequeno e valioso museu.

Na p. 150 ele reproduz uma bela e clássica foto de Antonio do Vale, reproduzindo o pôr do Sol, com o Tirol em primeiro plano. Essa foto eternizada no óleo de Antonio Tavernard, que mantenho em posição de honra na sala de visitas.

Finalmente, na p. 199 Zé Leite reproduz uma foto de incalculável valor histórico. Trata-se de uma das raras edificações de dois andares feito de taipa construído por Alexandre de Souza Nogueira no final do século 19. Passou a ser conhecido como o sobrado de Zé Filgueira, depois que este adquiriu a edificação.

Por tudo isso que li em seu livro é que disse acima e aqui repito: lamento não ter privado da sua amizado.

Toinho Tavernard ocupa espaço no camarote das lembranças da minha infância e juventude em Areia Branca.

Os garotos da minha geração tinham em Toinho duas identificações. A primeira, aquela ligada aos bons papos na pracinha, junto com José Jaime e outros nomes dentre o que havia de melhor na cidade.

Alguns estudantes da Escola Técnica de Comércio, depois das aulas,  gostavam de se aproximar daquele grupo de rapazes que conversavam na pracinha, enchendo de sons a noite, gargalhadas destravadas pela força da juventude e um especial o gosto pela vida, a música aí incluída.

Por seu lado, as garotas adoravam seu porte físico e sua boa pinta, além de sua voz especial de barítono, fazendo par com Ribamar, neste item.

Quando de uma viagem a Areia Branca, visitando o Passárgada, descobri, fruto da conversa na varanda, que meu amigo era também um pintor de quadros. E entrei em seu mundo particular, escondido em seu ateliê. Ali,  quadros finalizados pelo artista enchiam nossos olhos, e nossa alma se locupletava de boas lembranças da nossa cidade, pois retratar Areia Branca era uma das preocupações de sua bela e eternizada arte.

Apontei para um belíssimo quadro retratando antigas salinas, repousando sobre uma bancada, e perguntei se ele estava reservado para alguém. Respondeu: Se estava, deixou de estar. Acertado o preço, hoje ele repousa em minha sala junto a um grupo de amigos, todos de boa lavra.

IMG_3738

Toinho Tavernard, o rapaz boa pinta que sabia conversar, cantava e pintava quadros. E o sete, também, que ninguém é de ferro.

Por tudo isso, seu nome e acervo se perpetuarão na memória de quem gosta das boas coisas da vida. Um amigo. Um bom papo. Uma boa voz. Um artista.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Saímos de Martins no início da manhã. Destino: a cidade de Campo Grande, que que desde o início constava do nosso roteiro obrigatório da romaria 2019. Este ano, Campo Grande teve de volta seu nome original. É que, até dois meses atrás, a cidade era conhecida como Augusto Severo. Ao chegarmos a Campo Grande, uma conjunção de interesses entre a fome e a sede nos empurrou para um almoço.

De passagem pelo centro da cidade, em busca de um restaurante, perguntamos a um jovem estudante onde encontrar um local para almoçar. Com seu palavreado poético, ele respondeu: Vocês seguem em frente e logo depois da suave curva do Teixeira há um restaurante muito bom. Seguimos em frente e logo após a suave curva do Teixeira nos deparamos com o Restaurante do Teixeira.

Estacionamos e nos dirigimos para almoçar, quando de repente apareceu uma senhora com a cara da Memeia – lembra de Amor a Três? (*) – E sem outras palavras nos inquiriu:

– Vão almoçar nesse local? – Falou com desdém.

– Sim. – Respondemos.

– Não façam isso. Aqui nós temos um bom restaurante. Vocês entram por essa rua estreita e do lado esquerdo tem o um restaurante maravilhoso, o Point Gourmet. Almocem lá! – Determinou.

Entreolhamo-nos, e sem qualquer discussão seguimos a ordem, digo, indicação daquela misteriosa criatura. O Point Gourmet era um boteco desarrumado, sem qualquer atrativo, as panelas expostas sob um telhado improvisado, tipo latada. Que Deus nos proteja, pensamos. E ali almoçamos. A mistura(carnes de frango e de bode) era colocada em um prato à parte pela dona do local, mesmo que fosse apenas um pedaço. Mesmo que insistíssemos, ela não colocava a mistura ao lado da comida. Vá saber por quê! Ah! Quase esquecia das moscas.

No retorno ao carro, apenas um comentário do grupo: Aquela senhora deve ser a dona do Point Gourmet. E retornamos rindo.

Saímos rápido, temerosos de que aquela senhora alterasse o nosso roteiro.

Areia Branca nos espera! E tomamos a estrada.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) AMOR A TRÊS 

 Amei Maria, gente. Amei de fato!

Não por seus olhos lúbricos, ardentes,

Nem pelo toque de seus lábios quentes,

Nem por seu corpo de infernal contato;

 

 Nem mesmo pelos ares insolentes

De um queixo fino e um narizinho chato.

De Maria, do amor que aqui relato,

Acreditem, irmãos, amei os dentes.

 

 Sim, os dentes! Punhais alabastrinos,

Alvíssimos, brilhantes, purpurinos,

De brancura mais branca que Deus fez!

 Eram pérolas, joias, diamantes,

Perfeitos, divinais, esfuziantes.

Os dentes de Maria… Todos três!!!…

 

Do livro O Doce Cárcere das Rimas

Autor: Liônio Guerra

agosto 2019
S T Q Q S S D
« jul    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

Para receber as novidades do blog