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Nossa vida é fruto de experiências, observações, coisas vividas. Menino em Areia Branca, convivi com as conversas que aconteciam nas bodegas, com clientes de todas as latitudes. Na Rua da Frente, testemunhei a chegada de embarcações e iates a vela que adentravam no porto. Aqui, vivi a alegria  ímpar de nadar no rio Ivipanim rodeando o barco dos beijus. Testemunhei os caminhos rasgados na barriga do rio pelas barcaças prenhas de sal, e de canoas de velas triangulares que o tempo já levou, todos, iates, barcaças e canoas.

Em Areia Branca, a magia de ver um prefeito elegantemente vestido conduzindo uma cabra (Mimosa) presa a uma corda. Fui testemunha ocular de um horroroso crime acontecido no mercado público, e meu pai intercedeu junto ao delegado, avisando-o de que o homem se escondera em sua bodega. Àquela hora, policiais se preparavam para embarcar para Barra e Pernambuquinho.

Ainda em Areia Branca, a visão de dois ciclistas que se digladiavam para testar os limites impostos por magreleiros do Rio e de São Paulo. Aqui, soube do reboliço causado na Rua da Frente quando um marinheiro esforçava-se para conduzir uma bicicleta ainda rudimentar. Era a chegada da bicicleta. Na Rua da Frente, na década de 1950, acompanhei um menino conduzindo um rádio na cabeça, ato que entronaria a novidade do rádio portátil.

Aqui, a visão do rio Ivipanim encostadinho no oceano, pros lados do Pontal, com direito a cheiro no cangote e beliscão na barriga. Também aqui, o surgimento do poly, que era como o picolé gostava de ser chamado.

Em Areia Branca, toda a movimentação para construção do Porto-Ilha, incluindo a estória daquele engenheiro e seu mimado buldogue.

Na dimensão adulto, o encantamento ao vislumbrar a estátua do Padim Ciço, em Juazeiro do Norte, fruto do acalanto e vibração pela religiosidade de um povo.

Padim Ciço

Na visão estendida, o deslumbramento ao avistar uma cadeira gigante em uma calçada de Genebra, na Suíça. Essa cadeira mede doze metros de altura, tem uma perna quebrada, como forma de protesto contra a fabricação e o uso das minas terrestres antipessoais.

Cadeira

Ainda na visão extramuros, a beleza quase sonho do voo dos balões na Região da Capadócia, na Turquia, e um passeio pelas feirinhas locais, onde réplicas de objetos de antes de Cristo são vendidas a preços de banana, digo, de tâmaras.

E tem aquele sonho impossível. Impossível? Caminhar com os Beatles na Abbey Road? A gente dá um jeito. Resolvi meu sonho assim.

Beatles 1

Beatles 2

De Areia Branca à visão extramuros, uma vida em constante reboliço.

Porque navegar é preciso. Viver, também.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Ensinem as crianças a tomar consciência dos seus sonhos.

Rubem Alves

21 de março, Dia Mundial da Poesia

Um botãozinho que permita àquele menino vislumbrar o hoje de sua meninice em Areia  Branca, levando consigo o condão do enfrentamento de seus fantasmas, tão pequenos, tão simples, com a real dimensão do medo, que surgem no breu das noites, sugerindo um convênio irrestrito com a cruviana. Fantasmas que vêm do rio, trazendo consigo ruídos de cordas, mastros e velas. Em uma enganosa imagem criada pelo temor, surge um desconexo som de vozes de homens sem rumo que vagam na escuridão do cais, em eflúvios que vão e voltam, às expensas da cruviana.

Logo, a chuva no rosto o adverte de que se encontra em disparada no sentido da parte de cima da Rua do Meio, e se descobre aos gritos, de braços abertos, feito um pião-menino girando em torno da pracinha atrás da igreja, em que na noite anterior moçoilas andavam em pequenos grupos, a passos lentos, de braços dados e de forma cadenciada, fazendo o mesmo, no sentido oposto ao dos rapazes. É um sem querer-querendo na medida da provocação, em um compasso sub reptício com a música da sonora, gritada do alto do Palacete Municipal.

Pracinha:prefeitura

Na verdade, toda essa misancene tem como pano de fundo um eventual encontro  com aquela menininha de olhos de esmeralda que mora em uma casinha cinza da Rua do Progresso, que o menino conhecera na saída do grupo escolar, e seguira seu vulto até desaparecer no umbral da casinha cinza, mas não sabe seu nome.

Pelos caminhos do retorno ao real do hoje, como em uma projeção acelerada, o agora evaldonauta assiste a crianças brincando em ruas sem calçamento, em uma noite quente, pessoas nas calçadas. Dessa barreira passado-presente vazam si bemóis desafinados, com fragmentos de antigas cantigas de roda, e o menino identifica algo como lagarta pintada, quem foi que te pintou… E na tela enigmática a projeção vai em um crescendo, como se um triturador do tempo misturasse todos os sons e todas as imagens, e o resultado dessa cremação fosse espargido nas águas salobras do rio Ivipanim.

Silêncio. Uma bancada, um computador, livros espalhados. Ao lado, uma taça com restos de vinho branco português delata o onirismo pretérito,sem que fosse  necessária a oitiva de testemunhas, como diria aquele criminalista amigo meu.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue.

  Se sentir saudades, mate-as. Se perder um amor, não se perca.

Mas, se o achar, segure-o. Fernando Pessoa.

Para a ciência, o sonho é uma experiência de imaginação do inconsciente durante nosso período de sono. Para Freud, os sonhos noturnos são gerados na busca pela realização de um desejo reprimido. Recentemente, descobriu-se que até os bebês no útero sonham, mas não se sabe com o quê. Wikipédia.

Não sei se esse sonho foi de fato sonhado, ou brotou na imaginação daquele menino de então, ocupando um espaço no virtual que havia em seu coração. O empresário de hoje era um garoto de treze anos, e as imagens se misturavam. Em seu onirismo, uma  informação simples e de fácil acesso entrava em pauta: ela viria para a festa de Nossa Senhora dos Navegantes no dia 15 de agosto que se aproximava? Sob uma imagem turva e confusa, essa informação não surgia clara em seu sonho.

E agosto chegou, trazendo consigo mais incertezas. O menino vestia uma calça de mescla (ou era brim coringa?) quando partiu para São Paulo com seus pais, onde travaria uma luta insana em busca de espaço no mundo dos negócios. Pela ação corrosiva dos anos, cada vez mais a figura daquela garota perdia nitidez, e a cada dia fugia mais e mais de sua mente, face ao turbilhão de experiências e emoções que se acumulavam nas preocupações do jovem empresário.

Nas imagens confusas desse sonho, a ideia que tinha das feições da menina-moça iam se esvaindo, perdendo nitidez. Ele sabia não ser uma questão de pixels. Há algum tempo, restava uma lembrança esparsa dos raros encontros na pracinha, com direito a pouco menos que um abraço.

Lembrança turva, confusa, mistura de rostos e uma dispersão de imagens e sons. Sumiu o pouco da sombra que dela restava. Àquela altura, conseguia formar em sua mente apenas um esboço, como traços em um canvas jogado em uma parede ao fundo. Ali, rabiscos mal acabados da menina de sua adolescência, baseados em sombras da memória, que mandara fazer por um desses desenhistas de rua, com o coreto da pracinha servindo de referência.

cópia de Pracinha com coretoDesperta de repente. Olha em volta. Percebe que está em seu escritório, sentado em uma cadeira. No canto direito da extensa bancada, na frente do computador, uma taça com restos de um vinho branco português do Alentejo aparece como candidata a uma delação não premiada, prontamente rechaçada.

Um sonho (?).

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

Final de tarde. O sol já cansado recolhe-se no horizonte, deixando ver o cocuruto quase calvo de pequenos arbustos ressequidos. Aqui termina a estrada, digo, a vereda. Pelas características do local, bem depois de Pedrinhas, no sentido de Mossoró. Não há barulho de carro na estrada de terra que passa ao lado. Quase não há carro por aqui. Na acomodação de uma visão quase turva, a descoberta de algumas casas formando um semicírculo. No centro, aquele espaço de terra que antecede os degraus de uma igrejinha. Mas onde está a igrejinha?

Com a visão acomodada e a alma em desespero, percebo que não há pessoas nas casas, que estão vazias, sem qualquer sinal de vida. Comigo, apenas o silêncio e a perplexidade. Não há ruído algum. Tento retornar para Areia Branca, porém a vereda que me trouxera desaparecera na semiescuridão, em um Uber do tempo.

Imagino avistar a imagem de um jumento no centro do pátio, mas ela desaparece.Orientando-me pelos cacos de luz de que a penumbra se apoderou, percebo uma roda gigante parada no movimento do tempo. Do outro lado, um elemento me lembra um carrossel. Aproximo-me. Desejo, melhor, balbucio algo desejando que o carrossel gire comigo, mas a cinética ficou onde estava, e o silêncio não me responde.

Tem que haver alguém por aqui, pensei em minha estranheza isenta de temor. E o silêncio junto a mim, falando comigo, enquanto contemplo com dificuldade todos os elementos em meu campo visual, sem vida e sem luz.

No final da madrugada quase manhã, descubro-me caído no banheiro de minha casa. Levanto-me sem dor em qualquer região do corpo. Acho estranho a posição em que me encontrava, deitado com o peito sobre a tampa do sanitário. Quanto tempo estive caído, como que desmaiado? E a visão do meu lugarejo encheu-se de cores. Porém na foto que busco em minha mente falta algo. Não lembro o quê.

No dia seguinte, uma ecografia não mais registra um cálculo renal de 5 mm que até a véspera estava ancorado na entrada do ureter, junto ao rim.

No corpo, a higidez dos sem dor. Na alma, o entendimento de um passeio onírico que me livrara de uma terrível cólica nefrética. Agora vamos tomar um café com tapioca, falei comigo, como gosto de fazer.

Ele, mais uma vez.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Noite de sexta-feira. No noticiário da televisão, crise, desencanto, politicagem no nível do inacreditável, cidadãos constrangidos. Em casa, a disposição para uma taça de vinho branco. Ao menos uma.

Coloquei duas crônicas sobre Areia Branca, já publicadas neste blog, na tela do computador, lado a lado (o OSX versão 10.11.6 comporta duas telas ao mesmo tempo). Mais uma taça. E fui misturando as taças e os textos, capturando e juntando frases, amalgamando trechos, formatando parágrafos, destrinchando linhas… Somente no outro dia me dei conta do que restara, ao final: um realismo fantástico em um labirinto caleidoscópico meio-sonho meio-pesadelo. Ei-lo:

Na beira do cais, no depois das dez da noite, uma olhada para o manguezal na tentativa de vencer a escuridão. Impossível. Do outro lado do rio, apurando a audição, percebi parte do silêncio em retirada, com suas pegadas de algodão. Em frente ao Palacete Municipal, no rés-do-chão, percebia-se um desalinho de antigas bicicletas que Chiá, irmão de Popõe, alugava logo ali na costela mindinho da pracinha. Na esquina da prefeitura, a casa de Manoel Bento servia de prumo para um olhar no sentido do Cine Coronel Fausto. Virei-me e percebi um vulto de pés descalços. Era o menino-eu caminhando apressado no sentido da seta invertida, promovendo uma desconfusão pretérita.

 Eu, confuso, preso ao anzol do tempo, aguardava o desligar da usina de luz e a despedida da sonora no alto da prefeitura. No meio do rio Ivipanim, uma canoa adentrava o momento híbrido da natureza, em que a escuridão da madrugada empurra a barriga da noite para assumir suas atribuições gris – na metade mais escura, em conluio com uma lua que, justo naquela noite, fora atrapalhada por compromissos no depois do escuro, na tentativa de esconder-se de salpicos do sol.

 Um filme retrofílico me assalta no instante agora, ponto ancorado no momento plus, e os sinais que hoje me chegam trazem estórias de taiobas que já foram, siris de ontem que ainda nadam em águas que tremelicam a um vento genérico, misto de Praia do Meio e de Upanema . Ali pululam estórias holográficas de barcaceiros de um passado quase hoje. A saudade juntou-se ao desencanto e, cansados de singrar mares bravios, aportaram na entrada da barra, pros lados do Pontal, com a visão de um cintilante Tibau à sua direita.

 O rio Ivipanim parado, em obediência à preamar determinada pelo dono das águas salgadas. Percebia-se um instável vai-não-vai determinado pela prepotência do mar, enquanto este decidia se retornava ao oceano bem ao lado, deixando a montante a salobridade de um rio afinal liberto. Ali, olhos postos na calmaria, e plenos do nada, a saudade e o desencanto contemplam o que um dia tudo aquilo fora. No patamar da igreja, percebi que o silêncio desaconchegara-se do ruído recém-desadormecido. Desaproximo dali e me junto a um grupo no rumo do Hotel de Upanema.

 Chegando a Upanema, um olhar na escuridão para os lados de Tibau, onde pequenos pontos luminosos assumiam os sinais de vida no reino das areias que sabemos coloridas. Imaginei Majorlândia, um pouco depois do ponto zero, onde RN e CE quase se fundem de tão agarradinhos. Nesse mundo Upanema, um velho farol recupera forças para o seu trabalho na noite escura. Sabe que marinheiros no limite do perdido esperam um sinal que os conduza ao ponto estático.

 No hotel, fui abduzido de um sonho e levado à Rua do Meio em um pesadelo que não era meu. E a impressão de que grupos de trovões aguardavam determinação para agir no anonimato, levados por nuvens prenhas d’água, assessoradas por raios ciclópicos de um Olimpo salitrado. Ali, senti a desvantagem de não ser poeta.

 O sono me arrastou pelo braço, sem ao menos se desculpar com o mar em frente. Fui!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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