As primeiras embarcações a vela surgiram com os gregos e em seguida com os romanos, que utilizavam o vento a favor. A quilha foi uma invenção dos vikings, que também aperfeiçoaram o sistema de velas.

Em Areia Branca, as barcaças a vela prestaram inestimáveis serviços, sendo o transporte do sal o mais importante. Era um trabalho penoso, e exigia perícia e muito sacrifício dos barcaceiros. Os salineiros, de dois em dois, conduziam o sal do aterro das salinas em balaios com um calão no meio. Quando o carregamento do sal chegava ao fim, era conduzido para o navio, fora da barra, aproveitando sempre a maré cheia.

Barcacas

Os iates a vela, que chegavam de outros lugares, trazendo mercadorias, tinham o condão de agitar a Rua da Frente, com suas velas de grande porte a encantar areiabranquenses de todas as idades. Os meninos da Rua da Frente se agitavam, e as pessoas saíam para as calçadas para contemplar o rio Ivipanim, agora sob o domínio dos grandes barcos.

Iate em Festa

Nos Estados Unidos, os clippers de Baltimore alcançaram seu auge no ano de 1843, e foram utilizados na rota do chá da China. A introdução do navio a vapor, por não dependerem dos caprichos do vento, levaram esses barcos ao declínio e à extinção.

Star Clippers

Nos séculos XV e XVI as caravelas marcaram a época das Grandes Navegações e descobrimentos marítimos. Eram grandes embarcações feitas de madeira, sendo capazes de transportar centenas de homens e toneladas de mercadorias. Ainda em Portugal, os lugreseram usados na pesca do bacalhau. Com seus 60 metros de comprimento e 9 metros de largura, 4 mastros e capacidade de carregar entre 900 e 950, toneladas de bacalhau salgado. Boa parte dos lugres tinha o casco de aço. Portugueses e noruegueses foram pioneiros das viagens longas neste oceano perigoso. Porém os portugueses foram os últimos a enviar uma frota de navios a vela através do Atlântico Norte.

Lugre AvisLugre Avis

Lugre CreoulaLugre Creoula

Em Areia Branca e no mundo, o declínio da vela. Vitória dos motores.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Nossa vida é fruto de experiências, observações, coisas vividas. Menino em Areia Branca, convivi com as conversas que aconteciam nas bodegas, com clientes de todas as latitudes. Na Rua da Frente, testemunhei a chegada de embarcações e iates a vela que adentravam no porto. Aqui, vivi a alegria  ímpar de nadar no rio Ivipanim rodeando o barco dos beijus. Testemunhei os caminhos rasgados na barriga do rio pelas barcaças prenhas de sal, e de canoas de velas triangulares que o tempo já levou, todos, iates, barcaças e canoas.

Em Areia Branca, a magia de ver um prefeito elegantemente vestido conduzindo uma cabra (Mimosa) presa a uma corda. Fui testemunha ocular de um horroroso crime acontecido no mercado público, e meu pai intercedeu junto ao delegado, avisando-o de que o homem se escondera em sua bodega. Àquela hora, policiais se preparavam para embarcar para Barra e Pernambuquinho.

Ainda em Areia Branca, a visão de dois ciclistas que se digladiavam para testar os limites impostos por magreleiros do Rio e de São Paulo. Aqui, soube do reboliço causado na Rua da Frente quando um marinheiro esforçava-se para conduzir uma bicicleta ainda rudimentar. Era a chegada da bicicleta. Na Rua da Frente, na década de 1950, acompanhei um menino conduzindo um rádio na cabeça, ato que entronaria a novidade do rádio portátil.

Aqui, a visão do rio Ivipanim encostadinho no oceano, pros lados do Pontal, com direito a cheiro no cangote e beliscão na barriga. Também aqui, o surgimento do poly, que era como o picolé gostava de ser chamado.

Em Areia Branca, toda a movimentação para construção do Porto-Ilha, incluindo a estória daquele engenheiro e seu mimado buldogue.

Na dimensão adulto, o encantamento ao vislumbrar a estátua do Padim Ciço, em Juazeiro do Norte, fruto do acalanto e vibração pela religiosidade de um povo.

Padim Ciço

Na visão estendida, o deslumbramento ao avistar uma cadeira gigante em uma calçada de Genebra, na Suíça. Essa cadeira mede doze metros de altura, tem uma perna quebrada, como forma de protesto contra a fabricação e o uso das minas terrestres antipessoais.

Cadeira

Ainda na visão extramuros, a beleza quase sonho do voo dos balões na Região da Capadócia, na Turquia, e um passeio pelas feirinhas locais, onde réplicas de objetos de antes de Cristo são vendidas a preços de banana, digo, de tâmaras.

E tem aquele sonho impossível. Impossível? Caminhar com os Beatles na Abbey Road? A gente dá um jeito. Resolvi meu sonho assim.

Beatles 1

Beatles 2

De Areia Branca à visão extramuros, uma vida em constante reboliço.

Porque navegar é preciso. Viver, também.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Um dia desses, Chico Brito repassou-me esta mensagem, sem indicar o autor: O futuro não é um lugar para onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando. O caminho para ele não é encontrado, mas construído, e o ato de fazê-lo muda tanto o realizador quanto o destino.

Este pensamento bate com minhas ideias acerca do nosso destino, que é feito no passo a passo de nossas vidas, em decorrência de nossas escolhas. Somos de fato responsáveis pelo nosso futuro?

Criança em Areia Branca, imaginava que nosso destino dependia do esforço e da luta pessoal. Assim, muito suor, pequenas projeções de futuro de uma criança de vida simples, pensamentos  que não ultrapassavam Barra, Pernambuquinho, de um lado, nem saíam dos domínios de Pedrinhas e Casqueira, do outro.

Hoje, li um texto de Marina Gold: Destino é aquilo que já vem pronto, ou seja, que expressa o carma, a circunstância de vida que o indivíduo precisa superar, ou fazer valer para um momento próximo, que deverá ser enfrentado por ele. Trata-se sempre de uma situação que acaba por determinar a necessidade de fazer uma escolha.

O futuro é a forma como resolvemos lidar com o destino, ou seja, aí está para ser ativado, o caminho escolhido. É possível perceber que há inúmeros futuros possíveis para que a pessoa escolha como vai agir, sendo essa escolha que determina o futuro.

Continua Marina Gold: Poder escolher uma posição quanto ao destino leva o homem a encarar seu livre arbítrio. Quanto mais destino for determinante do caminho, menos o ser humano terá a condição de exercer seu próprio comando, pois a livre escolha estará bloqueada para ser desenvolvida. Quando isso ocorre, é sinal de que o carma está agindo em função de fatores que a própria pessoa não vai escapar de colocar num acerto.

Quando tudo parecia estar em ordem, vem o maior de todos os físicos com sua Teoria da Relatividade: O futuro existe agora, e é tão mutável quanto o passado. Einstein adverte: quando sua velocidade aumenta, você corre em direção ao futuro mais rápido do que quem está parado. E arremata: Se você vai de bicicleta até a padaria, chega lá mais no futuro do que se tivesse ido a pé. Se a bicicleta andasse a 1,97 bilhão de quilômetros por hora, você sairia de casa em janeiro de 2011 e compraria seu pão no século 22. É muito difícil entendermos esses posicionamentos.

Em síntese: seu destino estaria decidido. Einstein afirmou que a diferença entre passado, presente e futuro é ilusória, porque na prática tudo o que ainda vai acontecer já aconteceu. Haveria uma explicação para isso?

O Big Bang foi uma explosão que espalhou partículas pelo Universo. Utilizando as leis da física, é possível calcular exatamente onde essas partículas irão estar e o que elas irão fazer, porque são apenas uma consequência do que aconteceu na origem do Universo. E como nós somos feitos de partículas, isso funciona para nós também. Até nossas decisões já estariam traçadas.

Tudo já estaria definido. Cristo sabia que iria ser entregue por Judas, em troca de trinta moedas. O Filho do homem vai-se, segundo está escrito a meu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do homem é traído! Melhor fora para esse homem se não houvesse nascido. Judas, que o traiu, perguntou: Porventura sou eu, Mestre? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste(Mateus 26:23-25). O filho do homem será entregue às mãos dos homens, e tirar-lhe-ão a vida; e depois de morto, ressurgirá ao terceiro dia (Marcos 9:30-32). Como Cristo sabia disso?

Destino. Futuro antecipado. Previsibilidade. Carma. A complexidade da vida.

Meu caro Chico Brito. Parece que tudo já estava definido. E fiquei enclausurado na reflexão, como esse poeta dos muros de Areia Branca.Poema AB

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

 

 

 

Reunião de areia-branquenses ontem, 26/10, em Natal, para sessão de autógrafos de 3 livros recém lançados por conterrâneos.
Tenho uma ou outra conexão com os livros.
No livro de Rogério a conexão vem por intermédio das inúmeras fotografias de meu tio Antônio do Vale (Toinho do Foto) reproduzidas no livro.
No livro de Alcindo e Paulinho, tem uma crônica que publiquei no jornal O Sal da Terra, em 1991, reproduzido nas fotografias abaixo.
A conexão mais pessoal e emotiva está no livro da prima Lúcia Eneida. Quando adolescente em Natal, eu costumava visitar Baía em sua residência na praia de Areia Preta. Sempre ficava embevecido com as lições de vida daquela mulher, sem pernas e apenas um dos braços. Culta e inteligente, tinha um papo que a ninguém era permitido perder.

Corria o ano de 1958. Em Areia Branca, eu iniciava o Curso Comercial na Escola Técnica de Comércio, que funcionava à noite no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. Durante o dia, trabalhava nas Lojas Paulista, de modo informal. Quando viajei para Natal, Chico Brito assumiu  o meu lugar, passando a trabalhar como operador de empacotamento. Eu era auxiliar de empacotador.

Chico Brito, garoto pobre como eu, sonhava ser padre, e iniciava sua carreira na religião atuando como coroinha, ajudando missas do padre Raimundo Osvaldo. O padre celebrava missa em Grossos nos domingos à noite. Os dois viajavam para  Grossos no domingo, depois do almoço, na lancha de Luiz Cirilo, rezavam a missa à noite e retornavam na segunda-feira pela manhã no barco a vela do Lulinha.

Chico Brito estudava no Grupo Escolar e, apesar de seus doze anos, sonhava em se ordenar padre no seminário de Natal. Em 1958 passou uns dias no seminário, conhecendo o lugar onde iria estudar.

Durante as missas, em Grossos, uma garota de quinze anos, que fazia parte do grupo da Cruzada, ficava de olho fixo no inexperiente coroinha, e da primeira fila enviava flechadas de amor com seus olhares de menina moça. Isso mexeu com o coração do ajudante do padre, que logo se viu amarrado pela ação de Cupido.

Certa manhã, a garota apareceu na casa de Chico Brito, e a mãe do garoto ficou o tempo todo cuidando para que os dois não ficassem um minuto sozinhos. E assim foi. À tarde, a garota, sem querer-querendo, perdeu a lancha de Luiz Cirilo que a levaria para Grossos. Resultado: a garota teve que dormir em Areia Branca.

Precavida, a mãe de Chico Brito levou a garota para dormir na casa de alguém da família, distante da sua. Quando a garota foi para o quarto, a amiga tirou a chave da fechadura. A mãe de Chico Brito, por pura precaução, fez o mesmo no quarto do jovem mancebo, providenciando um penico só para ele. Colocou até água no quarto.

No dia seguinte, a moçoila retornou a Grossos, feliz por haver conhecido a família do seu amado. De longe, por trás da Praça do Pôr do Sol, Chico Brito observava a movimentação no Tirol, chupando um poly de goiaba.

Dois dias depois, uma tia da garota apareceu na casa de Chico Brito para acertar com sua mãe a logística dos rituais que antecederiam o casamento. Mas que casamento?– perguntou a mãe do mancebo. E a tia da moça respondeu: O de Chico Brito com Marcinha, porque ela dormiu aqui e não pode ficar mal falada. A mãe de Chico Brito tentava explicar que a menina não havia dormido em sua casa, e coisa e tal, mas a senhora estava decidida a promover a união dos dois. A mulher insistia que sua sobrinha estava apaixonada, e era isso que bastava.

Ao final, a garota foi morar com uns parentes em uma cidade distante. Quanto a Chico Brito,  foi proibido de pôr os pés em Grossos, e foi levado para Natal. Mas o coroinha havia perdido o empolgamento pela vida religiosa, e não se adaptou ao seminário. Ao final, foi levado por um padre amigo para estudar o segundo grau no internato do Colégio  Marista.

Um coroinha apaixonado. Uma moçoila pra frentex, garota papo firme. Do outro lado, uma tia decidida.

Foi o fim da carreira religiosa do futuro padre Chico Brito, que hoje curte seus netos no Rio de Janeiro, onde vez por outra se encontra com o Ricardo Dimas.

De quebra, encontra-se com alguns amigos em Areia Branca, como mostra esta foto de 2016. Aqui, Chico Brito ao lado de Evaldo, Dodora, Sônia, Iara e Chico de Neco Carteiro. Ivo fez a foto.

Chico Brito

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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