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Os meninos da Rua da Frente, óbvio, moravam de frente para o rio Ivipanim, tendo a visão de Barra e Pernambuquinho como uma grande aquarela pintada na parede do céu à sua frente. Para esses meninos e meninas as opções para suas brincadeiras eram restritas, fosse pelo movimento dos trabalhadores do cais ou das pessoas nas calçadas, no vai e vem das lojas e das bodegas.

Na década de 1950 a Rua da Frente, pela maciça presença de lojas e de armazéns, e do movimento de pessoas e trabalhadores, ocupava lugar de destaque em Areia Branca como uma via de grande movimento. O Tirol e a Rampa serviam de ponto de chegada e partida de pessoas e embarcações, contribuindo para o intenso vai e vem de pessoas e chegada de mercadorias.

Com isso, os meninos da Rua da Frente tinham reduzidas suas opções de lazer e entretenimento, pois sequer uma pelada podia ali ser jogada. Tínhamos, então, que improvisar. E improvisávamos.

Aquela brincadeira antiga de amarrar uma linha em uma carteira de dinheiro, colocar na calçada e puxar quando alguém se abaixava para pegá-la era por nós executada com frequência. Outra brincadeira era colocar um paralelepípedo na calçada, debaixo de um chapéu e ficar de longe aguardando o primeiro que se dispusesse a chutá-lo.

Quando queríamos juntar algum dinheiro para gastar nos brinquedos do parque de diversão, fazíamos suco de fruta (tamarindo ou limão) servido com raspas de gelo para vender nas calçadas da Rua da Frente. Não lembro de onde tirávamos o gelo.

Estendendo a brincadeira para o lado da Rua do Meio, tínhamos as aventuras do Zorro, com espadas e bons safanões. Ali, fizemos muitos quebra-canelas que nos custaram algumas chineladas. Certo dia, percebendo que Popõe vinha, como de costume, empurrando o seu carrinho de doces e balinhas pelo meio da rua, com destino à pracinha, fizemos um grande laço com uma corda, cobrindo-o com terra. Quando Popõe pisou sobre o laço, puxamos a corda e ele foi ao chão. A meninada correu em diversas direções, sob os esconjuros de um indignado e bravo Popõe. Maldade…

Meninos da Rua da Frente. Muitas brincadeiras, apesar das limitações.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Aqui, quando falo dos meninos da Rua da Frente, estou me referindo apenas àqueles garotos que moravam naquele trecho entre a igreja, descendo até onde havia uma barbearia, na esquina.

Quantos meninos e meninas moravam naquele trecho, hoje deteriorado e sem um único morador? São apenas trabalhadores do cais e servidores de algumas empresas ligadas ao transporte marítimo.

Havia os filhos de Chico Lino e dona Antônia (Horácio, Pedro, Aparecida e Maria Antônia), as duas filhas de Zé de Quincó (Edna e Margarida), os filhos de Ester e José Silvino (José Maria, Mauro, João, Eraldo, Evaldo, Francisco, Ivo, Isabel e Ana Maria), o filho de dona Hilda e José Leonel (Haroldo, o menino que queria ser paraquedista), os dois filhos de seu Josa (Bezinho e Vavá), as três filhas de Valdemiro e dona Noêmia (Valdeme, Luzia e outra de cujo nome não lembro), os filhos e netos de seu Izídio, os filhos de dona Branca (Tututa, Lázaro e Petinho).

Esses eram os meninos e meninas da Rua da Frente, a que me refiro com frequência. Total de 29, e incluía gerações diversas, muitos dos quais não brincavam com a gente. A idade das crianças que participavam de nossas brincadeiras variava de 10 a 12 anos.

A esse grupo dos meninos da Rua da Frente juntavam-se outros garotos, como Quiquico e Dedé Sodré, filhos de Lauro Duarte. Dedé de Zé Dantas, apesar de ser considerado rico, sempre participava de nossas brincadeiras, como Ivo, filho de Chico Germano. Toinho Quixabeira era outro que vez por outra participava de algumas brincadeiras de rua, tipo rodar pião e bater bola. Saiu de Areia Branca para se tornar ator. A amizade de Chico Novo era comigo, não com o grupo.

Traquinagens no rio Ivipanim, futebol na rua, jogos de pião, empinar papagaio, banhos de chuva, pescar no Tirol à noite, raramente.

Essa era a nossa pauta.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

 

 

Em nossa infância em Areia Branca, conhecemos pessoas que apenas passaram por nossa observação, mesmo que sequer soubéssemos seus nomes. Apenas suas figuras ou seus nomes ficaram em nossa memória, e perguntamos ao vento: Tens alguma notícia dessas pessoas?

Quando criança, gostávamos de brincar em frente àquele muro emblemático que ficava nos fundos da nossa casa e da padaria de seu Lalá; hoje, um muro elegante e de pintura nova. O grupo brincava, corria pelas calçadas e no meio da rua. Sem querer chamar nossa atenção, um homem ainda jovem, de ar sereno, passava calado pelas crianças, apenas cumprimentando com a mão. Nós, meninos da Rua da Frente/Rua do Meio, o chamávamos de Japona. Imagino que ele trabalhava ou morava na parte de baixo da Rua do Meio. Sempre imaginei que ele trabalhava no Ambulatório do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários – IAPC, onde Dr. Gentil atendia a clientela do Instituto dos Comerciários.

Sempre procurando briga, havia um garoto forte que todos sabiam ter mania de provocação. Irritava as outras crianças até saírem no tapa. Meu irmão Ivo tem boas estórias desses embates, onde pontuaram sopapos e cangapés. Ninguém sabia seu nome, mas era conhecido na Rua da Frente como Esgalamido.

Neste momento, lembrei-me de um colega do Curso de Técnico em Contabilidade que eu frequentava à noite no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra. A pessoa mais conhecida, e já veterano, no último ano do curso, era José Jaime, que sempre estava no centro das reações dos estudantes; isto é, aprontava todas. José Jaime era uma figura de destaque, fosse na escola ou nas discussões que aconteciam nos bancos da pracinha, após as aulas. O nome do meu amigo polêmico: Antônio Cruz, garotão conversador, crítico, inteligente. Gostava de contestações sempre acaloradas em torno das matérias, levantando discussões pertinentes.

Finalmente, por onde andam Dedé de Zé Dantas e Toinho Quixabeira? Dedé de Zé Dantas era um meninão que fazia a alegria das garotas. Decidido, sempre tinha dinheiro para comprar cocada de rapadura em uma bodega da Rua da Frente. No contraponto, Toinho Quixabeira, questionador e esperto, fazia parte de nossas brincadeiras de rua, tipo rodar pião e bater bola. Saiu de Areia Branca para se tornar ator.

Mais um soluço da retrofilia.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

 

Quando crianças, apesar de viver em uma cidade muito pequena, as crianças tinham muita dificuldade para se deslocar por áreas mais distantes, mesmo que isso representasse apenas duas ruas. De fato, havia a Rua da Frente, a Rua do Meio e as Ruas de Trás. Daí que, mesmo residindo na mesma cidade, a maioria das crianças não se conhecia, a não ser quando frequentavam a mesma escola. O Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra era o grande centralizador da meninada.

Outro ponto de aglutinação da meninada eram os cinemas. O Cine Coronel Fausto sempre encantou crianças e adultos. Garotos e garotas vestiam suas roupas de festa nas tardes de domingo para a empolgação quase sonho dos seriados, desde aqueles onde pontuavam cowboys e índios, e outros que endeusavam homens e mulheres com seus superpoderes.

Nós, meninos da Rua da Frente, vez por outra colocávamos um paralelepípedo no interior de um chapéu e o deixávamos na calçada. Ficávamos à espreita da vítima que, inexoravelmente, aparecia e chutava o chapéu com força. Era só risos.

Apesar da forte e doentia segregação social que existia, os grupinhos delimitavam locais privativos para suas brincadeiras. Juntavam-se alguns na várzea para soltar papagaio ou, em outros momentos e locais, bater bola ou participar de discussões em grupo. Esses locais eram demarcados pela habitualidade do uso ou, muitas vezes, pela truculência. Tínhamos um grupinho genérico que quase todos os dias subia naquela árvore em frente à casa de Manoel Bento e ficava jogando conversa fora e articulando traquinagens. Lembro de Dedé Sodré.

O grund era a comunidade criada pelos meninos da Rua Paulo(*). Não passava de um pedaço de terra que servia de local para suas brincadeiras, que teriam acontecido no século XIX na cidade de Budapeste. Por serem crianças pobres, o grund era o único espaço que os garotos da Rua Paulo e adjacências dispunham para os seus momentos de lazer.

Organizaram, então, a Sociedade do Betume(**), com dois objetivos: manter o betume (o símbolo da sociedade) sempre molhado (mastigavam o betume) e a luta pela defesa do grund. Ali aconteciam as reuniões do grupo, acertadas na escola, bem como os jogos de péla, que era um jogo praticado no passado. Consistia em atirar uma bola de um lado para o outro com a mão, com ou sem o auxílio de um instrumento (raquete ou bastão), que teria dado origem ao tênis.

No contraponto, havia o grupo dos camisas-vermelhas, formado por uma turma que não tinha autorização para utilizar o grund, propriedade exclusiva dos meninos da Sociedade do Betume. Era ali onde aconteciam os encontros dos exércitos. Os garotos se relacionavam como em uma organização militar, onde havia os mais graduados e os soldados rasos, com suas atribuições específicas.

Face aos desencontros entre os dois grupos, foi acertada uma batalha para definir quem seria o dono do grund. obedecendo os padrões dos embates militares, as regras tinham que ser rigidamente seguidas, e quando um grupo fugia do seu cumprimento propiciava ao outro também abandonar o protocolo dos combates, concedendo ao outro grupo o direito de utilizar técnicas não convencionais a partir de então.

Dia marcado para a guerra, com todos os ingredientes de uma batalha oficial, com direito a espiões, traidores e informações desencontradas. E veio a guerra total, com manobras estratégicas de alto risco de ambos os lados. Os camisas-vermelhas invadiram o grund, com seus soldados e suas lanças, ecoando gritos de guerra ao lado de muita movimentação. Ao final, os meninos da Rua Paulo, vencedores, assumem definitivamente o controle do grund, com o cumprimento dos protocolos antes acertados.

Em Areia Branca, muitas coisas aprendemos em nossos espaços de infância, mesmo na base do meio sem jeito das nossas insipientes instituições.

No Grund, a infância com suas lições de organização, respeito e cidadania.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

(*) Os Meninos da Rua Paulo, belo livro de Ferenc Molnar, publicação da Editora Saraiva. Tradução de Paulo Ronai.

(**) Há dois tipos de betume: um escuro, feito de hidrocarbonetos pesados com outros produtos, utilizado como impermeabilizante e no asfalto. O outro, massa de pez, cal, azeite e outras substâncias, que se emprega para vedar (internet).

 

 

João era o menino-terror da minha infância. Não lembro o seu segundo nome nem quem eram seus pais. Mas eu gelava toda vez que encarava aquele garoto. Nem sei em que rua ou lado da cidade ele morava. Só lembro que não era na Rua da Frente nem da Rua do Meio, nem da Rua onde morava dona Chiquita do Carmo (eh, memória).

Lá vinha o João na minha direção. Vou mudar de lado, pensei. O João também mudou. Parou em frente a mim e logo veio o coque – cascudo. Em outro momento, eu estava no meio da rua olhando algo e do nada surgia o João. E tome coque na moleira. Sem nada falar ou gesticular. Era um verdadeiro terror.

Certo dia eu estava na Rua do Meio, perto da casa de Manuzinho (irmão de Carmozinha e de Dorinha, minhas primeiras professoras), brincando com um grupo de amigos. Junto comigo estavam cinco dos meus oito irmãos. E lá vinha o João. Ficou olhando o grupo de crianças que, naquele momento, brincavam de derrubar o companheiro, agarrando-o pela cintura, tipo luta grego-romana. Todos de calça curta sustentada por suspensórios cruzados nas costas, detalhe que evitava que ficassem caindo do ombro a todo momento.

E João ficou olhando, guardando uma certa distância. Ganhando força por conta da presença dos irmãos, chamei-o para uma luta. Só eu e ele. Topou na hora. Tirou a camisa e se colocou na posição de combate. Parti em sua direção, peguei-o pela cintura e o joguei no chão com força. Não quis repetir a luta comigo. Foi embora desconfiado. Daquele dia em diante, passei a procurar o João onde quer que eu fosse.

Nunca mais avistei aquele garoto em qualquer lugar. O meu antigo desafeto sumira.

Toda essa avalanche de lembranças surgiu porque estou com um folheto nas mãos, onde leio: “Se o cavalo soubesse a força que tem, ninguém montava nele”.

João. Um bicho de sete cabeças vencido pela confiança em mim.

Como catalisador, a presença dos irmãos.

Evaldo Alves de Oliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

agosto 2018
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