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Uma foto do pôr do sol de Areia Branca. Precisava de uma foto para contemplar um dos mais belos pores de sol do Brasil. Pode ser em qualquer praia da cidade, mas se for de Upanema será melhor. Pode ser do rio Ivipanim, feita da beira do cais da minha infância. Preciso de uma foto.

Neste blog, encontrei um texto escrito pelo nosso amigo médico areiabranquense Marcelo Almeida e lá estava uma foto, que replico abaixo, com a justificativa de que este seria um dos mais belos pores do sol do mundo.

No texto, Marcelo lamenta a perda do charme e da elegância de caminhar pela Rua da Frente à tardinha. E complementa que ao cair da noite, andar pelo Cais Tertuliano Fernandes, defronte à pracinha, é como atravessar uma planície vazia, onde se sente falta de tudo; de histórias e de lendas, de sonhos realizados e de ilusões, dos sorrisos e das lágrimas, e das viagens transcendentais dos boêmios, dos poetas e dos homens apaixonados.

Pôr do sol MarceloFoto de Marcelo

Mas eu precisava de uma foto recente, com um pôr de sol sereno, ciente de toda a sua beleza para tentar apaziguar o desencanto que me assolava o peito.

Ao final, Marcelo acrescenta fogo e tempero ao seu texto, ao dizer que ninguém se arrependerá se, numa tarde qualquer, resolver ir ao Cais e contemplar a cena. O certo é que quem já foi vê-la, ou quem um dia for, toda vez que a vir novamente noutros lugares do Planeta, pensará que um dia já assistiu, em Areia Branca, ao Pôr do Sol mais bonito do mundo. Satisfiz-me com esse epílogo do amigo escritor e colega de profissão.

Porém eu precisava de uma foto recente do pôr do sol em Areia Branca, até para medir a validade ou prescrição do que havia escrito Marcelo.

E eis que Sônia, mesmo sem que eu solicitasse, me enviou uma foto, digo, duas fotos, tecnicamente perfeitas, do pôr do sol na Rua da Frente, feitas à altura da alfândega, no final do cais, no sentido de Zé Filgueira.

Pôr do Sol 1

Na segunda foto, um pescador da perna de pau se intromete no momento do clic para anarquizar, porém o efeito foi benéfico. E o pôr do sol se agigantou com o elemento das pernas de pau, e ficou ainda mais bonito. Não foi enviado o nome do(da) autor(a) da foto, para os devidos créditos.

Por do sol 2

Marcelo tem razão. Difícil um pôr do sol mais bonito.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

N. S. Navegantes original

Imagem descoberta em Ponta do Mel

Em Areia Branca, a grande importância da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes no ano de 2011 não se resumiu ao fato de ser a comemoração de seu Centenário. Foi muito mais além. É que essa festa nasceu do povo.

Não foram Conselhos Eclesiásticos ou nenhuma outra autoridade religiosa que inspiraram o povo a valorizar o evento, mas a fé de um marítimo-maquinista, homem da gente areia-branquense, chamado Manoel Félix do Vale, que, em maio de 1911, mergulhou em águas bravias para cortar uma corda enroscada na hélice do Vapor Assu, que rebocava a embarcação “Sucesso” de Areia Branca à Cidade do Recife. Félix se comprometeu consigo e com Deus, caso triunfasse, a comprar uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes para, todos os anos, realizar uma procissão no Rio Ivipanim. O ato heróico salvou os barcos, sua própria vida e a de todos os tripulantes. E ele, ao retornar, deu início ao cumprimento da promessa.

Contudo, houve muitas pedras na trajetória histórica da celebração à Virgem dos Navegantes areia-branquense até que se tornasse o esplendor que é hoje. Fala-se que a idéia dum cortejo marítimo de veneração à Santa dos Marinheiros não foi bem aceita pelo Clero local que, naturalmente, influenciava o pensamento dos representantes político-administrativos da época. E isso, certamente, deve ter sido um dos mais importantes fatores que tornaram muito difícil sustentar a penitência.

A dificuldade de manter seu compromisso com a Senhora dos Marítimos talvez tenha sido uma das razões do marujo Félix ter-se ido de Areia Branca, deixando aqui a Imagem, que, posteriormente, foi levada para Ponta do Mel por seus familiares. Lá ela foi descoberta quase cem anos depois.  Mas, apesar de todos os obstáculos e intempéries, e a exemplo de toda fé que nasce do seio popular, como aconteceu com as “Crianças de Fátima” em Portugal, com Joana D’Arc na França e com tantos outros, a profissão de fé dum marinheiro se transformou em identidade religiosa do povo areia-branquense, fundindo-se, logo, à sua cultura e à sua tradição

Procissão marítima

Procissão na época dos barcos à vela e nos tempos de hoje

Por isso é que a Celebração de 2011 foi tão importante. Foi um Centenário que relembrou o jeito de crer duma gente e sua maneira de demonstrar gratidão a Deus e aos Santos.  Certamente, se não fosse uma festa de origem essencialmente popular, poderiam ter passado cem, duzentos e até mil anos, e poucos teriam dado importância. O ato de fé do marujo estaria perdido no tempo, se não tivesse sido acolhido e incorporado pelo povo.

Então, digamos Viva a Manoel Félix do Vale, esse nobre marinheiro, e a Nossa Senhora dos Navegantes, de Areia Branca.

(*) Atualização da crônica publicada no blog areia-branquense Costa Branca News em 31/07/2011.

O escritor areia-branquense Chico de Neco Carteiro, a quem, no mundo literário, insistem em chamar de Francisco Rodrigues da Costa, lançou, na última terça-feira, 17/11/2015, na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Guanabara, sua mais recente obra. Chico, naquela noite, exalava alegria, devido ao contato com grandes amigos que haviam ido prestigiá-lo e, principalmente, matar a curiosidade sobre o conteúdo do novo livro. De fato, Rodrigues já cravou alicerces no universo literário potiguar. A cada trabalho, há um novo frenesi de leitores fiéis, sobretudo os areia-branquenses.

casChicoNecoCarteiroJoseRodriguesLiacir151117

Carlos Alberto, Chico, Zé Rodrigues e Liacir

Tendo começado na Literatura como cronista, focando-se no memorialismo do mundo areia-branquense, ele agora se aventura pelos romances. Este é o seu segundo. O primeiro foi Perdão. Mas, não deixou cair no esquecimento os traços iniciais. Seus textos são recheados de memória. É uma literatura de romances memorialistas, ou de memorialismos romanceados. Em Guanabara, Chico despeja, em 180 páginas, os dramas de sua vida. Conta sua história de amor com a falecida esposa Zezinha, e o sofrimento com a doença e o falecimento de suas duas filhas. É uma história de vida e de morte. Contudo, ele não se desfez da leveza de sua narrativa, tampouco esqueceu Areia Branca, presença constante em sua obra. Tal qual no universo real, na dimensão literária, Rodrigues jamais perdeu a ternura e a poesia. Certamente, esse romance seria trágico, se não fosse terno e poético.

Para homenagear a Chico, em razão de sua literatura encantadora, como escritor que não esquece, jamais, Areia Branca, e também para brindar aos fiéis leitores, transcrevo, a seguir, um recorte de Guanabara. É uma crônica memorialista, inserida no romance.

“[…] O Silêncio de Daniela

Muitas vezes, acompanhei Telé à salina Monteprimo, a ele arrendada, para ver o andamento dos serviços contratados. Sempre visitávamos a casinha do motor. Ali, foi instalada uma bomba de sucção. Meados da década de sessenta, os moinhos de vento já estavam em desuso. O encarregado da estação captadora de água geralmente dormia tranquilamente, apesar da barulheira infernal que o mecanismo fazia. Certa vez perguntei como ele conseguia tal façanha.

– Desperto de supetão quando o motor pára. – foi a resposta.

2015.11.22 Guanabara capaEu lembrava aquele diálogo de quarenta e cinco anos passados, justamente a idade de Daniela, quando olhava o seu corpo já sem vida. Mergulhado em pensamentos, eu rezava pelo descanso de sua alma. Eram as primeiras horas do dia nove de agosto, e, na capelinha de Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, acontecia o velório de minha filha, cujo óbito se dera no final da tarde do sábado recém findo.

Minha mente, naquela hora, se enchia de lembranças, como se eu pudesse mudar o destino traçado por Deus: nesses últimos cinco anos, após a retirada, com sucesso, de um nódulo na hipófise, tudo fazia crer que vencêramos a guerra contra o inimigo. Muitos detalhes foram passados. Quantas viagens, Jesus, fiz com Daniela a Fortaleza. Algumas para simples visitas médicas. Outras tantas, quando sua saúde complicava, para internamento hospitalar. E, inúmeras vezes, quase desesperado, reclamei contra aquela espécie de castigo que desabava sobre mim. Mas, logo, encontrava consolo para minha queixa destituída de fé: ‘Deus só entrega uma cruz a quem suporta carregá-la’. Refeito, tomava o lenho, continuando a caminhada.

Hoje, quinze dias que Daniela não vive mais comigo, algumas pessoas ainda me consolam: ‘Deus reservou para sua filha um lugar livre de sofrimentos’.

Ainda bastante saudoso pela falta de minha filha, decido me deslocar até Areia Branca no dia 15 de agosto. Na cabeça de qualquer areia-branquense é difícil não latejar, nesse dia, a lembrança da procissão marítima, dedicada à Virgem dos Navegantes. Acompanhado por Zélia, minha irmã, Néo, meu genro, Rodrigues e Rachel, meus netos, me mando para lá, buscando lenitivo.

Ao alcançar as imediações da praia de Upanema, o cheiro da maresia começa a me retemperar. Esse odor me leva ao passado, em saudosas e alegres recordações. Prefiro sempre a Travessa dos Calafates para chegar ao centro da cidade. Tomo a Rua Coronel Liberalino e alcanço a pracinha da igreja.

Do seu patamar, apreciava o movimento na maré. Aquele cenário me fez recordar o ano de 1982, quando levei Daniela para a festa de agosto.

Em meio ao turbilhão de imagens e sentimentos, lembrei do operário que acordava de súbito com a parada do motor. Naquele instante, apossou-se de mim a dor da saudade, era o silêncio de Daniela […]”

2011.08.30 Cemitério de Père-Luchaise em Paris2

Cemitério de Père Luchaise – Paris

Além de morada eterna, os cemitérios, há anos, têm sido verdadeiras galerias de arte relacionadas à arquitetura e à escultura. Aristocracias, burguesias, oligarquias e outras classes detentoras de dinheiro e poder transformaram túmulos e capelas em suntuosas estruturas, mostrando que, mesmo diante da morte, o luxo ainda se mantém como marca registrada de suas posições sociais. Os Campos Santos se converteram, dessa maneira, em necrópoles de ostentação. E essa necessidade humana de exibir magnificência ante corpos sem vida e já consumidos pela areia é fato notório em todos os lugares do mundo, desde os Cemitérios de Père Lachaise em Paris, de Highgate e de Kensal Green em Londres até os da Consolação em São Paulo e da Recoleta em Buenos Aires.

2011.08.30 Cemitério da Consolação São Paulo2

Cemitério da Consolação – São Paulo

Por aqui, nas Terras das Areias Brancas, ainda não se chegou a esse grau de exibicionismo. Talvez porque, até agora, não tenhamos acumulado riquezas e poder para tanto. Ou quem sabe pelo fato de que, simplesmente, sejamos um povo diferente. Seja por uma causa ou por outra, a realidade é que não temos uma dessas necrópoles em nossas planícies salgadas. Mas, não se sabe a razão, Deus tratou de recompensar-nos. Ele nos deu um Campo de Descanso Eterno de frente para o Oceano Atlântico. É o Cemitério de São Cristóvão, na zona rural areia-branquense.

2011.08.30 Cemitério da Recoleta em Buenos Aires

Cemitério da Recoleta – Buenos Aires

No alto duma colina, com vista privilegiada dum extraordinário contraste entre o azul do mar do Nordeste Brasileiro e o do firmamento, a Morada dos Mortos em São Cristóvão muito mais parece um paraíso. Certamente, se pudessem, inúmeras celebridades históricas, enterradas nos lugares mais famosos do mundo, prefeririam jazer ali a dormir eternamente sob a tristeza de suas terras frias, cobertas de névoas e de céus nublados, contrastando com esculturas de cimento cinza-enegrecidas ou de cobre verde-azinhavre, símbolos da nostalgia.

 

2011.08.30 Belezas de São Cristóvão

À esquerda: vista à partir da Colina do Cemitério. À direita, o Cemitério. São Cristóvão – Fotos de Agosto de 2011.

O retrato de nossa pequena “Necrópole São-Cristovense”, pois,  é de alegria e de luz, reflexo de uma gente que gosta de viver e sentir o mundo da maneira mais pura. São pescadores, agricultores, carroceiros e outros tantos. Para eles, o destino cuidou de oferecer a suntuosidade dos belíssimos mares, terras e céus areia-branquenses.  Um luxo que a Natureza lhes deu e que, até hoje, nenhum aristocrata, burguês, oligarca ou qualquer outro dessas espécies pôde comprar para seus mortos.

E assim, ostentar a imponência de belezas naturais ante o sono eterno da morte, por enquanto, é um privilégio apenas do nosso povo e uma marca registrada de Areia Branca.

(*) Crônica publicada na imprensa local areia-branquense em agosto de 2011.
Manoel2

Manoel de Marina

Numa manhã de 25 de dezembro, o pároco local, conduzindo a celebração fúnebre ante o caixão do tradicional morador de Areia Branca, perguntou se algum dos presentes teria algo a dizer em testemunho da vida daquele cristão ora falecido. Marcondes, um de seus filhos, apresentou-se e contou que o pai falava sempre que tinha recebido em dobro o que pedira a Deus.

O fato aconteceu em 2008 e faz parte da biografia do conhecido Carpinteiro Naval areia-branquense Manoel de Marina, cujo nome de batismo é Manoel Lino de Mendonça. De maneira poética, uma peculiaridade sua, ele contava aos filhos e aos amigos mais próximos que, no início de sua carreira, teve dificuldades de ser reconhecido como carpinteiro. Diante daquela situação, numa noite qualquer da semana, no bequinho de sua casa, sentado em sua antiga cadeira de balanço, mirou as estrelas, o céu sem nuvens, e rogou a Deus que as pessoas o reconhecessem como um bom profissional. Pediu ao Criador o reconhecimento do seu trabalho. Não suplicou por dinheiro nem por fama, tampouco por prazeres e vaidades.

O Poti - nível internacional II

Recorte do jornal “O Poti”, de 21/04/1985.

Cerca de 30 anos depois, no início de 1985, já estabelecido como extraordinário artífice naval e considerado por muitos o melhor carpinteiro de Areia Branca e da região, o velho Manoel recebeu a visita do norte-americano John Patrick Sarsfield, famoso engenheiro e historiador marítimo, especializado em caravelas portuguesas e construtor da réplica da Caravela Niña, do navegador Cristóvão Colombo. O cientista estadunidense pesquisava sobre técnicas antigas de construção naval no Nordeste Brasileiro e, ao ver aquele homem, que sequer havia terminado os estudos de primeiro grau, fazer projetos de engenharia e construir embarcações, ficou impressionado.  E logo se espantou ao saber em seguida que nosso mestre da carpintaria havia aprendido sozinho, no livro Arte Naval, da Marinha do Brasil, a estrutura e a arquitetura de navios. Era um autodidata.

Dias mais tarde, no domingo, 21 de abril de 1985, Manoel Lino se surpreendeu quando leu, no jornal natalense O Poti, uma nota de 27 linhas, contando-se com o título, em que se dizia que ele, o simples carpinteiro de uma pequena cidade do litoral norte-rio-grandense, era “… considerado um projetista e construtor de barcos, de nível internacional… um gênio, perdido em Areia Branca…”. Para quem é acostumado à fama e a ver seu nome estampado na imprensa, não haveria nada de excepcional nisso. Mas, para aquele humilde trabalhador, foi a coroação de sua vida profissional.

À noite, nesse dito domingo, no mesmo bequinho, e na cadeira de balanço, o carpinteiro olhou novamente o céu estrelado, como havia feito 30 anos atrás, e falou pela primeira vez: Deus me deu em dobro!

(*) Crônica publicada no blog areia-branquense Costa Branca News em 07/08/2011.
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