Órtese é um dispositivo utilizado para auxiliar ou modificar aspectos do funcionamento de estrutura ou sistema do corpo (muletas, palmilhas ortopédicas, munhequeiras). Assim entendido, uma órtese de palavras serviria para fazer funcionar um fonema ou formação de uma nova palavra, que sem seu auxílio não existiria. A prótese, por seu lado, serve para substituir partes do corpo que foram amputadas ou não funcionam como deveriam. A Agência Nacional de Saúde determina obrigatoriedade de cobertura de custos apenas para as próteses ligadas ao ato cirúrgico.

Já me referi às palavras escravas, aquelas que são aprisionadas por outras, que lhes suga vida ou sentido, ao tempo em que determina a perda de sua existência de forma isolada. Quase nunca tais palavras aparecem sozinhas.

Em bel-prazer, a palavra bel foi escravizada – anexada – por prazer. Em ledo engano, ledo tornou-se escrava de engano. Crasso é outra palavra historicamente escrava. Erro escravizou esta palavra de tal modo que poucos poetas conseguiram libertá-la desse estado. Visconde de Taunay, em O Encilhamento, escreveu: …Correspondentes à sua crassa ignorância. Aqui, crasso mantém o sentido de grosseiro. Ululante é outro exemplo de palavra escrava. Óbvio a mantém subjugada, para que aquela ganhe vida e sentido. Sozinha, a palavra ululante significa ruído semelhante ao ululo – grito ou ruído plangente; ganir; uivar.

Agora falemos das órteses de palavras. Se essas palavras pertencessem ao mundo da medicina, assim poderíamos pensar. São termos que sequer existem sozinhos, e passam a ter vida e sentido quando auxiliados por palavras-órteses.

Aqui estão algumas: 1. Branquense – palavra que não existe. Para que passe a existir de fato, necessita da palavra areia, criando uma terceira: areiabranquense. Imagino que tais palavras devam ser escritas juntas, para formar o adjetivo gentílico correspondente a quem nasce em Areia Branca, cidade do Rio Grande do Norte localizada na esquina do mundo.

Passemos a outras: 2. Grossense – esta também não consta dos nossos dicionários. Necessita do auxílio de uma órtese para formar matogrossense. Não estamos nos referindo a grossense, que se refere aos nascidos na cidade de Grossos; 3. Grandense – palavra utilizada no Nordeste – norte-riograndense ou rio-grandense do norte – e no Sul – sul-riograndense ou riograndense do sul.

Areiabranquense = areia + branquense –, fazendo sentido quando nos referimos nos domínios da deusa das salinas.

Gostou da brincadeira?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

 

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Há sempre, em algum lugar de mim, um sentimento que aflora nos momentos inesperados, em lugares muitas vezes esquecidos do nosso GPS. São ocasiões em que o nosso sentimento é despertado pelo toque de uma emoção ou por uma imprevista convocação retrofílica.

Portugal, Évora, 2017. Adega da Cartuxa. Após uma proveitosa visita à vinícola, fomos levados a uma sala especial. Em torno de uma mesa, várias garrafas de vinho escolhidas por orientação de um profissional. Ali, ao alcance da mão, cinco delícias internacionais, a começar por uma Pera Manca. Era uma degustação de vinhos agendada do Brasil.

Areia Branca, década de 1950. A Rua da Frente amanhecera agitada, como toda a cidade. Era véspera da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, e as pessoas se movimentavam pelas ruas em um frenesi inimaginável. Eram filhos da terra que retornavam para a festa, assim como visitantes de cidades e lugarejos próximos e distantes.

Na mercearia de papai, na Rua da Frente, eu procurava ajudar no que podia. Só não podia servir as bicadas e as meiotas solicitadas pelos frequentadores. O fornecimento de víveres às barcaças estava suspenso, pelos motivos óbvios. Era a festa. E a festa maior da nossa cidade, aquecia corações e vendas.

No balcão, novos produtos eram ofertados, novas marcas de cachaças eram provadas, aprovadas ou rechaçadas. A de jatobá era uma das preferidas. Nesse vai e vem, eu me empolgava com o clima das ruas e o calor dos bebericantes.

Em Areia Branca, suspiros, a dose do santo, comentários maliciosos, conversas de botequim. Alguém fugira (roubara) uma moça, e o pai exigia casamento. Um tubarão muito grande fora apanhado em Upanema com a perna de um pescador em sua barriga.

Em Évora, discussões sobre o bom momento que vive Portugal, atraindo mais e mais brasileiros tentando fugir da bandalheira que aqui foi instalada por grupos políticos e econômicos agora na mira da justiça.

Em Areia Branca ou em Évora, a alegria de viver. Tim-tim.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Ele não é um areiabranquense qualquer. Oriundo de família pobre; seu pai, Manoel Marcelino de Souza (Manoel Lagartixa) perdeu o emprego no serviço de estiva e, desiludido, viajou para Santos no navio Volta Redonda, como estivador do Lloyd Brasileiro. No ano de 1969, seu pai embarcou no navio Itaberá, também do Lloyd Brasileiro, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1985. No final do ano de 1970, a família viajaria para Santos, junto com a mãe, Jovina Joana, onde permanece até hoje.

Daí, junto com seus primos Zacarias e Carlinhos, trabalhou na empreiteira de uma pessoa da família; em seguida prestaria serviços em uma padaria. Logo seria técnico de rádio e televisão e trabalharia em uma empresa autorizada da Phillips, para em seguida tornar-se auxiliar de escritório de uma empresa multinacional (Techint). Trabalhou na Embraer e no INSS, até se firmar como funcionário da Receita Federal, em Santos, onde trabalha até hoje.

E nunca mais retornou a Areia Branca. É que um emaranhado de nós existenciais, em conluio com lembranças das dificuldades vividas em sua cidade, o impediam de empreender a viagem de volta. De uns tempos para cá , no entanto, foi se formatando em sua mente o ambiente para o retorno, que se efetivou neste mês de agosto de 2017, talvez tocado por seu amor pela avó Antonia e seu avô Vital Marcelino de Souza, personagens frequentes em seus comentários no Era Uma Vez em Areia Branca.

Em Areia Branca, tentamos de todas as formas encontrar nosso amigo, que se anunciava hóspede da Pousada do Mestre, na rua Silva Jardim. De posse do seu endereço na cidade, formamos um grupo – eu, Sônia, Chico de Neco Carteiro, Ivo e Assis Câmara – e fomos à pousada indicada, onde nada conseguimos além de uma vaga indicação de que ele ali estaria hospedado.

No dia seguinte, véspera da procissão marítima, saíamos do café da manhã e fomos abordados em nossa pousada por um homem sisudo segurando o riso e tentando esconder seu espírito brincalhão. Logo imaginei ser ele aquele que há um dia procurávamos. Acertei.

Jerônimo, areiabranquense sério, inteligente, crítico ardiloso, de humor sutil. De volta a Areia Branca, tentou de todas as maneiras manter-se oculto.

Quase conseguiu.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

A cidade em festa, pros lados de Honorina. Nas ruas mais centrais, um vazio que amedronta. A violência está acabando com o costume antigo da cidade. Não se colocam mais as cadeiras nas calçadas. E as ruas ficam desertas, à noite. A Rua do Meio parece um cemitério. Na pracinha não há uma pessoa sequer. Os bares que circundam a pracinha estão sem clientes. É que há dois dias, ali ao lado da igreja, assassinaram uma pessoa.

Caminhando pelas ruas, defrontamo-nos com carros de som que estremecem as casas, ligados sobre algumas calçadas, com um aglomerado de jovens em torno. No raio de um quilômetro os ouvidos sofrem com tamanha estupidez. É a total ausência do poder público.

Noite de segunda-feira, 14 de agosto de 2017. No patamar da igreja, com o temor no coração, embora cercado de pessoas amigas, contemplo o rio em frente; busco algo que me falta. Procuro no céu e descubro uma lua triste, quase sem brilho, tentando esconder-se por trás de um grupo de nuvens fugidias que brincam no céu quase sem luz. E a visão de Barra e Pernambuquinho fica mais uma vez nas sombras do ofuscamento. Mas logo a lua sai de seu bunker celeste para se expor às críticas deste escriba.

No dia seguinte, de posse do mapa lunar, descobri o motivo daquela brincadeira de esconde-esconde no céu. Na noite anterior, a lua tinha apenas 60% de sua superfície iluminada voltada para Upanema. Estava em sua fase minguante, e trazia em si esse desgosto. Seu desejo era estar plenamente iluminada na noite de 14 de agosto, para escanear nossas dunas, iluminar nossas falésias, desnudar nossas várzeas, ocasião em que tingiria de um gris particular a noite maior dos areiabranquenses.

Vou confessar uma indiscrição: no dia 7 de agosto, escondendo-se entre prédios altos, flagrei a lua meio sem jeito, em Natal, sabendo-se vista em Areia Branca. É que ela se descuidou e cometeu esse engano de datas. Saiu de casa uma semana antes.

Quem sabe no próximo ano… se a violência permitir.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Há alguns anos havia aqui um equipamento comunitário belíssimo chamado Tirol, que ruiu sob o furacão do abandono e do desprezo. A cidade pulsava no Tirol, com os passageiros chegando de Grossos ou retornando depois de um dia de negócios em Areia Branca. No portar-se e no vestir, a marca de uma elegância também varrida pelo tempo.

Praça do Pôr do Sol e Tirol

Há alguns anos havia aqui um equipamento comunitário maravilhoso, utilizado pelas pessoas que saíam ou chegavam ao Tirol. Fosse de passagem obrigatória por este local ou curtindo seus momentos de lazer, boa parte dos areiabranquenses aqui parava para uma contemplação do movimento dos passageiros no Tirol, ao tempo em que aqui ficava, parado, a contemplar o pôr do sol pros lados do Tibau, um banco a instiga-lo. Era o momento da troca de plantão, em que o sol entregava à lua as chaves e os códigos do arsenal celeste. E lentamente uma luz com aura de um Olimpo salitrado substituía o amarelo hélio pelo prateado luna, justo aquele gris emblemático meio encantamento meio luz. Era a Praça do Pôr do Sol.Quadro de Antonio Tavernard

Há alguns anos havia aqui umas casas lindas, com cheiro de jasmim e com um ar bucólico, que despertavam aquela inveja benfazeja nas pessoas. Aqui, alguns areiabranquenses privilegiados cuidavam com orgulho de suas moradias. Quantas vezes o menino eu ficava encantado com aquelas casinhas coladas umas nas outras. À noite, cadeiras nas calçadas e, à frente, uma visão maravilhosa das sombras quase assombração do manguezal que ainda hoje tenta se ocultar do outro lado do rio. Virando a cabeça um pouco para o lado, a quase bênção de contemplar uma embarcação fugindo na noite para se aninhar próximo à Rampa, de frente para a igreja.

Há alguns anos havia nesta esquina uma pensão que recebia caminhantes de outras latitudes, navegantes de outras águas igualmente salobras. Tenho uma quase certeza de que, antes da pensão, aqui morou o Tenente Durval, policial sério e competente que valorizou com brio as cores da sua farda. O Tenente Durval era aquele delegado que dava voz de prisão ao indivíduo e determinava que ele o esperasse na delegacia. E todos ficavam à sua espera.

Hoje, destruídos o Tirol e a Praça do Pôr do Sol – e descaracterizada a antiga pensão –, resta o vazio com o gosto amargo da desesperança que a todos incomoda e assusta. É um esqueleto de cimento que acolhe todo tipo de elementos indesejáveis, da sujeira a viciados em drogas.

Puro desencanto onde em outros dias reinavam a alegria e o toque poético.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

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