Tatuí. Por que esse bichinho é tão importante para quem, na década de 1950, corria pelos caminhos de Zé Filgueira, no rumo da Praia do Meio, subindo e descendo as pirâmides de sal, com o risco de, do outro lado, ser surpreendido por um buraco a esperá-lo para um acidente?

Por que lembramos das taiobas, tantas vezes capturadas do outro lado do rio, pros lados de Pernambuquinho, na maré baixa, quando imensas costelas de areia enfeitavam o leito do Ivipanim ali exposto?

Em Lisboa, no Bar do Ramiro, um encontro com uma parenta da taioba e, de quebra, fui apresentado a um marisco bonito e de nome estranho: percebes, uma espécie de crustáceo que se tornou uma iguaria em Portugal.

Percebes

Por onde andarão os sapos que coaxavam no depois das chuvas, muitas vezes servindo de acalanto na hora de dormir?

Raros também estão os zigue-zigues, também conhecidos como libélulas, que enfeitavam quintais e agitavam a meninada quando brincava nas águas das poucas enchentes.

É que hoje amanheci saudoso, tentando uma resposta para questões simples, mas que refletem toda uma qualidade de vida que o tempo foi confiscando das pessoas.

Há saguis em Areia Branca? Não lembro. Visitando São Miguel do Gostoso, tive o prazer de duas surpresas. Logo na entrada, um frondoso pé de cajarana, que há muitos anos não via. Durante o café da manhã, fomos saudados por uma colônia de saguis saltitantes, que somente se acalmavam com um pedaço de banana.

Tatuís, taiobas, sapos, zigue-zigues, saguis. Saudade.

Os dois últimos costumam aparecer em meu quintal. Uma curtição.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

…puxa vida logo hoje sábado esqueci de desligar a droga desse despertador e essa música horrorosa não para de tocar vou desligar e me virar pro outro lado talvez consiga dormir mais um pouco quando criança em Areia Branca tive muitas dúvidas e aflições que tiravam meu sono nem quero pensar nas ameaças do bicho papão e aquela estória de que o fim do mundo ia chegar no final do ano fora isso um dos maiores problemas era sobre o que eu seria quando adulto meu irmão Zé Maria era marinheiro e meu irmão João trabalhava no Sesi o outro mais velho Mauro trabalhava em Natal no Banco do Brasil por isso minhas pretensões de futuro eram muito limitadas que coisa bonita ouvir esse galo do vizinho cantar isso me lembra das galinhas e dos galos que meu pai criava em Areia Branca e quando nasciam os pintinhos era uma festa desde pequeno eu vivia em uma casa com um grande quintal e com bodega na parte da frente e minhas referências eram os trabalhadores do cais os barcaceiros os carpinteiros os calafates além do pessoal que trabalhava nas salinas é que os empregos eram raríssimos e as pessoas que assumiam certas funções se achavam ricas mas esse tipo de serviço nunca me passou pela cabeça eu não tinha em quem me espelhar para orientar meu futuro e não fazia ideia do que fazer com o curso que estava fazendo na Escola Técnica de Comércio que funcionava no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra teve um dia eu ia vestir uma calça nova que Maria Laís fez pra mim com reforço nos suspensórios mas mamãe trouxe uma que acabara de engomar e eu saí com ela pensei até em alugar uma bicicleta e passear pela Rua do Meio nessa época fui trabalhar no consultório de doutor Vicente Dutra e depois no consultório de doutor Willon Cabral também trabalhei na movelaria de seu Antonio Silvino e finalmente fui trabalhar nas Lojas Paulista como auxiliar de empacotador engraçado Chico Brito assumiu o meu lugar e eu não o conheci foi quando minha mãe me pôs no curso de datilografia que funcionava no final do Beco da Galinha Morta e que abriria muitas portas nos empregos que assumiria quando cheguei em Natal e fui estudar no Padre Miguelinho que fica ali perto da igreja de São Pedro na subida do Baldo para o Alecrim em frente ao cemitério naquela época acalentava o sonho de ser sargento da aeronáutica quando maiorzinho fiz até prova para entrar no mundo militar mas desisti quando fui fazer a prova na Base Aérea de Natal é que estávamos no ônibus aguardando o transporte para o local da prova quando um militar graduado chamou um soldado e disse quero o sargento Almeida aqui agora mesmo e o soldado saiu apressado e dali a pouco ele retornou resfolegante dizendo que o sargento não estava e o militar graduado berrou descontrolado eu falei que queria o sargento aqui volte e traga o sargento Almeida aqui como eu falei naquele mesmo dia eu desisti da vida militar em seguida trabalhei tomando conta da Confeitaria Mirim no Grande Ponto depois fui trabalhar no Arquivo Geral do Estado e em seguida no IML onde me encantei com as necrópsias dos cadáveres e os exames de corpo de delito nos envolvidos em acidentes e outros eventos de violência foi no IML que conheci alguns médicos e comecei a tomar gosto pelo trabalho na área da medicina a festa dos quarenta e cinco anos de formado em São Miguel do Gostoso foi muito bonita que coisa o despertador tocou novamente devia ter desligado vou levantar e fazer meu café…

45 anos de formatura

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Olhando da Rampa, Grossos e Porto Franco pareciam quase invisíveis, apesar do dia claro. Em frente, o manguezal mostrava-se incomodado. Seus moradores se agitavam ao perceber os últimos avisos da subida da maré. Era preciso cada qual procurar sua moradia. A maré se agigantava.

Sabíamos que por trás daquele manguezal esparso, do outro lado da Rampa, dois pequeninos lugarejos tentavam manter-se ocultos. Apenas as canoas dispunham de alvará que as permitiam adentrar pelo estreito canal. E fomos lá, bem no dia da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes.

Ao chegarmos a um pequeno banco de areia, a canoa encostou e algumas pessoas desceram do pequeno barco. Agora sozinhos, passemos à nossa visita. Queríamos visitar aquele encontro aqui já relatado, onde o céu, o mar e o rio pareciam fazer uma reunião. O que, afinal, combinavam?

Uma Operação Controlada foi armada em Upanema. Munidos de máquina fotográfica e um prévio acerto com o canoeiro, fomos com cara de sem-querer-querendo no rumo do encontro rio-mar.

Saímos de leve, motor em baixa rotação. Desligados da pressa do dia a dia, fingíamos um deslocamento sem compromisso, no desinteresse que ali se engendrava. Nada falamos, mas nosso objetivo oculto era flagrar aquele encontro tripartite em uma pequena área de exclusão entre mar e rio, sob a arbitragem de um céu muito abaixo de sua altura habitual. Foi o que imaginei.

Ao chegarmos, uma surpresa. Não havia área de exclusão, como acontece na fronteira das litigantes Coreias sob supervisão da ONU.

 

E descobrimos um rio calmo em contato chegado com um mar sereno. De diferente, penas um discreto vai e vem que mais parecia um tremelique junto à linha que demarcava aquele escasso território até então imaginado como tenso. Até um peixe que os supervisionava se afastara de forma sorrateira e agora olhava distante, um olho no rio outro no mar.

O céu, o mar e o rio flagrados em um encontro marcado em frente ao Pontal, e agora delatado.

Como surpresa, a descoberta de uma boa relação entre as partes, e nada de alteração. A natureza em bom comportamento, como sempre acontece.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Dois eventos religiosos que eu frequentava em Areia Branca ficariam marcados a ferro em minha mente. O primeiro, as missas em frente à casa de Bagaé. Famílias de Areia Branca dirigiam-se, antes da saída do sol, para a casa de Bagaé com a intenção de participar de um evento inusitado. Uma missa.

O segundo, outra missa. Desta vez, no povoado de Pedrinhas. Quando pequeno, por diversas vezes saí com minha mãe com destino a Pedrinhas, para participar de outro evento religioso. E mais uma vez bem no início da manhã. Pelo caminho, as pessoas carregavam velas acesas nas mãos, protegidas por uma redoma de papel. Uma imagem embonitando uma estrada poeirenta, como se diria à época.

A imagem de um possível rio em Areia Branca veio à tona quando um grupo de WathsApp do qual participo levantou essa questão. É que o Google Maps mostra claramente a imagem de um pequenino rio desaguando no Ivipanim. Seria o rio Pedrinhas? Ninguém soube responder.Google Maps

Esse filete à esquerda da foto seria a prova de sua existência?

Pedrinhas, um rio desconhecido? Ou teria se perdido pelos caminhos do sal?

Foto Google Maps

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Areia Branca é uma cidade litorânea localizada na Região da Costa Branca, no Rio Grande do Norte. Privilegiada por se encontrar na esquina do mundo, desfruta ainda de uma característica especial: é a única cidade da Terra onde o sertão, animal indomável, vem disfarçadamente ao encontro do mar. E sabemos que a caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, o que significa que grande parte do seu patrimônio biológico não pode ser encontrado em nenhum outro lugar do planeta.

 Aqui, além de encarar com doçura as coisas do sertão, sob a forma de caatinga, em um encontro inusitado e único no mundo, a possibilidade real de olhar para o Oceano Atlântico sentado bem na esquina do mundo, cercado por coqueiros com cheiro de maresia. Pela manhã, poder caminhar por praias ainda preservadas e conhecer belas falésias, além do espetáculo das salinas hoje mecanizadas.

Dar um bom dia ao sertão, sentado de frente para o mar.

Em Areia Branca, pode!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

agosto 2017
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