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Agosto é um mês em que o vento veste sua carapaça de ventania e sai por aí aprontando. Em Areia Branca, a meninada, em um ambiente confuso, repleto de linhas, papéis coloridos, rabiolas e carretéis, aprenderam a domar o vento, o todo poderoso senhor dos ares, primo dos furacões, tufões e vendavais que moram em outros países. No céu, pipas coloridas, pequeninas e matreiras, pobres, feitas de um papel que há dois dias era embrulho de bodega da Rua da Frente, dominavam o céu daqui de baixo, em meio ao alarido de sempre.

Naquele agosto de 2013, Areia Branca foi invadida por um grupo de amigos, homens e mulheres de cabelos gris, armados de boa vontade, disposição e alegria. Dispunham-se para conversas, para risadas e para os novos sons de Geraldo Azevedo, Djavan, Zeca Baleiro e Fagner, que ali reinavam.

Houve invasão de becos, ruas, casas de amigos. Canoas foram tomadas de assalto, com dedos em riste determinando o rumo a ser seguido, agora no sentido de Barra e Pernambuquinho. Riscos de luz, eram flashes. Barulheira, eram gargalhadas do tempo em que ainda brilhava o Palacete Municipal.

Sei que você, areiabranquense de agora, não riu de alguém do grupo invasor quando, em um vacilo  de sua memória já cansada, teria perguntado pela pracinha em frente ao Tirol, que também já se foi; ou, em um devaneio de momento, ter perguntado pela senha mágica que destrava o Portal da Rua do Meio. Passeei com alguns até o Cine Coronel Fausto, que não mais existe.

Sei de alguém que, de forma dissimulada, parou em uma calçada da Rua do Meio e ficou perdido, próximo ao meio-fio, procurando algo. Na verdade, ele tentava encontrar resquícios de antigas inscrições feitas em sua meninice, quando, às escondidas, aproveitando o cimento ainda mole, imprimiu o nome dela na calçada, ao lado do seu.

Sabemos que Popõe não mais está aqui, mas sei de alguém que perguntou por ele. Ruas trocaram de nomes, ganharam calçamento de cor escura, no outrora branco nacarado de um carago que se foi. Todos desejaram passear  pelo Beco da Galinha Morte, e caminharam por seus entremuros repletos de histórias. Outros, no depois da novena, foram a um parque de diversões com canoas para balançar, e gargalhadas eclodiram como em outras épocas.

Baleeiras

Poucas pessoas sabiam quem foi seu Dimas, cujo neto hoje caminha por locais onde seu avô farmacêutico fez história. A maioria também não sabia quem foi José Silvino, meu pai, nem seu Adauto, pai de Sônia, nem dona Zefa, a querida vovó de Dodora. Também não conheciam os familiares de Chico Brito, nem de Othon. De Clodomiro, pai de Carlos Alberto, algumas pessoas lembravam. O pai do professor era bastante conhecido. Poucas pessoas se recordavam de Dr. Vicente.

Durante as novenas que antecederam a grande festa no rio, ouvimos hinos e cânticos que em nada evocavam os ritmos do coro da igreja de padre Ismar,  que a seu modo ciceroneava peregrinos de todas as paragens. No depois da novena, a lembrança da barraca de Zacarias. A rainha da festa ainda existe?

Na procissão marítima, alguns estranharam a ausência das velas brancas, agora substituídas por potentes e bufantes motores, com seu bafo de fuligem. Mas ganhamos em animação e colorido. No patamar da igreja, um grupo de músicos de fora evocava antigos xotes e baiões. Não há uma bandinha local?

Procissão

Agosto 2019 bate à porta. E sei que não estarei lá.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Chegamos a Areia Branca no final da tarde do dia 18 de maio de 2019. Depois de alguns dias de viagem, o desejo de caminhar pela beira da praia de Upanema. À nossa disposição, uma maré cheia se exibia inteira, parecendo esperar nossa visita.

À noite, por ser uma quinta-feira quase sem hóspedes, obtivemos a liberação de um passaporte para uma seresta improvisada na beira da piscina do Hotel Costa Atlântico, sem qualquer compromisso com os limites.

Seresta 1

Encomendamos uma panela de sopa feita na hora, abrimos nosso vinho trazido de Natal – e ainda no gelo – e a noite foi nada mais que uma criança, inocente e pura como nós.

Na beira da piscina, sob os eflúvios de um vinho tinto do Alentejo, Assis Câmara e Ivo promoveram um desfile de músicas dos bons tempos, acompanhadas pelo som de um plangente violão. Ao fundo, onde mora a escuridão, uma lua prenha de luz observava três setentões meio desafinados tentando replicar coisas do passado.

Seresta 2

Upanema. Encerramento da nossa romaria/2019 em grande estilo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

Era final de uma tarde de sexta-feira, a quatro dias da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Estávamos reunidos no hotel de Upanema quando fomos avisados de que em frente ao Marco Zero, voltado para o patamar da igreja, estava ocorrendo a apresentação semanal de um conjunto musical que acontecia ao cair da noite. Um happy hour com direito a um belo pôr de sol. Saímos de forma estabanada no rumo da Rampa.

Uma pequena multidão se aglomerava entre o Marco Zero e a Rampa. Na frente da igreja, as pessoas, em postura viking, saudavam a apresentação do alto do patamar – agora em forma de um barco – e pareciam dispostas a invadir o rio, no resgate dos últimos fragmentos de um sol muito vermelho que agonizava pros lados de Tibau. A música como incentivo.

De fato, ali, em pleno Marco Zero, alguns músicos prestavam uma homenagem ao pôr do sol mais belo do Rio Grande do Norte.

Ao sairmos, assistimos a um sol confuso, cominutivo, tentando espalhar os restos de vermelho em um céu gris. Um convite à reflexão. Puro encantamento.

Somente depois viríamos saber que se tratava de mais uma apresentação do Projeto Pôr do Sol, iniciativa da Prefeitura Municipal para incentivar o deslocamento das pessoas nos finais das tardes das sextas-feiras para, de forma comunitária, curtir o pôr do sol do patamar da igreja, ao tempo em que assiste à apresentação de músicas de boa qualidade, sejam cantadas ou executadas por excepcionais instrumentistas.

Projeto Pôr do Sol. Um oásis de boa música. Uma sobremesa para a Poesia Nos Muros.

Uma seresta, ao final.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN

No palco do Teatro Alberto Maranhão, a obra e a vida de Tico da Costa fluía de voz em voz, acompanhadas pelo dedilhar de violões bem afinados e pela emoção da platéia que lotava o recinto. Nas imagens que meu cérebro produzia, um menino andava calmamente pela rua do meio, com cabelos loiros e couro cabeludo avermelhado. Era filho de Dijesu, Titico de Dijesu, um dos tantos que ele botou no mundo. Mais velho do aquele menino com olhar vivaz, tinha Dedezinha, Getúlio, Conceição, Ribeiro, Gracinha e não lembro quem mais. Depois vieram outros que só ontem, tantas décadas depois, conheci homenageando o irmão que de “Titico de Dijesu, menino de olhar vivaz” , passou a ser “Tico da Costa, músico criativo”, e famoso além-mar.

No Natal de 1989, montei uma fita K7 com músicas brasileiras para presentear amigos franceses. Coloquei as músicas em ordem crescente de vibração, denominando a sequência de um andante moderato a um prestissimo, como na majestosa 9a. sinfonia de Beethoven. Começava com Maria D’Aparecida cantando Manhã de Carnaval e terminava com Cidade Maravilhosa.

Ontem, quando o coração batia no compasso da caminhada pela rua do meio, e os ouvidos deixavam passar a sonoridade ora suave, ora vibrante, mas sempre agradável, de Tico da Costa, me dei conta que a fita poderia ter sido feita só com suas músicas. Poderia ir de Una Canzione per Te a Fogueira. Ou então, da Canção do Capitão a Vou na Onda do Mar. Quem sabe, de Difícil é Viver a A Táboa?

Se você pensa que é complicado fazer uma seleção das músicas de nosso Bardo em função do tipo de movimento, ou da velocidade da música, imagine se quiser fazer em termos de estilo, que vai de quase uma canção de ninar ao frevo rasgado de um carnaval pernambucano. A complexidade da obra pode ser bem apreciada pela diversidade de tratamento ela mereceu dos admiráveis músicos que lhe prestaram a homenagem. De tratamentos jazzísticos a leituras clássicas viajamos embevecidos pela extraordinária obra de Tico da Costa, com o choro engasgado pela saudade de Titico de Dijesu, que nos deixou em 29 de agosto de 2009.

Qualquer que seja a seleção, o que não pode faltar é Os Cumprimentos, a emocionante, tocante, doce, vibrante, gostosa, de rir e chorar, para refletir, enfim, sua obra-prima que encerrou o tributo de ontem.

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Encerramento do show, com a música “Cumprimentos”.

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Sara Fracchia, a Senhora Tico da Costa.

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Jornal Zona Sul

Recolho na crônica que Alcindo de Souza publicou em seu blogue a inspiração para fazer minhas rememorações e entrar na fila dos que sonham em ver o Ivipanim eternizado naquele cantinho de tantos sonhos, alguns feitos, outros refeitos, e quem sabe quantos desfeitos. Leio que Rogério Edmundo é o presidente do Clube, e fico imaginando, se tiver tanta energia administrativa quanto demonstrava ter na sua infância-adolescência, o Clube terá boa vida em suas mãos. Posso afirmar, do alto da minha idade, da posição privilegiada de quem mais velho observava aquela meninada entre a rua dr. Almino, rua do Meio, rua da Frente e Jardim, repito, posso afirmar: Rogério era um capeta! Do pai, Valquírio, herdou a vivacidade contagiante, e como geralmente acontece, a energia deve ter sido canalizada para atividades empreendedoras na vida adulta. Taí, o homem é o presidente do Ivipanim Clube.

Alcindo abre sua crônica com uma jóia, uma pérola maior, uma preciosidade, a letra de Bandeira Branca. Completo aqui esse toque nostálgico com a companheira inseparável de Bandeira Branca, nos carnavais de antigamente e de sempre: Máscara Negra, de Zé Keti e Pereira Mattos. E para provocar lágrimas, risos e suspiros, aqui vai a inesquecível interpretação de Dalva de Oliveira.

Quem tem mais de 50 anos e costumava ir a bailes de carnaval, sabe o que estou falando. Carnaval é festa para animação, todo mundo solto, cada um por si, certo? Errado! Quantos não passaram por uma reconquista ao som de Bandeira Branca?

Saudade, dor que dói demais / Vem, meu amor / Bandeira branca eu peço paz

E quantos não iniciaram ou reiniciaram uma arrebatadora paixão cantando Máscara Negra?

Foi bom te ver outra vez / Está fazendo um ano / Foi no carnaval que passou / Eu sou aquele pierrô / Que te abraçou e te beijou meu amor

O ritual era bem definido. A orquestra atacava de Máscara Negra e os casais se abraçavam para dançar agarradinhos. Uma maravilha! Juras e promessas de amor eterno com a voz sussurrante no pé do ouvido. Arrepios, arrepios e olhos revirados. Tudo tinha que ser rápido, para a explosão final de completa alegria e convencimento de que tudo era verdade, no momento que a orquestra entoava o alegro maestroso (desculpe Eyder, pela imagem mal ajambrada)

Vou beijar-te agora / Não me leve a mal / Hoje é carnaval

Quanto riso oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da colombina
No meio da multidão

Foi bom te ver outra vez
Está fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou e te beijou meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval

Depois da alegria pela conquista do amor, só o prazer de uma sopa quente no bar ao lado do Clube. Aquilo sim, revigorava.

Obrigado, Alcindo, por me provocar essas lembranças.

agosto 2019
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