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Aqui, quando falo dos meninos da Rua da Frente, estou me referindo apenas àqueles garotos que moravam naquele trecho entre a igreja, descendo até onde havia uma barbearia, na esquina.

Quantos meninos e meninas moravam naquele trecho, hoje deteriorado e sem um único morador? São apenas trabalhadores do cais e servidores de algumas empresas ligadas ao transporte marítimo.

Havia os filhos de Chico Lino e dona Antônia (Horácio, Pedro, Aparecida e Maria Antônia), as duas filhas de Zé de Quincó (Edna e Margarida), os filhos de Ester e José Silvino (José Maria, Mauro, João, Eraldo, Evaldo, Francisco, Ivo, Isabel e Ana Maria), o filho de dona Hilda e José Leonel (Haroldo, o menino que queria ser paraquedista), os dois filhos de seu Josa (Bezinho e Vavá), as três filhas de Valdemiro e dona Noêmia (Valdeme, Luzia e outra de cujo nome não lembro), os filhos e netos de seu Izídio, os filhos de dona Branca (Tututa, Lázaro e Petinho).

Esses eram os meninos e meninas da Rua da Frente, a que me refiro com frequência. Total de 29, e incluía gerações diversas, muitos dos quais não brincavam com a gente. A idade das crianças que participavam de nossas brincadeiras variava de 10 a 12 anos.

A esse grupo dos meninos da Rua da Frente juntavam-se outros garotos, como Quiquico e Dedé Sodré, filhos de Lauro Duarte. Dedé de Zé Dantas, apesar de ser considerado rico, sempre participava de nossas brincadeiras, como Ivo, filho de Chico Germano. Toinho Quixabeira era outro que vez por outra participava de algumas brincadeiras de rua, tipo rodar pião e bater bola. Saiu de Areia Branca para se tornar ator. A amizade de Chico Novo era comigo, não com o grupo.

Traquinagens no rio Ivipanim, futebol na rua, jogos de pião, empinar papagaio, banhos de chuva, pescar no Tirol à noite, raramente.

Essa era a nossa pauta.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

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Em nossa infância em Areia Branca, conhecemos pessoas que apenas passaram por nossa observação, mesmo que sequer soubéssemos seus nomes. Apenas suas figuras ou seus nomes ficaram em nossa memória, e perguntamos ao vento: Tens alguma notícia dessas pessoas?

Quando criança, gostávamos de brincar em frente àquele muro emblemático que ficava nos fundos da nossa casa e da padaria de seu Lalá; hoje, um muro elegante e de pintura nova. O grupo brincava, corria pelas calçadas e no meio da rua. Sem querer chamar nossa atenção, um homem ainda jovem, de ar sereno, passava calado pelas crianças, apenas cumprimentando com a mão. Nós, meninos da Rua da Frente/Rua do Meio, o chamávamos de Japona. Imagino que ele trabalhava ou morava na parte de baixo da Rua do Meio. Sempre imaginei que ele trabalhava no Ambulatório do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários – IAPC, onde Dr. Gentil atendia a clientela do Instituto dos Comerciários.

Sempre procurando briga, havia um garoto forte que todos sabiam ter mania de provocação. Irritava as outras crianças até saírem no tapa. Meu irmão Ivo tem boas estórias desses embates, onde pontuaram sopapos e cangapés. Ninguém sabia seu nome, mas era conhecido na Rua da Frente como Esgalamido.

Neste momento, lembrei-me de um colega do Curso de Técnico em Contabilidade que eu frequentava à noite no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. A pessoa mais conhecida, e já veterano, no último ano do curso, era José Jaime, que sempre estava no centro das reações dos estudantes; isto é, aprontava todas. José Jaime era uma figura de destaque, fosse na escola ou nas discussões que aconteciam nos bancos da pracinha, após as aulas. O nome do meu amigo polêmico: Antônio Cruz, garotão conversador, crítico, inteligente. Gostava de contestações sempre acaloradas em torno das matérias, levantando discussões pertinentes.

Finalmente, por onde andam Dedé de Zé Dantas e Toinho Quixabeira? Dedé de Zé Dantas era um meninão que fazia a alegria das garotas. Decidido, sempre tinha dinheiro para comprar cocada de rapadura em uma bodega da Rua da Frente. No contraponto, Toinho Quixabeira, questionador e esperto, fazia parte de nossas brincadeiras de rua, tipo rodar pião e bater bola. Saiu de Areia Branca para se tornar ator.

Mais um soluço da retrofilia.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Quando crianças, apesar de viver em uma cidade muito pequena, as crianças tinham muita dificuldade para se deslocar por áreas mais distantes, mesmo que isso representasse apenas duas ruas. De fato, havia a Rua da Frente, a Rua do Meio e as Ruas de Trás. Daí que, mesmo residindo na mesma cidade, a maioria das crianças não se conhecia, a não ser quando frequentavam a mesma escola. O Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra era o grande centralizador da meninada.

Outro ponto de aglutinação da meninada eram os cinemas. O Cine Coronel Fausto sempre encantou crianças e adultos. Garotos e garotas vestiam suas roupas de festa nas tardes de domingo para a empolgação quase sonho dos seriados, desde aqueles onde pontuavam cowboys e índios, e outros que endeusavam homens e mulheres com seus superpoderes.

Nós, meninos da Rua da Frente, vez por outra colocávamos um paralelepípedo no interior de um chapéu e o deixávamos na calçada. Ficávamos à espreita da vítima que, inexoravelmente, aparecia e chutava o chapéu com força. Era só risos.

Apesar da forte e doentia segregação social que existia, os grupinhos delimitavam locais privativos para suas brincadeiras. Juntavam-se alguns na várzea para soltar papagaio ou, em outros momentos e locais, bater bola ou participar de discussões em grupo. Esses locais eram demarcados pela habitualidade do uso ou, muitas vezes, pela truculência. Tínhamos um grupinho genérico que quase todos os dias subia naquela árvore em frente à casa de Manoel Bento e ficava jogando conversa fora e articulando traquinagens. Lembro de Dedé Sodré.

O grund era a comunidade criada pelos meninos da Rua Paulo(*). Não passava de um pedaço de terra que servia de local para suas brincadeiras, que teriam acontecido no século XIX na cidade de Budapeste. Por serem crianças pobres, o grund era o único espaço que os garotos da Rua Paulo e adjacências dispunham para os seus momentos de lazer.

Organizaram, então, a Sociedade do Betume(**), com dois objetivos: manter o betume (o símbolo da sociedade) sempre molhado (mastigavam o betume) e a luta pela defesa do grund. Ali aconteciam as reuniões do grupo, acertadas na escola, bem como os jogos de péla, que era um jogo praticado no passado. Consistia em atirar uma bola de um lado para o outro com a mão, com ou sem o auxílio de um instrumento (raquete ou bastão), que teria dado origem ao tênis.

No contraponto, havia o grupo dos camisas-vermelhas, formado por uma turma que não tinha autorização para utilizar o grund, propriedade exclusiva dos meninos da Sociedade do Betume. Era ali onde aconteciam os encontros dos exércitos. Os garotos se relacionavam como em uma organização militar, onde havia os mais graduados e os soldados rasos, com suas atribuições específicas.

Face aos desencontros entre os dois grupos, foi acertada uma batalha para definir quem seria o dono do grund. obedecendo os padrões dos embates militares, as regras tinham que ser rigidamente seguidas, e quando um grupo fugia do seu cumprimento propiciava ao outro também abandonar o protocolo dos combates, concedendo ao outro grupo o direito de utilizar técnicas não convencionais a partir de então.

Dia marcado para a guerra, com todos os ingredientes de uma batalha oficial, com direito a espiões, traidores e informações desencontradas. E veio a guerra total, com manobras estratégicas de alto risco de ambos os lados. Os camisas-vermelhas invadiram o grund, com seus soldados e suas lanças, ecoando gritos de guerra ao lado de muita movimentação. Ao final, os meninos da Rua Paulo, vencedores, assumem definitivamente o controle do grund, com o cumprimento dos protocolos antes acertados.

Em Areia Branca, muitas coisas aprendemos em nossos espaços de infância, mesmo na base do meio sem jeito das nossas insipientes instituições.

No Grund, a infância com suas lições de organização, respeito e cidadania.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) Os Meninos da Rua Paulo, belo livro de Ferenc Molnar, publicação da Editora Saraiva. Tradução de Paulo Ronai.

(**) Há dois tipos de betume: um escuro, feito de hidrocarbonetos pesados com outros produtos, utilizado como impermeabilizante e no asfalto. O outro, massa de pez, cal, azeite e outras substâncias, que se emprega para vedar (internet).

 

 

João era o menino-terror da minha infância. Não lembro o seu segundo nome nem quem eram seus pais. Mas eu gelava toda vez que encarava aquele garoto. Nem sei em que rua ou lado da cidade ele morava. Só lembro que não era na Rua da Frente nem da Rua do Meio, nem da Rua onde morava dona Chiquita do Carmo (eh, memória).

Lá vinha o João na minha direção. Vou mudar de lado, pensei. O João também mudou. Parou em frente a mim e logo veio o coque – cascudo. Em outro momento, eu estava no meio da rua olhando algo e do nada surgia o João. E tome coque na moleira. Sem nada falar ou gesticular. Era um verdadeiro terror.

Certo dia eu estava na Rua do Meio, perto da casa de Manuzinho (irmão de Carmozinha e de Dorinha, minhas primeiras professoras), brincando com um grupo de amigos. Junto comigo estavam cinco dos meus oito irmãos. E lá vinha o João. Ficou olhando o grupo de crianças que, naquele momento, brincavam de derrubar o companheiro, agarrando-o pela cintura, tipo luta grego-romana. Todos de calça curta sustentada por suspensórios cruzados nas costas, detalhe que evitava que ficassem caindo do ombro a todo momento.

E João ficou olhando, guardando uma certa distância. Ganhando força por conta da presença dos irmãos, chamei-o para uma luta. Só eu e ele. Topou na hora. Tirou a camisa e se colocou na posição de combate. Parti em sua direção, peguei-o pela cintura e o joguei no chão com força. Não quis repetir a luta comigo. Foi embora desconfiado. Daquele dia em diante, passei a procurar o João onde quer que eu fosse.

Nunca mais avistei aquele garoto em qualquer lugar. O meu antigo desafeto sumira.

Toda essa avalanche de lembranças surgiu porque estou com um folheto nas mãos, onde leio: “Se o cavalo soubesse a força que tem, ninguém montava nele”.

João. Um bicho de sete cabeças vencido pela confiança em mim.

Como catalisador, a presença dos irmãos.

Evaldo Alves de Oliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

A lancha de Luiz Cirilo zarpou de Porto Franco lotada de passageiros. Percebia-se um estado de euforia contagiante entre as pessoas; a maré, com seu ventre murcho rasgado pela hélice, demonstrava evidentes sinais de  perda de sua majestade de sizígia. Na folhinha pregada no interior da lancha, com algum esforço, dava para ver o ano – 1959 – e o dia – 14. Entre os passageiros, um casal, nascido e criado em Porto Franco, tentava disfarçar seu semblante de intensa ansiedade. Era a primeira viagem para um lugar tão distante.

A lancha estacionou de forma suave. Desconfiado, o casal esperou que todos saíssem. Deram uma olhada para os lados, disfarçaram e deixaram a lancha. Era uma tarde quente de agosto, e a cidade apresentava uma agitação quase convulsiva, em que a felicidade parecia tatuada no rosto das pessoas. Um frenesi que o casal não conhecia.

Assumindo postura de turista com os compromissos repassados a terceiros, voltaram o olhar para admirar o Tirol. De fato, um lugar agradável. As pessoas conversavam, enquanto aguardavam o embarque na lancha, agora em sentido contrário. No canto, um menino oferecia roletes de cana espetados, formando uma flor de oito pontas oferecendo-se à degustação.

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Já na rua, os dois admiravam a beleza da praça em frente. Uma pequena placa indicava o seu nome: Praça do Tirol. De quem seria aquele busto no meio? Não havia qualquer inscrição. Dali, esticaram um olhar desconfiado para o lado esquerdo, depois de uma última olhada para Porto Franco, agora quase invisível, de tão distante. Seguiram no rumo da Rampa, caminhando na areia, ao lado da calçada alta. Não eram seres ctônicos; gostavam de brincar na areia, correndo atrás de calangos.

Passaram ao lado da igreja sem se deter, e avistaram a pracinha, tomando as precauções de praxe. Morriam de medo de cachorro. À esquerda, o Beco da Galinha Morta exibia ares de mistério. Riram com a estranheza do nome, mas entenderam a coerência e o respeito aos conceitos do povo. Enfim, uma pracinha repleta de gente em torno de barracas coloridas, com cara de festa, dispostas ao longo da praça, ocupando a frente da prefeitura e a parte de baixo da Rua do Meio, pros lados da casa de José Tavernard, bem na frente da residência dos padres.

Um parque de diversões, instalado do lado direito da prefeitura, exibia como atração uma roda gigante muito grande, talvez com mais de quatro metros de altura. Os dois riram com  a cara de medo dos rapazes ao entrarem naquele equipamento. Ao lado, um colorido carrossel de cavalinhos girava rápido, com um barulhinho gostoso, ativando a curiosidade e despertando o encantamento de um grupo de meninos de calças curtas e suspensório. Aqui e ali, viam-se crianças esvaziando os bolsos para contar suas moedas de quinhentos réis para utilizar aquela máquina de sonhos.

O casal entreolhou-se, concordando que a cidade estava em clima de festa. A noite já se aproximava, e as barracas acendiam suas luzes preparando-se para o movimento noturno. Dentre as barracas, junto à igreja, destacava-se uma bem maior que as outras, muito colorida, repleta de prendas e objetos que jamais tinham visto, e ficaram admirando de longe. Mais tarde, quem sabe, tentariam conhecer Zacarias, o proprietário daquela maravilha. A fome os chamava à realidade.

Tomaram o rumo da igreja, ao perceberem que muita gente para ali se dirigia. Comeram dentro do templo, procurando em torno de umas estátuas de santos colocadas à direita, em local pouco visitado, e sustentadas por pedaços de madeira. Ambiente propício para merendar.

O evento religioso – última novena – foi movimentado, com o cheiro de incenso tomando conta do setor de odores. O casal não sabia que o turíbulo era comandado por Chico Brito, menino sangue bom. Ao final, o casal percebeu uma escada e procurou fugir do burburinho da saída. Quando tudo acalmou, e as luzes foram sendo apagadas, resolveram subir as escadas, curtindo cada degrau, cada dificuldade. Mais tarde, na semi-escuridão, chegaram ao topo da torre, e tentavam decifrar o código sonoro dos mosquitos e dos grilos. Peguei um – falou um deles. Ao longe, pousada em uma viga, perceberam que uma coruja os observava. Ou ela queria o grilo?

A música alta dos alto falantes, o barulho das pessoas, tudo isso despertou a vontade de deixar o interior da igreja. Tentaram sair, mas encontraram as portas fechadas, e as travas eram pesadas e altas. Com dificuldade, no escuro, acomodaram-se no coro, de onde contemplavam o altar e as laterais do templo. Ficaram ali por algumas horas, com ligeiros cochilos reconfortantes.

Já era alta madrugada, imaginaram. A cidade estava às escuras, e o silêncio reinava fora e dentro da igreja. De repente, um barulho os despertou de um gostoso sono. A porta da frente estava sendo forçada com insistência pelo lado de fora. Minutos depois, perceberam que a porta havia sido destrancada com força, e dois homens entraram sorrateiramente, fechando-a logo após a passagem.

Na semi-escuridão, os homens se dirigiram para o altar. Estabanados, correram o olhar em torno e se deslocaram para um local onde estava um barquinho branco, com a imagem de uma santa postada em seu convés. O casal, no coro, com os pelos eriçados, parecia não acreditar no que estava para acontecer: um dos homens retirou uma madeira grossa que trazia junto ao corpo, presa ao cinto, e se preparava para quebrar a imagem.

Bem posicionados no coro, o casal começou a bater nas cadeiras com força, e a movimentar alguns instrumentos de percussão colocados em um canto, sinais de alguma apresentação musical . O barulho era intenso. Enquanto ele agitava uma cadeira, ela batia nos instrumentos, jogando-os no chão. Os ladrões, apavorados, deixaram a igreja em correria.

O casal, exausto, dormiu o tempo que restava daquela agitada madrugada. Pela manhã, ao primeiro sinal de que a movimentação de pessoas recomeçava, deixaram a igreja aliviados. Não esperariam pela procissão marítima que sabiam belíssima e cheia de significados.

Retornaram a Porto Franco cedinho, novamente clandestinos na lancha de Luiz Cirilo.

Tudo isso sem um miau sequer, e sem machucar suas patinhas.

junho 2018
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