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Final de tarde. O sol já cansado recolhe-se no horizonte, deixando ver o cocuruto quase calvo de pequenos arbustos ressequidos. Aqui termina a estrada, digo, a vereda. Pelas características do local, bem depois de Pedrinhas, no sentido de Mossoró. Não há barulho de carro na estrada de terra que passa ao lado. Quase não há carro por aqui. Na acomodação de uma visão quase turva, a descoberta de algumas casas formando um semicírculo. No centro, aquele espaço de terra que antecede os degraus de uma igrejinha. Mas onde está a igrejinha?

Com a visão acomodada e a alma em desespero, percebo que não há pessoas nas casas, que estão vazias, sem qualquer sinal de vida. Comigo, apenas o silêncio e a perplexidade. Não há ruído algum. Tento retornar para Areia Branca, porém a vereda que me trouxera desaparecera na semiescuridão, em um Uber do tempo.

Imagino avistar a imagem de um jumento no centro do pátio, mas ela desaparece.Orientando-me pelos cacos de luz de que a penumbra se apoderou, percebo uma roda gigante parada no movimento do tempo. Do outro lado, um elemento me lembra um carrossel. Aproximo-me. Desejo, melhor, balbucio algo desejando que o carrossel gire comigo, mas a cinética ficou onde estava, e o silêncio não me responde.

Tem que haver alguém por aqui, pensei em minha estranheza isenta de temor. E o silêncio junto a mim, falando comigo, enquanto contemplo com dificuldade todos os elementos em meu campo visual, sem vida e sem luz.

No final da madrugada quase manhã, descubro-me caído no banheiro de minha casa. Levanto-me sem dor em qualquer região do corpo. Acho estranho a posição em que me encontrava, deitado com o peito sobre a tampa do sanitário. Quanto tempo estive caído, como que desmaiado? E a visão do meu lugarejo encheu-se de cores. Porém na foto que busco em minha mente falta algo. Não lembro o quê.

No dia seguinte, uma ecografia não mais registra um cálculo renal de 5 mm que até a véspera estava ancorado na entrada do ureter, junto ao rim.

No corpo, a higidez dos sem dor. Na alma, o entendimento de um passeio onírico que me livrara de uma terrível cólica nefrética. Agora vamos tomar um café com tapioca, falei comigo, como gosto de fazer.

Ele, mais uma vez.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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Ancorado no descompromisso, iniciei uma romaria/via-sacra pessoal em agosto deste ano, saindo de Natal com destino a Juazeiro do Norte, desligado de relógio e calendário. Era o deixar-se ir.

Nos caminhos de ida, Tangará e Boa Saúde nos orientavam para as terras de Santa Cruz; daí a Currais Novos e Caicó foi fácil. Logo depois, enfim, conheceria Pombal e um rio de nome estranho – Saco do André. Um tropeço no mapa e fomos parar na cidade de Patos, na contramão do nosso ponto futuro, Juazeiro do Norte. Mais uma boa surpresa ao nos depararmos com uma cidade que nos impressionou por seu estágio de desenvolvimento. Finalmente, Juazeiro do Norte nos receberia ao cair da noite.

Entre Barbalha e Milagres, mais um tropeço e adentramos Pernambuco. Foi um sem-querer-querendo que serviu como amostra – tipo biópsia – do alto nível de desenvolvimento daquele Estado.

Cajazeiras muito nos impressionou. Imaginava uma cidade pequena, de população reduzida. O que vimos foi uma efervescência de pessoas e mercadorias que nos profetiza o futuro promissor que se avizinha.

Mas eu tinha um encontro com o Padim Ciço, que foi marcado em um quintal de uma festa de são-joão em Brasília, ele vestido a caráter.

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Ainda na estrada, utilizando os binóculos do interesse, uma metrópole despontava altaneira, vibrante. Eram os primeiros sinais de Juazeiro do Norte na paisagem. Ao transitarmos por suas ruas bem calçadas, a certeza de uma economia forte, onde a aura e a mística do Padre Cícero Romão Batista influenciam comportamentos e decisões. Em Juazeiro percebemos uma aura mística semelhante à que flui nas cidades de Assis, na Itália, e Santiago de Compostela, na Espanha. Só indo para entender.

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No cedinho de uma manhã que se anunciava quente, uma parada que obedecia a um quase inaudível chamado. Era o Padim Ciço em pessoa.

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– Garoto, finalmente!

– Eu, garoto?!

– É que tens apenas alguns minutos de vida. Ela começa a partir de agora.

– Soube que fizeste uma bonita litania do penitente. Sei que tua via sacra pessoal foi um tempo de reaproximação e de descobertas.

– Ora, padim, foi uma simples ladainha.

– Litania, garoto! Isto é o que é. E por que não vieste aqui falar comigo? Eu te diria sobre os modos do meu povo, suas lutas e necessidades. Sei que conheces – e bem – os caminhos e as encruzilhadas. Falta o mote.

– É que fiquei sem jeito.

– Pois retoma o tema. Atrás, à tua direita está o roteiro. Toma a caneta, coloca o chapéu e refaz o percurso.

Fortalecidos com o encontro, enfim chegamos a Areia Branca na antevéspera da festa de Nossa Senhora dos Navegantes, trazendo conosco os bons fluidos de Apodi e Mossoró. Areia Branca, apesar das conhecidas dificuldades, caminha com passos decididos no rumo de um desenvolvimento ordenado.

Pelos caminhos, boas estradas. Pelas cidades, sinais de vida pujante.

Coisas do desenvolvimento.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Há alguns meses o menino sempre fizera aquilo. À tarde, no depois da escola, ele saía cedo para o trabalho. Em casa, dificuldades muitas. À noite, sob a luz amarelada a enfumaçada de uma piraca impregnada de tisna, punha seus estudos em dia.

Em casa, o clima estava tenso. O pai, transtornado, dera para beber, e o menino tinha que, de alguma forma, proteger sua mãe, um elo frágil naquela atribulada corrente familiar. Na mente, lembranças de um tempo bom. Lembrava de uma casinha branca com uma árvore na frente, com um banco junto ao tronco. Riu, ao lembrar de Bicudo, um cão narigudo que fora adotado por sua família.

A lembrança de uma viagem não saía de sua cabeça. Muito depois do antes de ontem, quando seu pai ainda trabalhava nas barcaças, viajara para Mossoró. Tomara um trem em Porto Franco e descera em Mossoró. Sua mãe fora junto. O pai iria participar de um encontro de marítimos. O menino não entendia por que em Mossoró, pois lá não tinha barcaça. Durante a viagem, brincou com as árvores que estavam distantes, fingindo chamá-las com a mão, e logo desapareciam ao lado de sua janela. O menino ficou deslumbrado. Não sabia que existiam cidades tão grandes e bonitas, com sinais de trânsito. Tinha até banco, onde as pessoas podiam colocar e retirar dinheiro.

O menino não conseguia entender certas colocações de seus pais, como mecanização das salinas, motorização das barcaças, início da construção do porto-ilha, adaptação a novas tecnologias. Não compreendia como um homem que sempre trabalhara em barcaças tinha que perder o emprego devido a essas tais de novas tecnologias. Mas sabia que foi por isso que sua família saiu da casinha branca com um flamboyant na frente, pros lados de Pernambuquinho. Sabia também que estavam se preparando para viajar rumo a uma grande cidade. Mas não sabia qual.

Não era fácil chegar à escola. Distante de casa, tinha que caminhar meia légua na ida e, no retorno, brincava com a maré cheia, bulindo com os peixinhos que vinham à beira da água espionar sua passagem. Ou, na maré baixa, recolhia alguns pequenos búzios e casquinhas de taiobas, que pareciam as asas de um monstro que vira na única vez que fora ao cinema em Areia Branca, do outro lado do rio. Lembrava do nome: Cine São Raimundo, bem no fim de uma rua que saía da Rampa, passava pela prefeitura, seguia pelo mercado público, passava pelo grupo escolar e desembocava em um descampado, com o cinema à esquerda. Ao fundo, lembrava da construção de um prédio muito grande. Na placa, não conseguia ler um nome estranho: Kubish… Ah, não lembrava o nome.

Naquele final de tarde, porém, tudo parecia ainda mais difícil. Prometera à mãe que retornaria com a janta, e aquela seria sua última tentativa. A maré avançava, e o menino, sentado, de frente para o trabalho, tentava iludir as sombras que, em conluio com réstias tremelicantes de um  sol que se ia, tentavam escurecer o seu já difícil campo de trabalho. O local era apertado, e seus pés já calejados tentavam escapar de inimigos cortantes, lâminas de boca escancarada, à espera do fitoplâncton, filtros vivos que eram.

Mas o buraco era profundo, direto para o oco da Terra, e o braço pequeno e fino não ajudava muito. E tudo dependia daquela empreitada. A noite se aproximava, trazendo consigo a cruviana, a desventura e o desencanto. O menino estava sujo, com as roupas em frangalhos; logo, mais dois buracos à sua volta foram identificados por aqueles olhinhos aflitos, cor de mel. Lutar era preciso, e o menino bem o sabia.

Ao final, exausto, colocaria em seu bornal mais três belos caranguejos. Jantar garantido. De volta para casa, pediu desculpas aos pequeninos animais, porém a panela os esperava.

BEIRA DO MANGUE

Assim é a vida.

Fim de tarde no Campo da Saudade. O time de Manoel de Marina empata com Mossoró, 1×1. Faltando 15 minutos para o término da partida, Manoel manda entrar 3 jogadores. Juiz apita, parando o jogo e indaga:

14 jogadores?

Manoel invade o campo e aos berros diz:

Não tem o 13 de Campina Grande? Aqui é o 14 de Areia Branca.

É o fim do Jogo.

O quebrar das ondas na praia de Upanema; a batida de martelos pregando cavilhas nos cascos das barcaças; o “chuá” de pequenas marolas da maré de enchente; são ruídos encasquetando o juízo deste saudosista incontrolável, remetendo-me para um encontro com minha não esquecida meninice. E, num sonho memorável, ouço o cantar de galos madrugadores: seria o de dona Zulmira de Quinca Caetano, ou o de dona Cecília de Alfredo Bernardo ou, quem sabe, o  de dona Nanola de Zé Birunga?

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Praia de Upanema, 1990 (Foto Vale).

E outros sons invadem meus ouvidos, como invadiam as ouças daquele menino acostumado às andanças pela beira do cais. Agora, são os apitos dos rebocadores “Salinas”, “São Miguel”, “Mossoró”, “Macau”, ou o longo apito do trem, ao alcançar Carro Quebrado, prestes a chegar em Porto Franco. E, como se estivesse no patamar da igreja, escuto o plac-plac-plac da matraca, convidando os fiéis para os ritos da Semana Santa.

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Porto Franco, anos 1960 (Foto Antônio do Vale)

E o acorde do clarim do Exército também me comove: Será o cabo Brasil, ou o soldado Canindé executando tão bem o toque de silêncio? Sim, o toque de silêncio. Aquele som plangente que varava a noite de incertezas ordenando à população o recolhimento ao lar. Em Areia Branca vivíamos o período de apreensões causado pela Conflagração Universal.

Quem não tem saudade da sirene do velho Cine coronel Fausto, avisando aos seus habitués a hora de começar a sessão? E o dobrar do sino da Igreja, (sem ser aquele do filme “Por Quem os Sinos Dobram?”) cujos repiques, Antônio Sacristão, irmão de Marciana, tocava tão bem? E, por falar em Marciana, quem esqueceu dos seus alaridos, suas queixas?
– “Valei-me meu padrinho Lustosinha”, – que deixavam José Brasil preocupado, pois era na saleta do seu cartório que ela, Marciana, despejava o produto de suas lamúrias!

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Prédio onde funcionou o Cine Cel. Fausto (dois andares), na época calçamento da Rua Cel. Fausto (antiga Rua do Meio). Foto Vale.

Ah! E do misto de Chico Germano, cuja buzina tocava aquela modinha do cangaço? “Acorda Maria Bonita/ Levanta vem fazer o café/ O dia já vem raiando/ E a polícia já está de pé”. Se não posso ouvir todos esses ruídos, pelo menos tenho esperança de escutar, brevemente, as batidas do relógio da igreja, há algum tempo “aposentado”. O prefeito Souza prometeu que restauraria o marcador das horas com suas badaladas. E Souza não é homem de prometer para faltar! Somente um pedido, senhor prefeito: aproveite, e recupere a varanda que havia no topo da torre. Era linda e dava um charme todo especial. Os saudosistas agradecem.

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(Crônica publica na Gazeta do Oeste, Mossoró, RN.)

outubro 2017
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