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Pois é, Areia Branca, eu cresci. Assim, tive que seguir em frente, forçado a lutar pela vida,  tendo que suplantar desafios e dificuldades que se apresentaram em minha trajetória, com argumentos muitas vezes não convincentes de um menino do interior.

Quantas vezes tive vontade de desistir, enxugar as lágrimas e retornar ao ponto em que deixei as ilusões para trás, por volta dos catorze anos de idade, onde as dificuldades eram maiores, porém a vida se apresentava menos exigente.

Quantas vezes fiquei sentado à beira do caminho, olhos fixos em um ponto nada claro, turvado pelo lado B da vida, quase impossível de ser ultrapassado, coração em desalinho.

Por onde andei, muitas vezes tive que vencer preconceitos subliminares, tendo que lançar mão de argumentos e condutas aprendidos quando pisava o salitre de tuas ruas, os ensinamentos de tuas escolas, os exemplos de meus pais.

Lembrei-me de ti, Areia Branca, quando de minha primeira viagem interestadual. Fui de Natal para Brasília, em 1971, cuidar da minha residência médica. O ônibus parou em um local tão pobre que eu estranhei. Ali estava a miséria em seu estado bruto. Desci do veículo e perguntei ao motorista onde estávamos. Estamos em tal cidade, no Vale do Jequitinhonha, respondeu. Ali, entendi o real valor de morar em uma cidade com um rio passando na Rua da Frente, um manguezal repleto de vida e um vasto mar a nos cercar, península que somos.

Não dá para esquecer aquela manhã, no Atheneu de Natal, quando fomos receber um material do governo. A atendente pediu para eu colocar o rosto junto à janela do vidro escurecido, para em seguida ouvir o veredito da diretora ao lado: Pode entregar; esse tem cara de pobre. Meu colega Roberto, hoje médico em Natal, que vinha depois de mim, ao colocar o rosto na fresta de vidro recebeu um não. Esse tem cara de rico, vaticinou a diretora. Ainda hoje, rimos desse acontecimento, ao  falarmos de nossa época de estudantes.

Em muitos momentos, lembrei-me de ti em lugares muito distantes, onde séculos são contados como se  anos fossem. Ali, tive que decifrar enigmas formatados em línguas complicadas, escondidas no vácuo de expressões indecifráveis, quase ininteligíveis.

No contraponto, a vontade de seguir em frente, sabendo que um certo homem, nas ruas estreitas de Jerusalém, passou por 14 momentos de dificuldade em um único dia, para ao final entregar-se incólume a quem o enviou, há dois mil anos.

Por onde andou cada um de nós?

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Queria relembrar as noites de natal de minha meninice em Areia Branca. Mas, para isso, preciso da ajuda da poesia. Porque aqueles dias não foram de flores. Houve muitos espinhos a serem contornados.

Se nos fixarmos no último natal, no ano de 1959, lembro bem. Foi naquele natal que meus pais acertaram os detalhes para a viagem que nos levaria para a cidade de Natal, que ocorreria 38 dias depois. E aquele foi o último natal a que meu pai assistiria. Dali a 55 dias ele morreria em Natal. Foi um período tão difícil quanto decisivo em minha vida. Eu tinha 14 anos de idade, e estudava na Escola Técnica de Comércio. Todos nós tivemos momentos de dificuldades, em que nosso futuro oscila à mercê de uma decisão que, muitas vezes, não nos diz respeito.

Para compor a música Viagem, Paulo Cesar Pinheiro, então com seus 14 anos, e João de Aquino, com seus 19, já nos avisam que a poesia os ajudou, e eles foram de carona na garupa leve do vento macio…

E a poesia assim os levou: Oh tristeza, me desculpe/Estou de malas prontas/Hoje a poesia veio ao meu encontro/Já raiou o dia, vamos viajar…/Vamos indo de carona na garupa leve do vento macio…

Mas, para esta minha crônica de natal, a poesia não veio ao meu encontro, e meu texto ficou seco, árido. Restou a lembrança de havermos nos divertido muito com os brinquedos das crianças das proximidades, fosse da Rua da Frente ou da Rua do Meio, visto que nossa casa tinha a frente para a primeira e o muro de trás para a segunda.

Meu natal de 1959. A poesia não veio. O texto ficou áspero, feito mandacaru.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

                                                                               As viagens são os viajantes. O que vemos

                                                                               não é o que vemos, senão o que somos

                                                                               Fernando Pessoa

Menino da Rua da Frente, nunca tive arroubos viajatórios. Nem poderia. Somente aos doze anos fiz uma viagem. Ao pegar a sopa que me levaria a Mossoró, muitos conselhos e recomendações de minha mãe. Uma hora depois desembarcava nas proximidades do mercado público, coberto de poeira. Fiquei hospedado na casa de Chico Lino, pai de Horácio.

Em Mossoró, com ares de beradeiro, conheci um banco de verdade, ao tempo em que admirei e me encantei com o Cine Pax, com suas colunas que me pareceram monumentais. Em Mossoró também conheci um estacionamento exclusivo para bicicletas, ao lado do cinema. De quebra, vi de  perto alguns sinais de trânsito em funcionamento, respeitados pelos poucos veículos que existiam àquela época. Ali, conheci o Mercado Público de Mossoró, que até hoje me encanta. Minha segunda e mais importante viagem da a minha vida ocorreria no ano de 1960, quando nos mudamos para Natal. Como a maioria das estradas era de terra, a poeira também foi nossa companheira de viagem.

Em Natal, uma de minhas primeiras viagens foi para Mossoró, a serviço. Na volta, um imbróglio quase me tira do sério. E do emprego. É que dois auditores do INSS vieram de carona conosco para Natal e fizeram uma aposta para ver de qual lado do carro havia mais jumento. E foram contando os animais, sob minha auditoria quase sempre neutra. A viagem, que demoraria 4 horas, demorou mais de seis. É que eles pediam para parar o carro a todo momento, para que pudessem contar os jumentos que passavam em grandes grupos. Certa vez, um deles desceu e se pôs a enxotar os jumentos para o seu lado, e eles insistiam em continuar do lado contrário, e quase sai briga entre os dois.

Em julho de 1971 viajei para Brasília. Aí, sim, minha grande aventura. Foi ali que conheci o Vale do Jequitinhonha, e dei de cara com o semblante da miséria. Nessa viagem tive a oportunidade de ver uma cerração pela primeira vez. Lembrei-me da cerração ao ver, pelos caminhos da Suíça, flocos gigantes de neve juntamente com chuva forte. Algo surreal, os dois, cada qual no seu tempo.

Na cidade histórica de Sacramento, no Uruguai, um aviso colocado no alto da porta de um pequeno restaurante me ensinou coisas novas. Ali, diverti-me com a sinceridade de um poema: Abrimos quando chegamos; fechamos quando nos vamos, e se vens e não estamos é que não coincidimos.

Aviso

Quando viajo para Areia Branca, as poesias rabiscadas nos muros de Upanema me emocionam, por falar das coisas do coração, como esta: Na ilha de Maritataca Belchior é recitado para fins medicinais. Um dez é pouco.

Poesia

Quando passamos por um lugar, aí deixamos, além de pegadas, nossas células de descamação, e são muitas. Nossos pelos ficam pelos caminhos, bem como nossas secreções e excreções. Desse modo, espalhamos o nosso DNA nos mais distantes pontos deste mundo. Os pássaros alimentam-se desses elementos e em seguida servem de alimento para as pessoas, replicando os nossos caracteres. Por outro lado, esses elementos são incorporados ao solo, formando compostos que serão ingeridos por seres humanos ao se alimentarem de frutas e verduras. É assim que pequenas partes de nós vão se incorporando a este imenso mundo, através das pessoas.

Células descamadas, secreções, excreções. Perpetuação do corpo pelas veredas do mundo.

Viagens são os viajantes. Por isso, cada pessoa tem sua viagem particular, que vai muito além da viagem física.

Porque a viagem é você.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

No ano de 1957, há exatamente sessenta anos, as Festas de Natal na cidade de Areia Branca tiveram uma característica comum a todos os anteriores: aconteceu sem pompa, sem festas ou qualquer movimentação fora da curva.

Nos natais de Areia Branca, além da movimentação entre as famílias, parece que apenas a igreja se movimentava para lembrar às pessoas que no dia 25 do mês de dezembro alguém muito importante aniversaria.

O prefeito de Areia Branca era Francisco Brasil de Góis, que sucederia a Manoel Avelino. O zelo pela coisa pública era tão arraigado em sua administração que ele ameaçou de demissão o tesoureiro, caso ousasse prorrogar, por qualquer motivo, a data de pagamento dos servidores municipais.

No Brasil, no início do ano de 1957, uma grande movimentação de máquinas, equipamentos e homens dava partida para uma grande e maravilhosa epopeia: a construção da nova capital do Brasil em pleno planalto central, no interior de Goiás.

Em março, Bélgica, França, República Federal da Alemanha, Luxemburgo, Itália e Holanda assinam, em Roma, os tratados que instituem a Comunidade Econômica Europeia (CEE).

No mês de julho, Pelé estrearia na Seleção Brasileira de Futebol, aos 16 anos, e marcaria um dos gols da partida da Copa Rocca contra a Argentina, no estádio do Maracanã, inaugurado havia 7 anos.

No dia primeiro de outubro, o presidente Juscelino Kubitscheck sancionava a lei que fixava a data da mudança da nova capital federal para Brasília.

No mês de agosto, morria Washington Luiz, ex-presidente do Brasil, que seria o último presidente da República Velha. No poder, viu-se desprestigiado, mas não dava sinais de que renunciaria. Frente ao impasse, chefes militares do Exército e da Marinha depuseram o presidente, instalaram uma junta militar que em seguida transferiu o poder para Getúlio Vargas, que governou o Brasil de forma provisória entre 1930 e 1934 (Revolução de 30), período este chamado Governo Provisório. Lembremo-nos de que Getúlio se suicidou em 1954, também no mês de agosto.

Finalmente, era Noite de Natal. A maioria das crianças da cidade não tinha uma ideia do real significado daquela data. Quando muito, a comemoração naquela noite se restringiria a uma reunião em casa, com o núcleo da família.

No dia seguinte, as crianças de famílias com melhores condições financeiras iam para as calçadas ostentar seus presentes de um Papai Noel ainda desconhecido da maioria dos meninos e meninas, em especial daquelas com muitos filhos, como a minha. Mas eu enfrentava a concorrência segurando meu balão colorido, desses de festas de aniversário, com a inocência típica da idade.

Pros lados da Ilha, no meio da tarde, o som de um velho sax animava algum salão distante, nas valsas, provocando o rodopio das meninas tentando alegrar rapazes acanhados, desprovidos de coragem para encarar uma contradança.

Assim eram os Natais de Antigamente em Areia Branca.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Era quase unanimidade. A água que se consumia em Natal, até há alguns anos, era considerada de excelente qualidade, e encantava visitantes de todas as latitudes. Sempre, em Areia Branca, tivemos informações que engrandeciam as qualidades da água consumida na capital do nosso estado.

Hoje, a água oferecida nas torneiras dos natalenses apresenta desconformidade no nível do cloro, inadequação quanto à acidez e aos indicadores de coliformes, bem como nos quesitos cor aparente, presença de nitratos e turbidez.

Com base nesses dados, é fácil entender a presença de um aparelho – gelágua – em quase 100% das casas, com todos os transtornos logísticos envolvidos no transporte e entrega dos galões de água traz às pessoas mais pobres. Não tem como não falar na questão financeira.

Mas voltemos ao tempo em que a água de Natal ganhava notas de destaque em todos os quesitos aqui relatados.

Laurinho de Lauro Duarte foi servir à Marinha do Brasil em Natal, e na capital do estado, obviamente, passou a consumir aquela água maravilhosa, cuja pureza e sabor eram por todos elogiados.

Certo dia, Quiquico – irmão de Laurinho – encontrou Chico Novo e, conversa vai conversa vem, tocaram no assunto Laurinho. Quiquico, irmão amoroso, passou a elogiar o desempenho de Laurinho no curso realizado na Base Naval de Natal (*). No auge da conversa, e já empolgado, Quiquico soltou essa:

– Rapaz, a água de Natal é tão boa que até o coquinho que Laurinho tem na parte de trás da cabeça diminuiu.

Ontem, água milagrosa. Hoje, fora dos padrões de consumo. Coisas do Brasil.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

(*) A Base Naval de Natal contribui para o funcionamento e operação das Forças Navais, Aeronavais e de Fuzileiros Navais estacionados ou em trânsito na sua área de atuação. A Base dispõe de um dique flutuante medindo 118 metros de comprimento e 23 de largura capaz de docar navios com até 20.000 toneladas. Fonte: Wiquipédia.

 

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