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João era o menino-terror da minha infância. Não lembro o seu segundo nome nem quem eram seus pais. Mas eu gelava toda vez que encarava aquele garoto. Nem sei em que rua ou lado da cidade ele morava. Só lembro que não era na Rua da Frente nem da Rua do Meio, nem da Rua onde morava dona Chiquita do Carmo (eh, memória).

Lá vinha o João na minha direção. Vou mudar de lado, pensei. O João também mudou. Parou em frente a mim e logo veio o coque – cascudo. Em outro momento, eu estava no meio da rua olhando algo e do nada surgia o João. E tome coque na moleira. Sem nada falar ou gesticular. Era um verdadeiro terror.

Certo dia eu estava na Rua do Meio, perto da casa de Manuzinho (irmão de Carmozinha e de Dorinha, minhas primeiras professoras), brincando com um grupo de amigos. Junto comigo estavam cinco dos meus oito irmãos. E lá vinha o João. Ficou olhando o grupo de crianças que, naquele momento, brincavam de derrubar o companheiro, agarrando-o pela cintura, tipo luta grego-romana. Todos de calça curta sustentada por suspensórios cruzados nas costas, detalhe que evitava que ficassem caindo do ombro a todo momento.

E João ficou olhando, guardando uma certa distância. Ganhando força por conta da presença dos irmãos, chamei-o para uma luta. Só eu e ele. Topou na hora. Tirou a camisa e se colocou na posição de combate. Parti em sua direção, peguei-o pela cintura e o joguei no chão com força. Não quis repetir a luta comigo. Foi embora desconfiado. Daquele dia em diante, passei a procurar o João onde quer que eu fosse.

Nunca mais avistei aquele garoto em qualquer lugar. O meu antigo desafeto sumira.

Toda essa avalanche de lembranças surgiu porque estou com um folheto nas mãos, onde leio: “Se o cavalo soubesse a força que tem, ninguém montava nele”.

João. Um bicho de sete cabeças vencido pela confiança em mim.

Como catalisador, a presença dos irmãos.

Evaldo Alves de Oliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

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A lancha de Luiz Cirilo zarpou de Porto Franco lotada de passageiros. Percebia-se um estado de euforia contagiante entre as pessoas; a maré, com seu ventre murcho rasgado pela hélice, demonstrava evidentes sinais de  perda de sua majestade de sizígia. Na folhinha pregada no interior da lancha, com algum esforço, dava para ver o ano – 1959 – e o dia – 14. Entre os passageiros, um casal, nascido e criado em Porto Franco, tentava disfarçar seu semblante de intensa ansiedade. Era a primeira viagem para um lugar tão distante.

A lancha estacionou de forma suave. Desconfiado, o casal esperou que todos saíssem. Deram uma olhada para os lados, disfarçaram e deixaram a lancha. Era uma tarde quente de agosto, e a cidade apresentava uma agitação quase convulsiva, em que a felicidade parecia tatuada no rosto das pessoas. Um frenesi que o casal não conhecia.

Assumindo postura de turista com os compromissos repassados a terceiros, voltaram o olhar para admirar o Tirol. De fato, um lugar agradável. As pessoas conversavam, enquanto aguardavam o embarque na lancha, agora em sentido contrário. No canto, um menino oferecia roletes de cana espetados, formando uma flor de oito pontas oferecendo-se à degustação.

tirol_1950-60

Já na rua, os dois admiravam a beleza da praça em frente. Uma pequena placa indicava o seu nome: Praça do Tirol. De quem seria aquele busto no meio? Não havia qualquer inscrição. Dali, esticaram um olhar desconfiado para o lado esquerdo, depois de uma última olhada para Porto Franco, agora quase invisível, de tão distante. Seguiram no rumo da Rampa, caminhando na areia, ao lado da calçada alta. Não eram seres ctônicos; gostavam de brincar na areia, correndo atrás de calangos.

Passaram ao lado da igreja sem se deter, e avistaram a pracinha, tomando as precauções de praxe. Morriam de medo de cachorro. À esquerda, o Beco da Galinha Morta exibia ares de mistério. Riram com a estranheza do nome, mas entenderam a coerência e o respeito aos conceitos do povo. Enfim, uma pracinha repleta de gente em torno de barracas coloridas, com cara de festa, dispostas ao longo da praça, ocupando a frente da prefeitura e a parte de baixo da Rua do Meio, pros lados da casa de José Tavernard, bem na frente da residência dos padres.

Um parque de diversões, instalado do lado direito da prefeitura, exibia como atração uma roda gigante muito grande, talvez com mais de quatro metros de altura. Os dois riram com  a cara de medo dos rapazes ao entrarem naquele equipamento. Ao lado, um colorido carrossel de cavalinhos girava rápido, com um barulhinho gostoso, ativando a curiosidade e despertando o encantamento de um grupo de meninos de calças curtas e suspensório. Aqui e ali, viam-se crianças esvaziando os bolsos para contar suas moedas de quinhentos réis para utilizar aquela máquina de sonhos.

O casal entreolhou-se, concordando que a cidade estava em clima de festa. A noite já se aproximava, e as barracas acendiam suas luzes preparando-se para o movimento noturno. Dentre as barracas, junto à igreja, destacava-se uma bem maior que as outras, muito colorida, repleta de prendas e objetos que jamais tinham visto, e ficaram admirando de longe. Mais tarde, quem sabe, tentariam conhecer Zacarias, o proprietário daquela maravilha. A fome os chamava à realidade.

Tomaram o rumo da igreja, ao perceberem que muita gente para ali se dirigia. Comeram dentro do templo, procurando em torno de umas estátuas de santos colocadas à direita, em local pouco visitado, e sustentadas por pedaços de madeira. Ambiente propício para merendar.

O evento religioso – última novena – foi movimentado, com o cheiro de incenso tomando conta do setor de odores. O casal não sabia que o turíbulo era comandado por Chico Brito, menino sangue bom. Ao final, o casal percebeu uma escada e procurou fugir do burburinho da saída. Quando tudo acalmou, e as luzes foram sendo apagadas, resolveram subir as escadas, curtindo cada degrau, cada dificuldade. Mais tarde, na semi-escuridão, chegaram ao topo da torre, e tentavam decifrar o código sonoro dos mosquitos e dos grilos. Peguei um – falou um deles. Ao longe, pousada em uma viga, perceberam que uma coruja os observava. Ou ela queria o grilo?

A música alta dos alto falantes, o barulho das pessoas, tudo isso despertou a vontade de deixar o interior da igreja. Tentaram sair, mas encontraram as portas fechadas, e as travas eram pesadas e altas. Com dificuldade, no escuro, acomodaram-se no coro, de onde contemplavam o altar e as laterais do templo. Ficaram ali por algumas horas, com ligeiros cochilos reconfortantes.

Já era alta madrugada, imaginaram. A cidade estava às escuras, e o silêncio reinava fora e dentro da igreja. De repente, um barulho os despertou de um gostoso sono. A porta da frente estava sendo forçada com insistência pelo lado de fora. Minutos depois, perceberam que a porta havia sido destrancada com força, e dois homens entraram sorrateiramente, fechando-a logo após a passagem.

Na semi-escuridão, os homens se dirigiram para o altar. Estabanados, correram o olhar em torno e se deslocaram para um local onde estava um barquinho branco, com a imagem de uma santa postada em seu convés. O casal, no coro, com os pelos eriçados, parecia não acreditar no que estava para acontecer: um dos homens retirou uma madeira grossa que trazia junto ao corpo, presa ao cinto, e se preparava para quebrar a imagem.

Bem posicionados no coro, o casal começou a bater nas cadeiras com força, e a movimentar alguns instrumentos de percussão colocados em um canto, sinais de alguma apresentação musical . O barulho era intenso. Enquanto ele agitava uma cadeira, ela batia nos instrumentos, jogando-os no chão. Os ladrões, apavorados, deixaram a igreja em correria.

O casal, exausto, dormiu o tempo que restava daquela agitada madrugada. Pela manhã, ao primeiro sinal de que a movimentação de pessoas recomeçava, deixaram a igreja aliviados. Não esperariam pela procissão marítima que sabiam belíssima e cheia de significados.

Retornaram a Porto Franco cedinho, novamente clandestinos na lancha de Luiz Cirilo.

Tudo isso sem um miau sequer, e sem machucar suas patinhas.

 

Crescer em uma cidade do interior – ao lado de suas limitações – tem vantagens que se incorporam ao nosso modo de ser, ajudando na moldagem da nossa personalidade, repercutem no nosso comportamento e respingam em nosso dia a dia, seja na vida social ou no trabalho.

O andar livre pelas ruas de Areia Branca, as brincadeiras simples, com ares de inocência, utilizando elementos do trato diário como brinquedos, a camaradagem, tudo isso se incorpora ao nosso modo de ser e passa a fazer parte de nosso patrimônio pessoal. Daí surgirão o sentido que daremos às coisas, aos objetos, ao que veremos aqui e alhures. Quando, no interior de um país distante, nos deparamos com algo inusitado, instantaneamente fazemos um link com nossas experiências da infância ou com o que aprendemos na escola. Satisfação.

O jogo com o pião, as peladas disputadas nas ruas, o pique-pega, o uso do fura-chão nas areias dos pós-chuvas, as cantigas de roda, as bancas de castanha de caju, os barquinhos nas lagoas produzidas pelas enchentes, as conversas na pracinha, as brincadeiras no rio, os primeiros amores, os encontros no portão, o escurinho do cine Coronel Fausto. Quase todos os nossos brinquedos eram feitos pelas próprias crianças. Tudo isso teve e terá um valor que desconhecemos, mas os sabemos importantes. Camaradagem. Respeito.

Essas brincadeiras, quase sempre coletivas, ajudavam na formação de conceitos que extrapolam a infância, repercutindo em nosso modo de ser: daí brotaram a noção de  respeito pelas pessoas, a camaradagem, o senso de alegria com coisas simples, a valorização de pequenos seres quando brincávamos nos quinais de então.  Simplicidade

As brincadeiras de roda, as cantigas, as músicas que surgiam de forma despretensiosa e sem autores definidos ajudavam a enfeitar nossa infância. Mesmo as atividades individuais, como puxar carrinhos construídos com latas de óleo ou de leite em pó, eram realizadas em grupos, com disputas onde todos ganhavam. Amizade.

Desse modo, a vida me ensinou coisas de real valor para meu convívio com as pessoas, seja nos encontros sociais ou no trabalho.

Daí, o sentido que dou a esta expressão que, imagino, nascida dentro de mim: a alegria dos percussionistas. É que aprendi a perceber e dar valor a essa demonstração descompromissada com a alegria, que nos contagia e emociona. É só prestar atenção.

Outra expressão que trago sempre comigo, nascida talvez de alguma leitura: nada merece a aflição de um segundo de incertezas. Essa postura nos ensina a parar um pouco, a meditar sobre nossos momentos de aflição. O que não tem jeito, está feito. Não adianta afligir-se ou perder o controle com coisas que já aconteceram. A questão é ajudar, tentar resolver os imbróglios desse evento imprevisto. Outra aprendizagem: ao invés de falar da escuridão, acenda uma vela. Alguém falou isso aqui.

Aprendi que o riso tem que ser sério, real, espontâneo, natural. Nada de sorrisos de ri-ri, moldados a pedido de um fotógrafo sem compromisso com nosso ser. Então, que o sorriso flua bonito, vindo de dentro, com gosto de vida e espectro de alegria. Há dias e locais em que não queremos rir. Sinceridade

Há dois anos, estava eu no interior da Capadócia, Turquia, em uma feira popular, quando me deparei com um objeto estranho, de bronze. Era um tinteiro com porta-caneta utilizado pelos escribas árabes há milênios (na foto, junto com o tinteiro e o porta-caneta, uma lâmpada antiga e uma pedra com escrita cuneifome). Aquilo me arrastou ao Círculo Operário, e fui levado de roldão ao encontro das aulas de Dorinha, ali na Rua do Meio. Observando  aquele pequeno instrumento, hoje na minha coleção, lembrei-me de que na parte de cima do nosso banco, no Círculo Operário, havia um local para colocação do tinteiro e da pena. Fui tirado desse estado de encantamento pelo chamado das pessoas do grupo. História de vida.

Obj crônica

Solidariedade, respeito, sinceridade, valorização das amizades.

Coisas que aprendi em minhas brincadeiras de criança.

O comentário de um leitor desconhecido sobre o texto DIFICULDADES AO SAIR DE AREIA BRANCA deixou-me emocionado, forçando-me a retornar ao blog. É para essas pessoas que eu escrevo, concluí. Caro Dr. Evaldo. Não o conheço; nascemos em épocas muito distantes, profissões diferentes, amizades também diferentes. Nada teríamos em comum, se não fosse o feliz privilégio de termos nascido em uma mesma cidade: nossa querida Areia Branca. Foi ela inspiração para inúmeras crônicas suas que, mesmo em silêncio, pude admirar e me emocionar. Pena saber que a partir daqui o nobre amigo não mais as digitará. Boa Sorte. Deus o abençoe. Parabéns pela linda história de vida e luta, coroadas com vitória, que o amigo traz consigo. Um abraço. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas, disse um certo menininho.

LEMBRA DE MIM, AREIA BRANCA?

Estou sentado no patamar da igreja, hoje em forma de barco adentrando o Ivipanim, onde iates e barcaças cesariaram sua imensa barriga d’água. Com o olhar quase sem movimento, curto as canoas que vão e vêm de Barra e Pernambuquinho.  Sinto-me desgarrado, com uma sensação de nada ser, fora do contexto, como se fizesse parte de um tempo pretérito, embora processado naquele mesmo ambiente, onde o brilho da infância tornava doce os frutos mais travosos, e engraçadas as situações onde a vida era posta em risco. Quantas vezes atravessei o gume da faca amolada do destino, para hoje sentir dificuldades de acomodação tempo/espaço.

Aqui, ninguém me conhece, ponderei. Até as pessoas da minha idade me encaram  como se um estranho fosse. Aquele senhor, que se dirige à igreja, desviou seu olhar quando me viu. Tenho quase certeza de que reconheceu o filho de Zé Silvino e Ester, mas prefere não arriscar um cumprimento tipo 1960, quando daqui saí. Eu, nesta manhã que se submete aos raios desse sol inclemente, fornalha do Universo, lanço um brado calado, contido, agora fitando o manguezal do outro lado do rio, com um gosto travoso de umbu cajá na garganta, como diria o poeta: lembra de mim, Areia Branca? Estudei no Círculo Operário e no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. O primeiro desapareceu; o segundo, sofreu um processo cirúrgico em seu corpo, e ficou com cara de famosa que fez preenchimento. Plásticas irresponsáveis, com certeza.

Ergo o olhar e vejo Dondinho, filho de Antonio Quixabeira, passando com seu caminhar sem pressa. Não me reconheceu. Ou reconheceu, e a timidez assumiu seu comando, determinando um passar frio e distante. E volto a perguntar: lembra de mim, Areia Branca?

Retorno meu olhar para esse barco-patamar e, timoneiro desobediente, afrontando o passar dos anos, vejo-me criança na Rua da Frente, nadando nesse rio ou zingando em um bote qualquer, sem o consentimento formal do proprietário, ganhando distância, o coração a mil, e o filme do passado em andamento. Sinto um cheirinho de oró, que, ladrão de odores, roubou para si o puro cheiro de mato praiano, e vejo um barco dos beijus chegando à Rampa. Logo, surgem mangas espadas e cachos de banana em um convés envelhecido. Noé perdido, anfitriono pequenos animais  que, nesse convés com as cores de outrora, passam por mãos calejadas, ganhando exposição em um solo agora firme. Meu Deus, como o passado nos emociona, imaginei.

Pensei nas travessuras na Rua da Frente, revivi os banhos na Praia do Meio, os mergulhos na prainha de Zé Filgueira, as missas madrugueiras em frente à casa de Bagaé, as procissões-missas nas Pedrinhas, desgastando madrugadas com cor de pedra de corisco. Lembrei das agitações das festas populares, e cheguei a ouvir antigos choros vindo de Valsas domingueiras, onde um sax alto chilreia canções que não mais existem. Tudo isso foi deletado pela cidade onde nasci e cresci. Hoje, estranho, sou assediado apenas pelo vento praiano, ainda solto, e, à noite, pelo mesmo luar de então, com suas sombras assustando coqueiros e interrompendo traquinagens de calangos fugidios. Coqueiros que, fustigados, balançam ao compasso desse vento revolto, vindo das bandas do depois do fim. Fim de quê?. Não sei.

Deu vontade de gritar: eu sou aquele menininho magricela que morava logo ali, pertinho da padaria de seu Lalá, vizinho às Lojas Paulista, onde o gerente era Zé Dimas, irmão de Bobô, filhos de Mirabô, antigo músico, que, junto com meu pai, encantaram multidões de outrora, o primeiro com seu trombone mágico e o segundo com sua tuba rouca a marcar compassos hoje inaudíveis. Mas ninguém me escutaria. Tenho certeza. E meus cabelos brancos, tocados por esse vento com cheiro de maresia, não me liberariam para extravasar travessuras desformatadas pelo tempo.

Fui despertado por um bom dia. Era um desconhecido. Você é daqui? Acho que você é um dos filhos de Zé Silvino. Meu pai era barcaceiro, e comprou muita lenha e água de seu pai. Meu pai foi contemporâneo de Bezinho, filho de seu Josa. Sou da geração de Mauro, seu irmão mais velho. Lembrei que conheci Bezinho e curti as travessuras oldman de seu Josa, seu pai, mas não consegui identificar o meu interlocutor, por mais esforço que fizesse. Eu era apenas um menino, pelos idos de 1959. Ouvi passos ao avesso, no contraponto de um hálux de unhas mal cuidadas, como as minhas, agora no sentido da pracinha. Sorri com essa ideia. Estava sozinho novamente.

Desconsertado, tomei o rumo de Upanema. Lá, o ribombar das ondas me lembraram outros tempos, momentos de paz. No hotel, aguardei a noite chegar.

Temo retornar.

Esse texto é uma requentada de outro com mesmo título, escrito em 2004. Não lembro se, e onde o publiquei naquele ano, mas em 2008 ele foi publicado aqui (https://areiabranca.wordpress.com/2008/05/02/nos-de-macatuba-eles-de-amarcord-2/). A presente versão foi publicada na terceira edição de O PIRATA – Jornal Cultural da Ilha da Maritacaca, lançado no dia 11 de agosto de 2012 no Centro de Exposições e Eventos de Mossoró – Expocenter, durante a 8ª Feira do Livro de Mossoró.

Areia Branca é como qualquer cidadezinha de qualquer parte do mundo. Com seus personagens típicos em quase tudo similares. Basta repassar a literatura e o cinema para verificarmos conexões comportamentais entre sociedades sem qualquer conexão geográfica. Minha referência neste assunto é o filme Amarcord (http://pt.wikipedia.org/wiki/Amarcord). A Amarcord de Fellini está para Macatuba, a cidade imaginária de Tarcísio Gurgel (irmão de Deífilo), assim como Rimini está para Areia Branca. Sempre que encontro Tarcísio Gurgel esqueço de lhe perguntar se Macatuba é Mossoró ou uma mistura de Mossoró com Areia Branca, e quanto de realidade existe nos seus personagens. Embora satisfaça minha curiosidade, esse tipo de informação tem pouca importância para o que escreverei a seguir. Obra de ficção ou relato real sempre toma as cores que o nosso cérebro determina. Tem a obra do autor e a obra do leitor. As duas podem ser, e usualmente são muito diferentes.

É por isso que Amarcord e Macatuba se me apresentam como Areia Branca, pelo menos no universo de alguns de seus marcantes personagens. Aqui, desse lado de cá do equador não temos as estações climáticas tão demarcadas como na terra de Fellini, de modo que jamais teríamos em Macatuba a cena inicial de Amarcord, onde se festeja o fim do inverno e o início da primavera, mas a passagem do transatlântico naquela parte do mar adriático não poderia ser substituída pela chegada do hidroavião no rio Ivipanim? A propósito, as filmagens marítimas exploradas por Fellini são emocionantes. Um dos ângulos do transatlântico é de uma beleza extasiante. Deixaria Toinho do Foto de queixo caído. Alguns ângulos da água me fizeram retroceder aos banhos na maré. A tonalidade e a leve ondulação da água são idênticas!

Agora, o entorno social tem todos os ingredientes comuns às duas cidades. Em Areia Branca também não tínhamos uma diva do amor, que habitava os sonhos de homens de todas as idades, como a Gradisca de Amarcord? E também não tínhamos uma gostosa como Volpina, que todo possuidor de testosterona desejava? E os bobos, sujeitos às não raras perversas gozações dos malvados?

Não tínhamos a presença do fascismo de Mussolini, como os habitantes de Amarcord, mas, pelo menos a geração dos anos 1940 pode testemunhar eventos dolorosos e mostrar cicatrizes da ditadura militar implantada em 1964. Nossas referências nos bancos escolares não tinham ligação com a nossa história sócio-política, mas tínhamos o famoso e festejado rigor disciplinar da professora Geralda Cruz, para citar apenas um ícone da nossa educação.

Amarcord tem um farol, como na praia de Upanema. Em Amarcord os meninos sacanas incomodam o ceguinho que toca acordeon e roubam-lhe a bengala. Em Areia Branca a meninada traquina infernizava Casca-de-ovo, um doidinho manso que adorava acompanhar procissão. Consta que certa vez entoava-se na procissão “o meu coração é só de Jesus, a minha alegria . . .”. Nesse exato momento alguém gritou “Casca-de-ovo!”. A resposta irada saiu na hora, na sequência e no embalo da música “. . .é o cu da mãe”. Em Amarcord, Bischaine, o vendedor bobo-da-corte, mente feito nosso Chico Pavão.

Em Amarcord os adolescentes masturbam-se em grupo, no interior de uma garagem. Em Areia Branca,… ah, se o Campo da Saudade falasse! Era este o nome do campo de futebol da cidade até o início dos anos setenta. Tinha esse nome porque era ao lado do cemitério. Ali, nos anos 1960, havia campeonatos de esperma à distância. Depois, todo mundo ia alegremente jogar futebol, ainda com testosterona à flor da pele.

Tem uma cena em Amarcord em que vários rapazes simulam danças com suas desejadas. Isso a gente não fazia em Areia Branca, pelo menos não na presença de outros, mas, devo confessar que na solidão do meu quarto dançava embalado pelos braços imaginários da tão sonhada amada, ao som de um desafinadamente balbuciado besame mucho.

Em Amarcord há uma corrida automobilística noturna, uma epopéia no imaginário Felliniano, tal qual poderíamos fazer com a aventura de Toinho de Eneas pedalando, sem parar, 72 horas na praça do Tirol, apenas ingerindo líquidos. Se bem documentado, só aquilo daria um filme. Não tenho registros na memória para auxiliar um eventual Fellini areia-branquense. Lembro apenas da diversão de todos quando nosso resistente ciclista queria, no dizer de antigamente, verter água. Jogava um balde de água verdadeira sobre si para ninguém ver a urina escorrendo por sua perna.

Ao final da corrida, o ganhador é premiado com a presença de Gradisca, que senta ao seu lado para uma volta triunfal. Isso alimenta a imaginação de um gordinho, sempre rejeitado pela bela ninfeta Alpina. No seu sonho ele se vê ganhador da corrida. Pára o carro e grita por Alpina, sentada numa sacada ao lado de um belo jovem. Quando ela responde ao chamado com um meigo sorriso, o gordinho, herói no seu próprio sonho, dá-lhe uma enérgica banana. Vê se isso não é quase a mais coisa de uma história que me contaram como verdadeira, acontecida no Ivipanim Clube dos anos 60? Um rapaz vinha sistematicamente sendo rejeitado por uma bela menina. Mas, tanto insistiu que finalmente ela cedeu e foi dançar com ele. Bem no meio do salão, ele se afastou e disse, em alto e bom som, você peidou!

Amarcord inicia na primavera de um ano e termina na do ano seguinte. Portanto, antes do final seus habitantes passam pelos rigores do inverno. Para as crianças aquilo é uma festa. Quem antes da puberdade não gostaria de jogar bolas de neve nos outros? Um Fellini areiabranquense provavelmente registrasse nossas brincadeiras depois de uma boa chuva. As ruas de terra batida pela água eram propícias para jogos de futebol, de bandeirinha e sobretudo de fura-chão. Era uma festa!

Para além das minhas conexões afetivas, aprecio Amarcord porque é um filme maravilhoso, um dos melhores de Federico Fellini. Assim como também aprecio “Os de Macatuba”, livro de contos de Tarcísio Gurgel, publicado em primeira edição em 1974, e em segunda edição em 1986, pela Clima, porque é uma obra-prima, no sentido objetivo e temporal e no sentido figurado que se dá a uma obra de valor.

Amarcord é uma corruptela da expressão “io me recordo” (eu me lembro), usada na região onde nasceu Fellini. De fato, Amarcord não é o nome do vilarejo italiano onde o filme se passa, mas todo mundo passou a associar o título ao nome do vilarejo fictício e, por extensão, a Rimini, a cidade natal do cineasta. Então, de vez em quando alguém diz: Amarcord é a Rimini de Fellini. O filme se passa no período exato de um ano, entre a primavera de 1940 e a de 1941, início da Segunda Guerra Mundial. Portanto, no período retratado Fellini já tinha 20 anos, não havendo assim correlação temporal entre o relato e sua vida pessoal. Além do mais, ele nega o caráter autobiográfico da obra, mas reconhece semelhanças com a sua própria infância em Rimini. Pronto, não precisei de mais nada para dizer que nas estripulias infantis, a Rimini de Fellini é a nossa Areia Branca. Sem conexão geográfica, nem temporal, apenas ligados por aquilo que Jung costumava definir como inconsciente coletivo e por pequenas coincidências em equipamentos públicos. Aí está o tempero necessário e suficiente para dar o ponto certo na nossa imaginação.

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