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                                                                               As viagens são os viajantes. O que vemos

                                                                               não é o que vemos, senão o que somos

                                                                               Fernando Pessoa

Menino da Rua da Frente, nunca tive arroubos viajatórios. Nem poderia. Somente aos doze anos fiz uma viagem. Ao pegar a sopa que me levaria a Mossoró, muitos conselhos e recomendações de minha mãe. Uma hora depois desembarcava nas proximidades do mercado público, coberto de poeira. Fiquei hospedado na casa de Chico Lino, pai de Horácio.

Em Mossoró, com ares de beradeiro, conheci um banco de verdade, ao tempo em que admirei e me encantei com o Cine Pax, com suas colunas que me pareceram monumentais. Em Mossoró também conheci um estacionamento exclusivo para bicicletas, ao lado do cinema. De quebra, vi de  perto alguns sinais de trânsito em funcionamento, respeitados pelos poucos veículos que existiam àquela época. Ali, conheci o Mercado Público de Mossoró, que até hoje me encanta. Minha segunda e mais importante viagem da a minha vida ocorreria no ano de 1960, quando nos mudamos para Natal. Como a maioria das estradas era de terra, a poeira também foi nossa companheira de viagem.

Em Natal, uma de minhas primeiras viagens foi para Mossoró, a serviço. Na volta, um imbróglio quase me tira do sério. E do emprego. É que dois auditores do INSS vieram de carona conosco para Natal e fizeram uma aposta para ver de qual lado do carro havia mais jumento. E foram contando os animais, sob minha auditoria quase sempre neutra. A viagem, que demoraria 4 horas, demorou mais de seis. É que eles pediam para parar o carro a todo momento, para que pudessem contar os jumentos que passavam em grandes grupos. Certa vez, um deles desceu e se pôs a enxotar os jumentos para o seu lado, e eles insistiam em continuar do lado contrário, e quase sai briga entre os dois.

Em julho de 1971 viajei para Brasília. Aí, sim, minha grande aventura. Foi ali que conheci o Vale do Jequitinhonha, e dei de cara com o semblante da miséria. Nessa viagem tive a oportunidade de ver uma cerração pela primeira vez. Lembrei-me da cerração ao ver, pelos caminhos da Suíça, flocos gigantes de neve juntamente com chuva forte. Algo surreal, os dois, cada qual no seu tempo.

Na cidade histórica de Sacramento, no Uruguai, um aviso colocado no alto da porta de um pequeno restaurante me ensinou coisas novas. Ali, diverti-me com a sinceridade de um poema: Abrimos quando chegamos; fechamos quando nos vamos, e se vens e não estamos é que não coincidimos.

Aviso

Quando viajo para Areia Branca, as poesias rabiscadas nos muros de Upanema me emocionam, por falar das coisas do coração, como esta: Na ilha de Maritataca Belchior é recitado para fins medicinais. Um dez é pouco.

Poesia

Quando passamos por um lugar, aí deixamos, além de pegadas, nossas células de descamação, e são muitas. Nossos pelos ficam pelos caminhos, bem como nossas secreções e excreções. Desse modo, espalhamos o nosso DNA nos mais distantes pontos deste mundo. Os pássaros alimentam-se desses elementos e em seguida servem de alimento para as pessoas, replicando os nossos caracteres. Por outro lado, esses elementos são incorporados ao solo, formando compostos que serão ingeridos por seres humanos ao se alimentarem de frutas e verduras. É assim que pequenas partes de nós vão se incorporando a este imenso mundo, através das pessoas.

Células descamadas, secreções, excreções. Perpetuação do corpo pelas veredas do mundo.

Viagens são os viajantes. Por isso, cada pessoa tem sua viagem particular, que vai muito além da viagem física.

Porque a viagem é você.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

No ano de 1957, há exatamente sessenta anos, as Festas de Natal na cidade de Areia Branca tiveram uma característica comum a todos os anteriores: aconteceu sem pompa, sem festas ou qualquer movimentação fora da curva.

Nos natais de Areia Branca, além da movimentação entre as famílias, parece que apenas a igreja se movimentava para lembrar às pessoas que no dia 25 do mês de dezembro alguém muito importante aniversaria.

O prefeito de Areia Branca era Francisco Brasil de Góis, que sucederia a Manoel Avelino. O zelo pela coisa pública era tão arraigado em sua administração que ele ameaçou de demissão o tesoureiro, caso ousasse prorrogar, por qualquer motivo, a data de pagamento dos servidores municipais.

No Brasil, no início do ano de 1957, uma grande movimentação de máquinas, equipamentos e homens dava partida para uma grande e maravilhosa epopeia: a construção da nova capital do Brasil em pleno planalto central, no interior de Goiás.

Em março, Bélgica, França, República Federal da Alemanha, Luxemburgo, Itália e Holanda assinam, em Roma, os tratados que instituem a Comunidade Econômica Europeia (CEE).

No mês de julho, Pelé estrearia na Seleção Brasileira de Futebol, aos 16 anos, e marcaria um dos gols da partida da Copa Rocca contra a Argentina, no estádio do Maracanã, inaugurado havia 7 anos.

No dia primeiro de outubro, o presidente Juscelino Kubitscheck sancionava a lei que fixava a data da mudança da nova capital federal para Brasília.

No mês de agosto, morria Washington Luiz, ex-presidente do Brasil, que seria o último presidente da República Velha. No poder, viu-se desprestigiado, mas não dava sinais de que renunciaria. Frente ao impasse, chefes militares do Exército e da Marinha depuseram o presidente, instalaram uma junta militar que em seguida transferiu o poder para Getúlio Vargas, que governou o Brasil de forma provisória entre 1930 e 1934 (Revolução de 30), período este chamado Governo Provisório. Lembremo-nos de que Getúlio se suicidou em 1954, também no mês de agosto.

Finalmente, era Noite de Natal. A maioria das crianças da cidade não tinha uma ideia do real significado daquela data. Quando muito, a comemoração naquela noite se restringiria a uma reunião em casa, com o núcleo da família.

No dia seguinte, as crianças de famílias com melhores condições financeiras iam para as calçadas ostentar seus presentes de um Papai Noel ainda desconhecido da maioria dos meninos e meninas, em especial daquelas com muitos filhos, como a minha. Mas eu enfrentava a concorrência segurando meu balão colorido, desses de festas de aniversário, com a inocência típica da idade.

Pros lados da Ilha, no meio da tarde, o som de um velho sax animava algum salão distante, nas valsas, provocando o rodopio das meninas tentando alegrar rapazes acanhados, desprovidos de coragem para encarar uma contradança.

Assim eram os Natais de Antigamente em Areia Branca.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Era quase unanimidade. A água que se consumia em Natal, até há alguns anos, era considerada de excelente qualidade, e encantava visitantes de todas as latitudes. Sempre, em Areia Branca, tivemos informações que engrandeciam as qualidades da água consumida na capital do nosso estado.

Hoje, a água oferecida nas torneiras dos natalenses apresenta desconformidade no nível do cloro, inadequação quanto à acidez e aos indicadores de coliformes, bem como nos quesitos cor aparente, presença de nitratos e turbidez.

Com base nesses dados, é fácil entender a presença de um aparelho – gelágua – em quase 100% das casas, com todos os transtornos logísticos envolvidos no transporte e entrega dos galões de água traz às pessoas mais pobres. Não tem como não falar na questão financeira.

Mas voltemos ao tempo em que a água de Natal ganhava notas de destaque em todos os quesitos aqui relatados.

Laurinho de Lauro Duarte foi servir à Marinha do Brasil em Natal, e na capital do estado, obviamente, passou a consumir aquela água maravilhosa, cuja pureza e sabor eram por todos elogiados.

Certo dia, Quiquico – irmão de Laurinho – encontrou Chico Novo e, conversa vai conversa vem, tocaram no assunto Laurinho. Quiquico, irmão amoroso, passou a elogiar o desempenho de Laurinho no curso realizado na Base Naval de Natal (*). No auge da conversa, e já empolgado, Quiquico soltou essa:

– Rapaz, a água de Natal é tão boa que até o coquinho que Laurinho tem na parte de trás da cabeça diminuiu.

Ontem, água milagrosa. Hoje, fora dos padrões de consumo. Coisas do Brasil.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

(*) A Base Naval de Natal contribui para o funcionamento e operação das Forças Navais, Aeronavais e de Fuzileiros Navais estacionados ou em trânsito na sua área de atuação. A Base dispõe de um dique flutuante medindo 118 metros de comprimento e 23 de largura capaz de docar navios com até 20.000 toneladas. Fonte: Wiquipédia.

 

Areia Branca, 24 de dezembro de 1955. Nessa época, era prefeito o Dr. Manoel Avelino, e a cidade passava por um momento de efervescência, apesar das escassas obras de infraestrutura urbana. A Escola Técnica de Comércio, onde funcionava o Curso Comercial Básico, criado em 1952 pelo prefeito José Solon, representava o nível de ensino por todos desejado, inclusive eu, onde cursei até o segundo ano. Os estudantes orgulhavam-se de ostentar sua farda cáqui com uma listra na lateral. Aliás, Listra era uma antiga cidade de uma província romana, situada ao sul de Icônio, atual Konya, por onde o Apóstolo Paulo anunciou o Evangelho em suas viagens missionárias, conforme relata o livro de Atos do Novo Testamento da Bíblia. Konya é a cidade onde viveu o profeta Mevlana, e hoje famosa pelo desenvolvimento das atividades dos dervishes dançantes.

G.E. Cons. Brito GuerraGrupo Escolar Conselheiro Brito Guerra

PracinhaPracinha com a igreja ao fundo

Na sonora do alto do Palacete Municipal, as músicas de Nelson Gonçalves (A Última Estrofe e A Camisola do Dia), Orlando Silva (Aos Pés da Santa Cruz e Curare), de Dalva de Oliveira e de Ângela Maria e Cauby Peixoto eram anunciadas em altos decibéis, e empolgavam grupos de estudantes e trabalhadores que se juntavam nos bancos da pracinha ou ao longo do passeio. Aqui, rapazes e moças a rodopiavam em torno da pracinha, no depois dos eventos religiosos. Os rapazes, preocupados com o Gumex ou com a brilhantina, confirmavam no tato a presença do espelhinho redondo no bolso da frente da calça; no de trás, um pente Flamengo aguardava a hora de ser utilizado às escondidas, na lateral da igreja, sob os auspícios da escuridão. Era noite de Natal.

Juventude da épocatirolsalmac

Juventude da cidade e foto do Tirol

No dia seguinte, as crianças de famílias com melhores condições econômicas saíam às ruas com o intuito único de ostentar seus presentes de Papai Noel. Eram carrinhos, bicicletas, pequenos triciclos e patinhos de madeira com um cabo, a fazer barulho na vizinhança.

Ao lado esquerdo da nossa casa, na Rua da Frente, Haroldo – o menino que queria ser paraquedista -, filho único de dona Hilda e José Leonel, em estado de euforia entrou gritando na sala da minha casa: Eu vi Papai Noel descendo pela parede! E nos levava apressado para vermos algumas arranhaduras na parede do seu quarto, bonito e arrumado. Eram as marcas do bom velhinho que escorregara com seu saco para deixar o presente, que ele punha à nossa disposição para brincar. Na minha mão direita, um balão colorido, desses de festa de aniversário, cheinho, quase a explodir. Era o meu presente, acalentado junto ao peito. Meu Papai Noel também tinha sido muito generoso. Comigo e com meus nove irmãos.

No meio da tarde, o som de um velho sax animava alguns salões, com o rodopio das meninas a alegrar rapazes acanhados, sem coragem para encarar uma contradança.

Ontem ou hoje, a alegria do Natal só depende de nós mesmos

Crônica publicada no jornal Prieira Mão

Ano II, n. 6, 1998

 

Durante toda minha juventude areia-branquense presenciei e ouvi histórias do mais fino humor, algumas antológicas. Entre tantos personagens, quase-mitos, desse nosso acervo humorístico, destacarei o Zé, filho de Antônio Noronha, para contar uma história pouco conhecida. Jamais fiquei sabendo quem o apelidou de Zé Moconha, nem a verdadeira motivação do apelido. Dizem que era por causa de um tipo de cigarro que ele apreciava, mas não sei se isso é verdade. O que é verdade é que o dito cujo era um poço de estripulias. Quando bebia, e isso não era raro, Zé Moconha aprontava; às vezes com o mais surpreendente e refinado bom-humor; às vezes com a mais brutal violência. Quando extrapolava, a polícia intervinha, com a condescendência que se deve ter com um inocente travesso. Certa vez, bêbado como só ele sabia ficar, montou um cavalo e resolveu dar voltas na praça da Matriz, galopar pela rua do Meio e entrar no Cine Miramar. Quando finalmente o delegado de polícia conseguiu interpelá-lo, foi logo justificando:

– Zé, você vai ficar preso porque tentou entrar no cinema e andou a cavalo sobre a praça.
– Pela entrada no cinema o senhor pode me prender, mas pelo passeio na praça eu não mereço. A volta que eu dei num sentido, foi desfeita quando eu dei a volta no sentido contrário.

Quando sóbrio, era a doçura em pessoa. Minha mãe e minhas tias nunca acreditaram que o Zé fosse capaz de fazer aquelas coisas que diziam. Embora ligado por laços familiares, nunca tive uma grande aproximação com Zé Moconha, talvez por causa da diferença de idade. Contaram-me que quando eu era criança (por volta dos 4 ou 5 anos), Zé Moconha e amigos, incluindo o Cônego Ismar, costumavam divertir-se com minhas imitações (dizem que minha imitação do João de Quidoca era engraçadíssima).

Bem no início dos anos sessenta, antes de Antônio Noronha sair de Areia Branca, Zé Moconha foi a Natal e hospedou-se na casa dos meus avós, com os quais eu morava durante o período escolar. Aproveitamos um domingo e fomos visitar uma exposição agropecuária em Parnamirim. Não consigo lembrar como lá chegamos, e não consigo esquecer como de lá saímos.

O Zé começou a tomar umas e outras; coquetéis diversos. Divertia-se à vontade. Quando o dia foi escurecendo, eu, nos meus 12 anos, comecei a ficar preocupado quanto ao retorno. Zé Moconha não tava nem aí. “De algum jeito a gente sai daqui!” Dizia na maior tranqüilidade. Finalmente, ele consumiu o último centavo de daiquiri.

– E agora, Zé?
– Vam’bora!

Eu ainda estava tentando imaginar como aquele “Vam’bora!” ia se transformar em realidade, quando percebemos um monte de gente subindo num caminhão. Iam até a Igreja São Pedro, no Alecrim. Subimos e ficamos encostados na grade, no final da carroceria. Lembro que o Zé perguntou o preço da passagem, mas eu não estava preocupado com o valor; qualquer que fosse, não tínhamos um tostão para pagá-la. Eu não imaginava como, mas confiava que Zé Moconha haveria de encontrar uma solução para pagar nossas passagens. Em plena viagem, alguém inicia a cobrança lá na outra ponta da carroceria. Imediatamente Zé Moconha começa também a cobrar as passagens, a partir da traseira do caminhão. Mais ou menos no meio da carroceria, os cobradores (o verdadeiro e o falso) encontram-se, e o Zé, na mais cândida inocência diz:

– Pronto, daqui para trás tá tudo pago!

outubro 2018
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