Era quase unanimidade. A água que se consumia em Natal, até há alguns anos, era considerada de excelente qualidade, e encantava visitantes de todas as latitudes. Sempre, em Areia Branca, tivemos informações que engrandeciam as qualidades da água consumida na capital do nosso estado.

Hoje, a água oferecida nas torneiras dos natalenses apresenta desconformidade no nível do cloro, inadequação quanto à acidez e aos indicadores de coliformes, bem como nos quesitos cor aparente, presença de nitratos e turbidez.

Com base nesses dados, é fácil entender a presença de um aparelho – gelágua – em quase 100% das casas, com todos os transtornos logísticos envolvidos no transporte e entrega dos galões de água traz às pessoas mais pobres. Não tem como não falar na questão financeira.

Mas voltemos ao tempo em que a água de Natal ganhava notas de destaque em todos os quesitos aqui relatados.

Laurinho de Lauro Duarte foi servir à Marinha do Brasil em Natal, e na capital do estado, obviamente, passou a consumir aquela água maravilhosa, cuja pureza e sabor eram por todos elogiados.

Certo dia, Quiquico – irmão de Laurinho – encontrou Chico Novo e, conversa vai conversa vem, tocaram no assunto Laurinho. Quiquico, irmão amoroso, passou a elogiar o desempenho de Laurinho no curso realizado na Base Naval de Natal (*). No auge da conversa, e já empolgado, Quiquico soltou essa:

– Rapaz, a água de Natal é tão boa que até o coquinho que Laurinho tem na parte de trás da cabeça diminuiu.

Ontem, água milagrosa. Hoje, fora dos padrões de consumo. Coisas do Brasil.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

(*) A Base Naval de Natal contribui para o funcionamento e operação das Forças Navais, Aeronavais e de Fuzileiros Navais estacionados ou em trânsito na sua área de atuação. A Base dispõe de um dique flutuante medindo 118 metros de comprimento e 23 de largura capaz de docar navios com até 20.000 toneladas. Fonte: Wiquipédia.

 

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No dia da Festa de Nossa dos Navegantes deste ano, em que a procissão marítima foi pela manhã, o entorno da pracinha e os arredores da igreja, como uma vaga lembrança da época áurea dos anos 1960, estavam abarrotados de comidas de todos os tipos e origens, com salgados que iam de salsichas a churrasquinhos no espeto, passando por sanduíches de formas e gostos variados. Mas os doces se sobressaíam com vantagem nos preços e na variedade.

Tinha alfenim, pipoca doce, quebra-queixo, algodão doce, cocada de rapadura, pirulito (enrolado num papel e enfiado num palito) sucos de frutas variadas. Nos quiosques próximos, sanduíches de boa qualidade, torradas e comidas de todos os tipos, de galinha ao molho pardo a frango assado. Tinha, também, saquinhos de castanhas de caju assadas. Uma delícia. Na hora do almoço, nada melhor que o Passárgada de Toinho Tavernard.

No meio de todo esse movimento, camelôs improvisados vendiam bugigangas de todo tipo, de piões a pequenos barquinhos, malabaristas de madeira, bonecas de pano, penduricalhos e para as garotas, bijuterias, perfumes.

Comidas de rua. É assim em todo lugar. Na capital da Turquia, Istambul, uma das maiores metrópoles do mundo, logo na esquina de uma rua do centro – Rua do Bonde, que é uma via de pedestres -, há algo a ser provado. Trata-se do suco de romã. A fruta é espremida na hora, ali mesmo, e há sempre uma pequena fila. Descendo a rua, em meio a uma multidão de turistas, nosso olfato é provocado por um cheiro estranho que vem de fogareiros nas calçadas. Quando chegamos mais perto percebemos que são castanhas portuguesas que, quando assadas, adquirem uma cor escura e um aroma indescritível.

Nas estradas da Turquia, vale a pena parar para provar o iogurte turco, no Brasil conhecido como iogurte grego, coberto com sementes de papoula. Imperdíveis o iogurte, a castanha e o suco.

Em Praga, capital da República Tcheca, uma rosca que mais parece um acessório para o braço nos encanta desde a primeira prova. É o Trdelnik, vendido nas ruas e em pequenos quiosques. É como se fosse uma rosca doce, em espiral, feita no local, assada e passada no açúcar. A palavra é quase impronunciável, mas a rosca é muito, muito gostosa.

Em Areia ou em qualquer cidade do mundo, as comidas de rua nos encantam.

Mesmo que ás vezes não saibamos pronunciar o seu nome.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

Em nossa infância em Areia Branca, conhecemos pessoas que apenas passaram por nossa observação, mesmo que sequer soubéssemos seus nomes. Apenas suas figuras ou seus nomes ficaram em nossa memória, e perguntamos ao vento: Tens alguma notícia dessas pessoas?

Quando criança, gostávamos de brincar em frente àquele muro emblemático que ficava nos fundos da nossa casa e da padaria de seu Lalá; hoje, um muro elegante e de pintura nova. O grupo brincava, corria pelas calçadas e no meio da rua. Sem querer chamar nossa atenção, um homem ainda jovem, de ar sereno, passava calado pelas crianças, apenas cumprimentando com a mão. Nós, meninos da Rua da Frente/Rua do Meio, o chamávamos de Japona. Imagino que ele trabalhava ou morava na parte de baixo da Rua do Meio. Sempre imaginei que ele trabalhava no Ambulatório do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários – IAPC, onde Dr. Gentil atendia a clientela do Instituto dos Comerciários.

Sempre procurando briga, havia um garoto forte que todos sabiam ter mania de provocação. Irritava as outras crianças até saírem no tapa. Meu irmão Ivo tem boas estórias desses embates, onde pontuaram sopapos e cangapés. Ninguém sabia seu nome, mas era conhecido na Rua da Frente como Esgalamido.

Neste momento, lembrei-me de um colega do Curso de Técnico em Contabilidade que eu frequentava à noite no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. A pessoa mais conhecida, e já veterano, no último ano do curso, era José Jaime, que sempre estava no centro das reações dos estudantes; isto é, aprontava todas. José Jaime era uma figura de destaque, fosse na escola ou nas discussões que aconteciam nos bancos da pracinha, após as aulas. O nome do meu amigo polêmico: Antônio Cruz, garotão conversador, crítico, inteligente. Gostava de contestações sempre acaloradas em torno das matérias, levantando discussões pertinentes.

Finalmente, por onde andam Dedé de Zé Dantas e Toinho Quixabeira? Dedé de Zé Dantas era um meninão que fazia a alegria das garotas. Decidido, sempre tinha dinheiro para comprar cocada de rapadura em uma bodega da Rua da Frente. No contraponto, Toinho Quixabeira, questionador e esperto, fazia parte de nossas brincadeiras de rua, tipo rodar pião e bater bola. Saiu de Areia Branca para se tornar ator.

Mais um soluço da retrofilia.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Com a diferencia de apenas um ano, conheci e estudei com Jairo no Brito Guerra, onde tivemos como professoras, Dona Edite Belém, dona Alice de lalá, Dona Chiquita do Carmo (que depois veio a ser minha comadre), dona Lidia de João Jacinto, dona Francisca Alcântara, e outras. E nos alegrava o toque de sineta dado por Dona Inês, anunciando à hora do recreio.

 

E continuamos amigos na Escola de Comercio, que também funcionava no mesmo prédio, e tivemos como professores, Dr. Gentil, que sempre afirmava ser um herói, por ter criado dez filhos. Dr. Celsinho, Dr. Vicente Dutra, e outros que não me recordo. Por conta de um casamento precoce, fui obrigado a deixar os estudos, para poder ganhar recursos para criar o filho.

 

Jairo continuou os estudos na Escola de Comercio, e concluiu o que chamamos de hoje de 2º grau, no Colégio União Caixeral de Mossoró. Trabalhou como operador no Cine Cel. Fausto. Em 1955, prestou exame e foi aprovado na Base Naval de Natal, como Praticante de Prático dos Portos de Natal, Macau e Areia Branca. Em 1962, foi eleito Vereador.

 

Em 1964, após “a redentora”, fui residir no Rio de Janeiro, e nunca mais tive contato com Jairo, porem acompanhava sua trajetória política, através de noticias vindo da boa terra, onde inclusive foi Prefeito da cidade.

 

Após embarcar no Rio de Janeiro, vim a Natal algumas vezes, porem nunca tive o prazer de encontrá-lo como Prático responsável pela atracação do navio, como aconteceu com Carlito de Zé Monte, e Zé Antonio de Constancia.

 

Quando vim residir em Fortaleza, era quase uma obrigação ir a Areia Branca quatro vezes ao ano. No carnaval, em junho (férias de minha filha que ainda estudava), festa de agosto que dispensa comentários, e fim de ano. Durante todo esse tempo, tive dois encontros com Jairo. No carnaval de 2009, encontrei-o casualmente nos cruzamentos da Rua Silva Jardim com Deputado Manoel Avelino. 

 

E por ocasião do lançamento do seu livro Silhuetas do Tempo, em que fui especialmente por este motivo, cujo autógrafo escreveu: O ANTONIO FELIPE (era assim que ele, Nelson Custódio, Sérvulo Araujo e outros me chamavam), QUE MORA EM FORTALEZA RECEBA UM ABRAÇO DO VELHO PRÁRICO. Seguido de sua rubrica. 

 

São estas as lembranças que tenho de Jairo de Ana paulino.

Na Rua da Frente, o riscado de um arame no chão molhado demarca território e configura um jogo. Na Rua do Meio, pros lados do Cine Coronel Fausto, o menino irresoluto preferia constatar somente à noite, durante a novena, se ela viera para varrer a tristeza com sua vassourinha de bruxa do bem para um cantinho de sua alma inquieta.

Na pracinha, sob o som da sonora, o Palacete Municipal se arvora de arauto das boas notícias, e sua garganta grita músicas e informações. E fluem coisas assim, com cheiro e gosto do hoje que o ontem foi: Assistam hoje, no Cine Coronel Fausto, ao filme Matar ou Morrer, com o finado Gary Cooper.  Você nem imagina o que pode acontecer.

 Na barraca do Zacarias – a Las Vegas de minha meninice -, com suas luzes e seus piscares, sempre o chamativo da possibilidade de ganhar um prêmio com o giro das roletas. E as crianças maiores podiam jogar, sim.

No parque de diversões, carrosséis imensos e uma roda-gigante multicolorida, de tamanho e cores surreais, marcam retinas infantis atentas ao brilho que ofusca e encanta. Logo adiante, ele se descobre fazendo pontaria com uma espingarda de pressão. Quase acertou no centro do alvo. Pediu para ver. A seta passara direto, sem sequer tocar na tábua.

Na calçada da igreja, olhar fixo na saída do Beco da Galinha Morta, face a uma eventual aparição do Zorro. Corre um zum-zum-zum na cidade com a suspeita de que hoje é o dia.

No espaço sociocultural, a frequência dos pastoris e a percepção de sua escassez em tempos que não demoram a chegar. Recentemente acontecera o mais famoso pastoril de Areia Branca, que serviu para arrecadação de fundos para construção do hospital-maternidade Sara Kubitscheck.

No espaço ele, a ansiedade por um futuro incerto, em face das vivências e perspectivas ao seu alcance em um mundo pequeno e sem ponto futuro. Quase tudo por ser feito. Aqui, o medo do por vir. No coração, o sofrimento do hoje real, a incerteza da vida na cidade grande e a ansiedade pelo que há de vir.

Corte no tempo – tempotomia. Que venha logo o ano de 1960.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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