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Em todas as viagens que fiz a Areia Branca, o caminho era sempre o indicado no mapa rodoviário. Natal, Riachuelo, Lajes, Angicos, Açu, Mossoró. Localizado na metade do caminho, o Monte do Cabugi era nossa referência. É um lanche aqui e almoço no Passárgada, recheado com um papo cabeça com Toinho Tavernard.

No ano de 2016, resolvemos sair de Natal para Areia Branca desbravando novos caminhos. Saímos de Natal no dia 9 de agosto, passamos por Tangará; Santa Cruz em seguida, e daí a Acari. A partir desse ponto, esquecemos o mapa e tomamos o rumo que as bifurcações indicavam. Passamos por Milagre e Barbalha na Paraíba e adentramos o estado de Pernambuco; e, em um sem-querer-querendo, à noite estávamos em Juazeiro do Norte, a terra do Padim Ciço.

Depois de algum tempo em Juazeiro do Norte, retornamos por Cajazeiras com destino a Pau dos Ferros. No final da tarde passávamos por Mossoró, e fomos dormir em Areia Branca. Era a noite do dia 13 de agosto de 2016.

Em 2017 saímos de Natal sem caminhos definidos. Sabíamos que Areia Branca era nosso ponto de chegada, mas deixamos Natal sem saber por onde iríamos. Era meio dia quando passamos por Mossoró. Seguimos em frente e chegamos a Aracati. Por volta das dezenove horas passávamos pela costela mindinho de Fortaleza. Fomos em frente e paramos em Itapagé, onde dormimos. Ainda sem saber para onde iríamos, chegamos a Sobral pela manhã e à tarde vislumbramos Teresina, a bonita capital do Piauí, com seus inacreditáveis 23 graus Celsius. Era importante curtirmos Teresina nesse período de frio, e lá ficamos. Retornamos por Piripiri, Tianguá, Ubajara, Guaraciaba do Norte, Ipu, Hidrolândia e Santa Quitéria, e daí a Canindé, onde dormimos. De Canindé a Quixadá, e dali a Russas, onde almoçamos. De Russas a Mossoró levamos duas horas,  e passamos direto para Areia Branca na tarde do dia 13 de agosto.

No ano de 2018 saímos de Natal às oito horas e por volta das nove chegávamos a Bom Jesus, antiga cidade de Panelas. Daí fomos para Serra Caiada, cujo nome era  Presidente Juscelino. Lanchamos em Tangará e à tarde chegávamos a Caicó, onde passamos a noite. De Caicó a Jardim de Piranhas em pouco mais de hora e meia, e daí a Serra Negra do Norte, onde almoçamos. Ali, um povo bastante educado e escolarizado nos recebeu e nos encantou. À tarde chegamos a Carnaúba dos Dantas, que tem o Castelo Di Bivar como uma de suas atrações turísticas.

Um problema técnico obrigou-nos a retornar direto para Natal, onde chegamos à noite. Em 2018 não chegamos a Areia Branca.

No dia 16 de maio de 2019 seguimos o esquema de sempre: Natal, Serra Caiada, Tangará, Acari e Caicó, e ali almoçamos. Patu seria nosso próximo destino, e daí a Brejo do Cruz, a terra de Zé Ramalho. Nosso destino era Martins. Hospedamo-nos  no Hotel Serrano, em Martins, onde à noite consumimos uma panela de sopa que perderia apenas para a sopa do Hotel Costa Branca. Saímos de Martins no rumo de Campo Grande, onde almoçaríamos no Point Gourmet. Passamos por Mossoró às quinze horas e às dezesseis estávamos em Areia Branca. Um passeio pela praia de Upanema acalmou nossa ansiedade.

Hoje, uma constatação: os caminhos que nos levam a Areia Branca não estão nos mapas rodoviários, mas no eletrocardiograma.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Em 1892, o território que correspondia ao recente povoado de Areia Branca foi desmembrado do município de Mossoró, com a elevação da condição de povoado para a categoria de vila de Areia Branca. Naquela época, faziam parte das terras areiabranquenses o que hoje conhecemos como os municípios de Grossos e de Tibau.

Assim nascia a nossa cidade, como nos conta Gibran Araújo com seus detalhes de pesquisador. Areia Branca expandiu-se, acrescentando nossos pais e em seguida surgimos nós, os areiabranquenses das décadas de 1940, 1950 e 1960.

Nesse tempo, o progresso, as novidades. Na área das comunicações, a galena veio antes do rádio, que logo seria uma novidade, apesar da chiadeira e da escassez de emissoras. As do Rio de Janeiro eram as mais sintonizadas.

Certa manhã, na Rua da Frente, Tututa (marinheiro, filho de dona Branca, irmão de Lázaro) caminhava ao lado de um adolescente carregando na cabeça um rádio que funcionava sem o fio ligado à tomada. Na passarela da nossa História, o rádio portátil desfilava pela primeira vez sob a sombra dos pés de fícus benjamina. Eu devia ter entre seis a oito anos de idade.

No início dos anos 1950 a cidade já dispunha de um comércio exuberante, tendo como ponto de referência a Rua da Frente. Ali localizavam-se as principais lojas, bodegas, oficinas, e armazéns da cidade. Nessa época surgiria a geladeira movida a querosene. Uma novidade que nós, meninos da Rua da Frente e os da parte de baixo da Rua do Meio, conheceríamos na casa de Antônio Tavernard. Carlos Alberto,  morador da casa vizinha, que o diga!

Não tive o prazer de testemunhar a chegada da televisão em Areia Branca. Assisti à Copa do Mundo de 1958 pelo rádio. A televisão estava surgindo no Brasil, e eu viria conhecê-la em Natal.

Areia Branca foi uma das primeiras cidades brasileiras a conhecer a bicicleta, na década de 1930. De forma displicente, um marinheiro anônimo tumultuava a Rua da Frente montado em um equipamento estranho. Era a bicicleta, que surgira no Brasil no ano de 1898, aproximadamente 32 anos antes.

Nos anos 1950, a bicicleta se tornaria uma febre entre as crianças de famílias de melhor situação financeira. A Rua do Meio era pavimentada com carago, e por isso era o local preferido para um passeio à tarde, do Cine Coronel Fausto até a pracinha. Para resolver essa carência de bicicletas, os irmãos Popõe e Chiá, com sua visão empreendedora, passaram a gerenciar, mesmo que de forma precária, o nicho comercial rent a bike, que era disponibilizado na pracinha. Gerenciavam também um carrinho de bebidas e doces. Popõe é uma corruptela de dois tostões, pois era assim que ele falava.

Testemunhei, ainda pequeno, a alegria do povo de Areia Branca quando a água jorrou pela primeira vez de um poço artesiano, quente e de excelente qualidade. Não presenciei a chegada da água encanada.

Não pense que esqueci da construção do Porto-Ilha, da mecanização das salinas nem da motorização das barcaças e das canoas!

Areia Branca, a história do progresso passa por esses fios.

Da areia ao carago, e daí ao asfalto.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Na vida todos temos um segredo inconfessável,

 um arrependimento irreversível,

um sonho inalcançável e um amor inesquecível.

Diego Marchi.

Em Areia Branca, imagino ter sido ele o único garoto que realmente desejava ser paraquedista. Com apenas seis aninhos de idade, em suas conversas ele sempre dizia que ia ser paraquedista. Em seus sonhos, o voo em queda livre surgia com frequência, pondo em desordem sua inquieta cabecinha. O Papai Noel, renascido todos os anos, quando chegava o natal, saindo de uma lareira, para ele o velhinho descia de paraquedas, e escorregava fazendo marcas nas paredes do seu quarto. No alto do imenso pé direito, antigas pucumãs testemunhavam em silêncio.

No quintal de sua casa, na Rua da Frente, a observação cuidadosa do voo dos raros passarinhos era uma tarefa de todos os dias. Quantas vezes, sentado sobre o quarador de roupas, imaginou-se, qual menino-passarinho, em voos pelos céus de Areia Branca, fosse em rasantes pelas várzeas, pros lados de Pedrinhas, assustando os maçaricos e contemplando antigos cataventos. Talvez, imaginava, pudesse chegar a Mossoró.

Hoje, o menino entende que os sonhos são, em boa parte, determinados pelas ideias formadas em nosso dia a dia, e em Areia Branca dos anos 1950, era muito difícil manter certas ideias com a mesma formatação por muito tempo. É que, face às dificuldades, essas ideias perdem força, esmaecem e somem. No futuro, apenas a lembrança de um sonho que a realidade tratou de abortar, deixando apenas restos placentários.

Ao sumirem tais ideias, em seu lugar pode restar um vácuo no espaço-tempo, ou aos poucos serem substituídas por novas propostas. Para isso, é essencial que  se reforce o conhecimento, que se conte com o exemplo e o apoio da família, além de muito estudo e esforço pessoal. Do contrário, acomodação e desistência. Aqui, a necessidade de criação de novos repertórios para formatação de outros voos, só que desta vez sem o paraquedas.

E assim o menino fez. Mudou de Areia Branca para uma cidade grande, estudou engenharia robótica e hoje está se aposentando de seu trabalho em uma empresa que desenvolve software para aviação comercial.

O voo. A mesma paixão. O mesmo sonho em nova formatação.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) Aqui, um sonho, uma alegoria, uma metáfora baseada em fatos reais

 

 

 

 

 

Com a perspectiva da chegada de Lampião a Mossoró, parentes e amigos foram deslocados para Areia Branca, especialmente depois da troca de cartas entre o cangaceiro e o prefeito Rafael Fernandes, no mês de junho de 1927. A partir daí, os habitantes de Areia Branca passaram a aventar a hipótese de aquele bando de cangaceiros invadir a cidade, repleta de praias.

As conversas na cidade retratavam o clima de puro espanto vivido pelas famílias que aqui moravam. Todos sabiam das dificuldades que os cangaceiros poderiam enfrentar para chegar até aqui, pois Areia Branca, à época, era uma ilha. Quando pequeno, na bodega do meu pai – e lá se iam mais de trinta anos da imaginada invasão -, vez por outra o tema das conversas era o terror vivido pelas pessoas da cidade.

O bando de Lampião era uma horda de selvagens, composta por cerca de cem homens, imundos, portando fuzis, rifles, revólveres e pistolas, além de punhais longos e curtos. Eram violentos e não tinham outro propósito que não fosse a rapinagem. Esse bando atuou em terras do Rio Grande do Norte durante quatro dias, de 10 a 14 de junho de 1927.

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No dia 13 de junho de 1927 o prefeito de Mossoró recebeu uma carta de Lampião ameaçando invadir Mossoró, caso sua exigência de pagamento dos quatrocentos contos de réis – atualmente, cerca de 20 milhões de reais – não fosse atendida.

“Cel Rodolfo. Estando Eu até aqui pretendo drº. Já foi um aviso, ahi pº o Sinhoris, si por acauso rezolver, mi, a mandar será a importança que aqui nos pede, Eu envito di Entrada ahi porem não vindo essa importança eu entrarei, ate ahi penço que adeus querer, eu entro; e vai aver muito estrago por isto si vir o drº. Eu não entro, ahi mas nos resposte logo. Capm Lampião.”

E o prefeito respondeu:

“Virgulino, lampião. Recebi o seu bilhete e respondo-lhe dizendo que não tenho a importância que pede e nem também o comércio. O Banco está fechado, tendo os funcionários se retirado daqui. Estamos dispostos a acarretar com tudo o que o Sr. queira fazer contra nós. A cidade acha-se, firmemente, inabalável na sua defesa, confiando na mesma. Rodolfo Fernandes. Prefeito, 13.06.1927”.

Em face da negativa do prefeito de Mossoró, foi providenciada a evacuação da cidade, sendo seus moradores enviados às pressas para diversos locais. Muitos seguiram para Porto Franco e daí levados a Areia Branca. Para Areia Branca  também foram enviadas caixas de dinheiro do Banco do Brasil, e acomodadas em embarcações fundeadas na boia de terra, em frente à praia de Upanema. Muitas pessoas também ficaram nessas embarcações, enquanto outras se hospedaram em casas de amigos e parentes.

Cópia da carta de Lampião ao prefeito de Mossoró, que me foi presenteada pelo presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RN:

Carta de Lampião

Mossoró resolveu esse imbróglio de forma heroica, como todos sabemos

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Jararaca foi enterrado vivo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

Em nossa romaria/2018 iniciamos nossas visitas pela cidade de Serra Caiada, um município do Rio Grande do Norte criado em 24 de novembro de 1953. O nome do município homenageia uma serra de 285 metros de altitude; o termo Caiada se deve à coloração esbranquiçada da rocha.

Em 31 de dezembro de 1963, passados apenas dez anos de sua criação, o nome da cidade foi  mudado para Presidente Juscelino, no que seria uma homenagem ao ex-presidente, o último estadista a governar este país. Mas o novo nome não foi bem aceito pela população, obrigando a Câmara Municipal, no dia 24.ll.1994, a  decretar o retorno ao antigo nome de Serra Caiada. Ainda hoje seus habitantes são chamados juscelinenses.

Serra

Consta que o nome da cidade seria Juscelino Kubistchek. Acontece que, em meio às turbulências que marcaram aquele dia da aprovação do projeto de mudança do nome, os vereadores se reuniram para que fosse definida a grafia correta do segundo nome do ex-presidente. Na dúvida, o nome da cidade ficou Presidente Juscelino.

 Areia Branca carrega em sua história um imbróglio semelhante. No dia 16 de fevereiro de 1892, a povoação teve sua categoria elevada para Vila de Areia Branca. Em 22 de outubro de 1927, decorridos 35 anos de sua emancipação política, a vila foi elevada à categoria de Cidade de Areia Branca.

Gibran Araújo, pesquisador da história areiabranquense, descobriu um engano nas datas que marcam a emancipação política e a criação do município. É que no ano de 1987 foi sancionada a lei que decretou como feriado municipal o dia 22 de outubro, em alusão ao aniversário da Cidade de Areia Branca. Na verdade, essa data se refere ao dia em que a vila foi elevada à categoria de cidade, e não ao  dia em que o município foi propriamente emancipado de Mossoró, completa o estudioso.

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Elevação p:cidadeElevação para cidade – Fotos acervo Gibran Araújo

Em suma, parece não haver dúvida de que o processo formal de emancipação política de Areia Branca se instaurou com o decreto de criação do município, publicado pelo Governo do Estado em 16 de fevereiro de 1892.

Em Serra Caiada, a vontade do povo.

Em Areia Branca, equívoco que se eterniza.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

 

 

 

 

 

 

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