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Noite de sexta-feira. No noticiário da televisão, crise, desencanto, politicagem no nível do inacreditável, cidadãos constrangidos. Em casa, a disposição para uma taça de vinho branco. Ao menos uma.

Coloquei duas crônicas sobre Areia Branca, já publicadas neste blog, na tela do computador, lado a lado (o OSX versão 10.11.6 comporta duas telas ao mesmo tempo). Mais uma taça. E fui misturando as taças e os textos, capturando e juntando frases, amalgamando trechos, formatando parágrafos, destrinchando linhas… Somente no outro dia me dei conta do que restara, ao final: um realismo fantástico em um labirinto caleidoscópico meio-sonho meio-pesadelo. Ei-lo:

Na beira do cais, no depois das dez da noite, uma olhada para o manguezal na tentativa de vencer a escuridão. Impossível. Do outro lado do rio, apurando a audição, percebi parte do silêncio em retirada, com suas pegadas de algodão. Em frente ao Palacete Municipal, no rés-do-chão, percebia-se um desalinho de antigas bicicletas que Chiá, irmão de Popõe, alugava logo ali na costela mindinho da pracinha. Na esquina da prefeitura, a casa de Manoel Bento servia de prumo para um olhar no sentido do Cine Coronel Fausto. Virei-me e percebi um vulto de pés descalços. Era o menino-eu caminhando apressado no sentido da seta invertida, promovendo uma desconfusão pretérita.

 Eu, confuso, preso ao anzol do tempo, aguardava o desligar da usina de luz e a despedida da sonora no alto da prefeitura. No meio do rio Ivipanim, uma canoa adentrava o momento híbrido da natureza, em que a escuridão da madrugada empurra a barriga da noite para assumir suas atribuições gris – na metade mais escura, em conluio com uma lua que, justo naquela noite, fora atrapalhada por compromissos no depois do escuro, na tentativa de esconder-se de salpicos do sol.

 Um filme retrofílico me assalta no instante agora, ponto ancorado no momento plus, e os sinais que hoje me chegam trazem estórias de taiobas que já foram, siris de ontem que ainda nadam em águas que tremelicam a um vento genérico, misto de Praia do Meio e de Upanema . Ali pululam estórias holográficas de barcaceiros de um passado quase hoje. A saudade juntou-se ao desencanto e, cansados de singrar mares bravios, aportaram na entrada da barra, pros lados do Pontal, com a visão de um cintilante Tibau à sua direita.

 O rio Ivipanim parado, em obediência à preamar determinada pelo dono das águas salgadas. Percebia-se um instável vai-não-vai determinado pela prepotência do mar, enquanto este decidia se retornava ao oceano bem ao lado, deixando a montante a salobridade de um rio afinal liberto. Ali, olhos postos na calmaria, e plenos do nada, a saudade e o desencanto contemplam o que um dia tudo aquilo fora. No patamar da igreja, percebi que o silêncio desaconchegara-se do ruído recém-desadormecido. Desaproximo dali e me junto a um grupo no rumo do Hotel de Upanema.

 Chegando a Upanema, um olhar na escuridão para os lados de Tibau, onde pequenos pontos luminosos assumiam os sinais de vida no reino das areias que sabemos coloridas. Imaginei Majorlândia, um pouco depois do ponto zero, onde RN e CE quase se fundem de tão agarradinhos. Nesse mundo Upanema, um velho farol recupera forças para o seu trabalho na noite escura. Sabe que marinheiros no limite do perdido esperam um sinal que os conduza ao ponto estático.

 No hotel, fui abduzido de um sonho e levado à Rua do Meio em um pesadelo que não era meu. E a impressão de que grupos de trovões aguardavam determinação para agir no anonimato, levados por nuvens prenhas d’água, assessoradas por raios ciclópicos de um Olimpo salitrado. Ali, senti a desvantagem de não ser poeta.

 O sono me arrastou pelo braço, sem ao menos se desculpar com o mar em frente. Fui!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

No meio do rio Ivipanim uma canoa adentra as seis horas, no momento híbrido¹ da natureza, em que a noite empurra a barriga da tarde para assumir suas atribuições gris, em conluio com uma lua que, justo naquele dia, fora atrapalhada por compromissos no depois do escuro, na tentativa de esconder-se de salpicos do sol.

À distância, grupos de trovões aguardam determinação para agir no anonimato, levados por nuvens prenhas d’água, assessoradas por raios ciclópicos de um Olimpo Universal. Deslizando o olhar para os lados de Tibau, os últimos sinais do que fora um clarão de fogo se desvanecem com o apagar das velas achatadas feitas pelo brilho de areias coloridas que se esparramaram no rumo de Majorlândia, um pouco depois do ponto zero, onde RN e CE quase se fundem de tão agarradinhos.

O rio parado, em obediência à preamar determinada pelo dono das águas salgadas, em um instável vai-não-vai determinado pela prepotência do mar, enquanto este decide se retorna ao oceano bem ao lado, deixando a montante a salobridade de um rio afinal liberto.

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E a canoa bem ali, no centro do quase tudo, à espera de resoluções no nível do onirismo, que extrapolam seu orçamento de decisões.

Sua vela triangular, alaranjada pelos respingos da água salobra, parece desvanecer-se sob o olhar confuso do canoeiro, já quase encoberto pelo escuro que lhe resta.

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No depois do sonho, uma canoa metamorfoseada, agora movida a motor de popa, retorna sem qualquer resquício de poesia, e isenta de ternura.

Volta barulhenta, seca, mais veloz, no rumo do futuro.

(¹) diz-se de palavra formada por elementos tomados de línguas diferentes, como bicicleta: bi (latim), cicle (grego), eta (dim.f., do italiano etta). (Internet)

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

agosto 2017
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