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Quando criança, em Areia Branca, não percebia que os tropeços que sofria eram na verdade apenas correção de rumo. Sem eles, o fácil e acessível ganhariam espaço em mim.

Não percebi que aquele NÃO fora, na verdade, um acerto para preservar minha alma para outros embates, impossíveis de serem vencidos sem aquela vivência. Sem ele, meus caminhos se apequenariam na acomodação do ontem.

Também não percebia que muitas das restrições impostas em minha meninice tinham o condão de fortalecer o meu espírito, base de um caráter em formação.

Não imaginava que as idas e vindas dos meus erros e acertos não passavam de provações, que fortaleceriam meu discernimento, combustível para futuras escolhas; estas, sim, definitivas.

Não percebia que as dificuldades em viajar – conhecia apenas Mossoró – seriam, na verdade, uma catapulta para ultrapassar fronteiras distantes. Desse modo, fui estimulado a fazer uma romaria anual pelo Nordeste, Natal como ponto de partida. Todos os anos, no mês de agosto, saímos – eu e dois amigos – visitando cidades desconhecidas e revendo pela última vez aquelas que já conhecemos e gostamos. Uma despedida sem usar os pés caminhadeiros.

Jamais imaginei que as músicas da sonora, no alto do Palacete Municipal, me inspirariam para conhecer o universo de Nana Mouskuri, com o sua voz afinada no limite dos sustenidos.

Também não imaginava que as doses e as meiotas de cachaça servidas no balcão da  bodega do meu pai, na Rua da Frente, serviriam para formatar uma degustação de vinhos na adega da Cartuxa, em Évora, Portugal. Não me tornei alcoólatra.

Não percebia que minha aceitação das diferenças não era acomodação, covardia nem humildade subserviente, mas o entendimento de minhas possibilidades. Um entendimento: a uma criança pobre, apenas a superação pelo estudo e pelo trabalho poderão, de fato, suprir os desníveis, ou suplantá-los.

Criança, não percebia que brincar em ruas sem calçamento, revestidas de carago, entoando cantigas de roda à noite, e brincando de soltar pião, me inspirariam na elaboração de futuras propostas criativas, diferencial importante em ambientes profissionais competitivos.

O tempo passou, e vieram os momentos de buscas, as ocasiões das escolhas, as tentativas de definição.

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Somente muito depois perceberia que tudo aquilo valera a pena. E como!

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Quantas vezes tivemos que vencer o medo dos trovões que ribombavam no oitão da igreja, assessorados por relâmpagos barulhentos, cujo clarão penetrava pelas frestas das telhas, ao tempo em que agitava as galinhas no quintal; ao longe, o protesto das vacas de seu Lalá da padaria;

Quantas vezes tivemos que correr para casa, assombrados com o número de bois e vacas que, vindos do outro lado do rio, nadando, disparavam em correria pela Rua da Frente de forma enlouquecida e perigosa, fazendo com que as bodegas, às pressas, fechassem suas portas; nós, crianças, coração na mão; ali, os meninos da Rua da Frente em apuros;

Certo dia, tivemos que vencer o medo quando, em um pequeno barco, já no limite do pontal, o remo foi levado pela água, e ficamos à deriva;

Tive que vencer o medo, ao ser empurrado para dentro do rio Ivipanim, em plena maré cheia – maré de sizígia -, de forma irresponsável, tipo sem-querer-querendo, forçando-me a pôr em prática meus pobres dotes natatórios;

Tive que ter coragem quando, aos catorze anos, saindo de Areia Branca e indo morar em Natal, 17 dias depois meu pai morreria, deixando 9 filhos, dos quais sete eram menores de idade;

Tive que ter coragem quando, ao tentar matricular-me em uma escola de Natal, fui obrigado a prestar duas provas de adaptação, trinta dias depois (Francês e Latim);

Tive que ter coragem quando, ao sair para o trote dos estudantes de Medicina, fui informado, logo cedo, pelo Delegado do INPS, então recém-criado, de que eu não poderia continuar trabalhando naquela instituição, se desejasse continuar meus estudos. Controlei-me e continuei na comemoração, tendo que disfarçar para não ser visto chorando. Em seguida, ainda durante o trote, a diretora me chamou e confirmou que eu poderia continuar trabalhando e estudando. Meses depois eu era o chefe de gabinete do Delegado.

Medo, para forjar.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Obs.: Esta é a minha crônica de número 400. Em todos os momentos, a preocupação com o escopo deste blog, seguindo os rumos do seu criador, Prof. Carlos Alberto.

 

 

 

 

Os meninos da Rua da Frente, óbvio, moravam de frente para o rio Ivipanim, tendo a visão de Barra e Pernambuquinho como uma grande aquarela pintada na parede do céu à sua frente. Para esses meninos e meninas as opções para suas brincadeiras eram restritas, fosse pelo movimento dos trabalhadores do cais ou das pessoas nas calçadas, no vai e vem das lojas e das bodegas.

Na década de 1950 a Rua da Frente, pela maciça presença de lojas e de armazéns, e do movimento de pessoas e trabalhadores, ocupava lugar de destaque em Areia Branca como uma via de grande movimento. O Tirol e a Rampa serviam de ponto de chegada e partida de pessoas e embarcações, contribuindo para o intenso vai e vem de pessoas e chegada de mercadorias.

Com isso, os meninos da Rua da Frente tinham reduzidas suas opções de lazer e entretenimento, pois sequer uma pelada podia ali ser jogada. Tínhamos, então, que improvisar. E improvisávamos.

Aquela brincadeira antiga de amarrar uma linha em uma carteira de dinheiro, colocar na calçada e puxar quando alguém se abaixava para pegá-la era por nós executada com frequência. Outra brincadeira era colocar um paralelepípedo na calçada, debaixo de um chapéu e ficar de longe aguardando o primeiro que se dispusesse a chutá-lo.

Quando queríamos juntar algum dinheiro para gastar nos brinquedos do parque de diversão, fazíamos suco de fruta (tamarindo ou limão) servido com raspas de gelo para vender nas calçadas da Rua da Frente. Não lembro de onde tirávamos o gelo.

Estendendo a brincadeira para o lado da Rua do Meio, tínhamos as aventuras do Zorro, com espadas e bons safanões. Ali, fizemos muitos quebra-canelas que nos custaram algumas chineladas. Certo dia, percebendo que Popõe vinha, como de costume, empurrando o seu carrinho de doces e balinhas pelo meio da rua, com destino à pracinha, fizemos um grande laço com uma corda, cobrindo-o com terra. Quando Popõe pisou sobre o laço, puxamos a corda e ele foi ao chão. A meninada correu em diversas direções, sob os esconjuros de um indignado e bravo Popõe. Maldade…

Meninos da Rua da Frente. Muitas brincadeiras, apesar das limitações.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Aqui, quando falo dos meninos da Rua da Frente, estou me referindo apenas àqueles garotos que moravam naquele trecho entre a igreja, descendo até onde havia uma barbearia, na esquina.

Quantos meninos e meninas moravam naquele trecho, hoje deteriorado e sem um único morador? São apenas trabalhadores do cais e servidores de algumas empresas ligadas ao transporte marítimo.

Havia os filhos de Chico Lino e dona Antônia (Horácio, Pedro, Aparecida e Maria Antônia), as duas filhas de Zé de Quincó (Edna e Margarida), os filhos de Ester e José Silvino (José Maria, Mauro, João, Eraldo, Evaldo, Francisco, Ivo, Isabel e Ana Maria), o filho de dona Hilda e José Leonel (Haroldo, o menino que queria ser paraquedista), os dois filhos de seu Josa (Bezinho e Vavá), as três filhas de Valdemiro e dona Noêmia (Valdeme, Luzia e outra de cujo nome não lembro), os filhos e netos de seu Izídio, os filhos de dona Branca (Tututa, Lázaro e Petinho).

Esses eram os meninos e meninas da Rua da Frente, a que me refiro com frequência. Total de 29, e incluía gerações diversas, muitos dos quais não brincavam com a gente. A idade das crianças que participavam de nossas brincadeiras variava de 10 a 12 anos.

A esse grupo dos meninos da Rua da Frente juntavam-se outros garotos, como Quiquico e Dedé Sodré, filhos de Lauro Duarte. Dedé de Zé Dantas, apesar de ser considerado rico, sempre participava de nossas brincadeiras, como Ivo, filho de Chico Germano. Toinho Quixabeira era outro que vez por outra participava de algumas brincadeiras de rua, tipo rodar pião e bater bola. Saiu de Areia Branca para se tornar ator. A amizade de Chico Novo era comigo, não com o grupo.

Traquinagens no rio Ivipanim, futebol na rua, jogos de pião, empinar papagaio, banhos de chuva, pescar no Tirol à noite, raramente.

Essa era a nossa pauta.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

Em nossa infância em Areia Branca, conhecemos pessoas que apenas passaram por nossa observação, mesmo que sequer soubéssemos seus nomes. Apenas suas figuras ou seus nomes ficaram em nossa memória, e perguntamos ao vento: Tens alguma notícia dessas pessoas?

Quando criança, gostávamos de brincar em frente àquele muro emblemático que ficava nos fundos da nossa casa e da padaria de seu Lalá; hoje, um muro elegante e de pintura nova. O grupo brincava, corria pelas calçadas e no meio da rua. Sem querer chamar nossa atenção, um homem ainda jovem, de ar sereno, passava calado pelas crianças, apenas cumprimentando com a mão. Nós, meninos da Rua da Frente/Rua do Meio, o chamávamos de Japona. Imagino que ele trabalhava ou morava na parte de baixo da Rua do Meio. Sempre imaginei que ele trabalhava no Ambulatório do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários – IAPC, onde Dr. Gentil atendia a clientela do Instituto dos Comerciários.

Sempre procurando briga, havia um garoto forte que todos sabiam ter mania de provocação. Irritava as outras crianças até saírem no tapa. Meu irmão Ivo tem boas estórias desses embates, onde pontuaram sopapos e cangapés. Ninguém sabia seu nome, mas era conhecido na Rua da Frente como Esgalamido.

Neste momento, lembrei-me de um colega do Curso de Técnico em Contabilidade que eu frequentava à noite no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. A pessoa mais conhecida, e já veterano, no último ano do curso, era José Jaime, que sempre estava no centro das reações dos estudantes; isto é, aprontava todas. José Jaime era uma figura de destaque, fosse na escola ou nas discussões que aconteciam nos bancos da pracinha, após as aulas. O nome do meu amigo polêmico: Antônio Cruz, garotão conversador, crítico, inteligente. Gostava de contestações sempre acaloradas em torno das matérias, levantando discussões pertinentes.

Finalmente, por onde andam Dedé de Zé Dantas e Toinho Quixabeira? Dedé de Zé Dantas era um meninão que fazia a alegria das garotas. Decidido, sempre tinha dinheiro para comprar cocada de rapadura em uma bodega da Rua da Frente. No contraponto, Toinho Quixabeira, questionador e esperto, fazia parte de nossas brincadeiras de rua, tipo rodar pião e bater bola. Saiu de Areia Branca para se tornar ator.

Mais um soluço da retrofilia.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

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