Os autores deste blogue estão comprometidos com os registros históricos de Areia Branca, sobretudo, mas não exclusivamente, aqueles referentes às três décadas, de 1950 a 1980. Esses registros incluem:

  • descrição de documentos oficiais ou cópias digitalizadas dos mesmos;
  • registros iconográficos diversos;
  • transcrições da história oral;
  • relatos do folclore areia-branquense.

É natural que alguns desses relatos provoquem constrangimentos às pessoas envolvidas. Quando este for o caso, os autores omitirão os nomes e as referências que facilitem a identificação das personagens.

Procedimento similar será adotado com relação aos comentários dos leitores.

42-15683251Quem desejar colocar um link para seu blogue pessoal basta enviá-lo para cas.professor@gmail.com.

Veja como os links aparecem na barra lateral, em Links de colaboradores e visitantes.

Convidamos o visitante do blog a dar uma espiada na coleção de livros sobre Areia Branca. Quem tiver sugestão de livros porventura não incluídos na nossa lista, pode enviar capa e detalhes editoriais (título, autor, editora, endereço para aquisição, etc) para cas.professor@gmail.com.

A partir de agora vamos fazer no blogue algum tipo de enquete (Na barra lateral, abaixo do calendário) para registrar nosso sentimento de preservação.

Deixaremos a enquete no ar durante quatro semanas. Depois a substituiremos por outra. Esta ficará no ar até 6/2/2010.

Algumas informações sobre a ferramenta.

  1. Para ver os resultados parciais  basta clicar em View Results.
  2. Para escrever um comentário, vá clicando: View Results > View Comments. Preencha as caixas do formulário. São obrigatórios: seu endereço eletrônico (não aparecerá para os outros visitantes do blogue), seu nome e seu comentário.
  3. Para enviar a enquete para outras pessoas, clique em Share This. O programa vai apresentar algumas alternativas de serviços de mensagens eletrônicas. Testei com o gmail e funcionou legal!
  4. Seria interessante usarmos os comentários para o compartilhamento da nossa aprendizagem com a ferramenta.

Surpreendido pela chuva torrencial em plena Rua da Frente, rapidamente procurei abrigo na Retífica do Sr. Geraldo Araújo, casado com a Sra. Dalvinha, prima de papai. Eram os últimos anos da década de 70. Dentro da oficina encontrei o Araújo, seu filho, meu amigo de adolescência e parceiro no jogo de xadrez.

Araújo sempre foi um brincalhão. Com sua mão grande e forte, arrancou os meus óculos “fundo-de-garrafa”, me deixando quase cego e incapacitado.

A sensação foi de total impotência. Como Sansão ficou, ao ter os cabelos cortados, a mando da traição de sua amada Dalila. Quem é míope sabe muito bem do que estou falando.

Semi-serrei os olhos para melhor enxergá-lo, com vontade de esmurrá-lo, de tanta raiva que fiquei, pois o mesmo insistia em não me entregar os óculos.

Eu não passava de um magricela, com corpo de faquir. Só ganhava na altura para ele. Contudo, não era tão estúpido assim. Calculei que, mesmo de óculos, não era páreo para o mesmo.

Depois de muita insistência, vendo ele a minha aflição, me devolveu, mas antes, passou graxa nas lentes.

Procurei a biqueira mais próxima e os limpei. Retornei à retífica, ainda chateado, tentando não demonstrar, afinal, não queria dar o gosto ao companheiro de malvadezas, já que ele tinha atingindo seu alvo.

Em frente à Retífica, víamos o belo Rio Ivipanim. Nele estava ancorado uma grande embarcação de madeira de Zeca de Celso, entregue à própria sorte. O barco ali agonizava, sem coração, sem tripulação, sem alma, e nenhum cuidado.

Com a morte do seu proprietário, esperava somente que as intempéries o conduzissem para o fundo do rio, sua derradeira morada. Fato consumado com o tempo.

A foto, cedida por Antônio José, tem o estilo,mas não tem a assinatura de Antônio do Vale (NE).

Próximo a ele ficava a rampa. Enxerguei os passageiros que iam e vinham da Barra, do outro lado do rio. Passada a chuva, caminhei para o lugar mais próximo possível deles. Queria admirar de perto aquele espetáculo. Uns com semblantes alegres, outros tristes, carrancudos….Cada um levando sobre si a sua história de vida, seus sonhos, esperanças, e pensamentos mil.

Chamou-me atenção um senhor moreno, parrudo, chapéu de palha na cabeça,  jeitão de vaqueiro, que ia fazer a travessia com uma vaca, como companheira de viagem.

Achei inusitada aquela cena. Nunca tinha visto uma vaca nadar, exceto na televisão e nos cinemas.

Completada a lotação da canoa, a vaca foi entrando sem medo no rio, tangida pelo canoeiro. O senhor de chapéu, dentro da canoa, puxou-a pela corda, e enlaçou-a no banco que estava sentado.

O barco foi se arrastando suave, lentamente, como num lamento infindo, carregado pela correnteza do rio e o assobiar triste dos ventos, naquele entardecer melancólico.

Havia algo de lírico no silêncio oculto da paisagem deslumbrante, e no morno entardecer, querendo expressar o mundo interior de quem estava atento a tudo e a todos.

Os raios do sol beijavam o rio, e o reflexo tênue desta paixão resvalava-se na vela branca triangular da frágil embarcação, enchendo os passageiros de esperança e emoldurando o contentamento do marulhar das ondas, que emitia um canto lírico, ao tocar nas embarcações e no cais.

Vi o barco desfilando majestoso pelo filete d’água, entrando numa passagem estreita entre os manguezais do outro lado, e sumindo do alcance da minha visão.

Cada um dos passageiros foi para sua lide. Os do lado de cá também.

Voltei feliz para casa, solfejando Jesus, alegria dos homens (J.S. Bach), e penetrando na dimensão das regiões sonoras.

 

 Talvez a juventude atual nem conheça esse termo, mas em Areia Branca era chic ter a rua calçada com carago. Subproduto do sal, porém sem qualquer sabor, a não ser o de uma pedra, esse tipo de calçamento antecedeu o paralelepípedo e, obviamente, o asfalto.

As ruas, após o revestimento com esse produto, ficavam com aparência de asfalto, porém de cor cinza claro, quase branco, e com um clima melhor, mais fresco. E a meninada, passeando de bicicleta ou em suas brincadeiras, sempre dava preferência aos logradouros revestidos com carago.

À noite, grupos de crianças eram formados aqui e ali, a correr, gritar e se esconder, em suas brincadeiras hoje quase esquecidas. As cantigas de roda surgiam quase espontaneamente, e escravos de Jó jogavam caxangá, vira, bota, deixa o Zabelê passar, assim como a inesquecível lagarta pintada, quem foi que te pintou, foi a velhinha do tempo da areia, puxa lagarta na minha orelha.

Também eram comuns as estórias de fantasmas, contadas baixinho, todos com as cabeças juntas, para não perder uma frase sequer. Estórias de lobisomens, de bichos de sete cabeças, de almas penadas e bicho-papão; estórias de vozes ouvidas no meio da madrugada, quando o império da escuridão era desvirginado por elementos branquinhos, da cor de lençóis, que apareciam e sumiam. Uma certeza, apenas: eram fantasmas.

Adolescentes brincavam de passar o anel de mão em mão, com aquele final que todos conhecemos, e os namoros eram iniciados ali mesmo, nos olhares fugidios e nos escassos afagos. Pegar na mão era uma glória, e os encontros se sucediam noites após noites, até o grande dia de ir à casa da menina. Tinha que ter autorização dos pais.

Nas calçadas, os adultos e os idosos, em grupos, sentados em cadeiras ou em velhas espreguiçadeiras, punham a conversa em dia e falavam mal de qualquer coisa ou pessoa.

Os dicionários trazem apenas uma referência a essa palavra: é um substantivo depreciativo utilizado na Galícia, Espanha, lá onde fica Santiago de Compostela, mas, mesmo lá, não obtive sucesso em tentar uma tradução para essa estranha e rara palavra. O galego é, talvez, a língua que mais se assemelha ao português. Não sei explicar, mas o jota e o gê, na Galícia, são substituídos pelo xis. E eu ficava rindo com as placas nos prédios: Coléxio San Xerome, Bodega do Xulio, Recollida de Viaxeiros, Xoan XXIII…

 Com sua magia extinta pelo progresso, o carago se enraizou em nossas mentes, e quando forçamos um pouco a memória, em uma viagem imaginária pelas ruas tranqüilas de nossa cidade, logo surge a imagem do nosso asfalto branco, que reluzia aos raios do sol, parecendo pequenos brilhantes espalhados pelo chão, outrora pisado por raríssimos carros e transeuntes felizes, a caminho do trabalho ou simplesmente de passagem para as compras no velho Mercado Público.

 

Na paisagem dos nossos campos – várzeas -, sempre áridos, mesmo nos períodos de chuva, destacam-se duas figuras pequenas, quase sem expressão. Uma, do reino animal, pequenina, de canelinhas finas, e sem canto. Pelo menos não conheço. A outra, do reino vegetal, utilizada geralmente para designar lugares depreciativos, como os antigos cabarés ou bairros pobres e afastados.

O massarico – ou maçarico – é designado como ave caradriiforme, da família dos caradriídeos – de bico alongado e fino e unha do dedo posterior alongada -, e pernas longas. Essas aves vivem nas praias marítimas, margens de rios e lagoas, sendo as principais espécies o maçarico-d’água-doce, o maçarico-de-bico-torto, o maçarico-de-coleira, o maçarico- pequeno, o maçarico- preto e o maçarico-real. O massarico tem um parente bem mais ilustre e conhecido: o tetéu ou quero-quero, ave que aparece nas televisões atrapalhando os jogadores de futebol nos melhores estádios do mundo.

Em Areia Branca, os massaricos tentam escapar do solo inóspito e salgado, com seu voo a encantar aqueles que se aventuram pelas várzeas, praias, manguezais e áreas das salinas, e seu jeitinho bonito de voar e beliscar alguns vermes que se atrevem a dividir com eles a suprema glória de ali sobreviver.

O carrapicho é um subarbusto – um subarbusto – da família das leguminosas e gramíneas, cujos pequenos frutos, que são vagens, se dividem em articulações, com pequenos espinhos ou pelos que aderem facilmente à roupa do homem e ao pelo dos animais, e penetram nos pés descalços.

O carrapicho – junto com a rosa-cera, entre outros – divide a supremacia da sobrevivência do reino vegetal em um local onde o salitre impera, o solo é árido e salgado, e quase sem vida.  O carrapicho tenta escapar de seu habitat, e se prende na calça, na blusa, em qualquer lugar, querendo ir com a gente, grudadinho. Conta-se que um cientista arrancou dois carrapichos que estavam grudados em sua blusa, colocou-os em um microscópio e descobriu por que seu mecanismo de aderência era tão forte. Esse estudo resultou na criação do velcro.

Há outras plantinhas e outros animais que, como o massarico e o carrapicho, desdobram-se para se manter vivos em locais inóspitos, secos, salgados ou com qualquer outra característica nada convidativa, mas o prazer de observar o voo dos massaricos que, com suas manobras acrobáticas, seu pouso ligeiro sobre os carrapichos, beliscando aqui e ali, criam e recriam, há séculos, a beleza do visual de nossas várzeas salitradas e de nossos campos, onde o verde é desgastado por um robusto sol mais que vermelho e pelo vento que vem do mar, com seu assobio de fantasma.

Toninho de Zé Lúcio era um menino bonito. Na adolescência causava irritação na turma da sua idade, porque as meninas só tinham olhos para ele. Para muitos foi um alívio, um concorrente a menos, quando decidiu ir para o seminário, ser padre. Não demorou muito estava de volta. Chegou à conclusão que gostava mesmo era da vida mundana. Certa época era goleiro do nosso time de rua. Costumava se vestir elegantemente, mas naquele dia extrapolou todas as medidas do razoável. Íamos jogar não lembro conta quem, nem qual foi o resultado, nem se ganhamos ou perdemos. Tudo que lembro foi o espanto de todos quando Toninho apareceu com uma camisa de fio helanca, manga longa e gola rolê. Sim, senhoras e senhores, é isso que estou dizendo: camisa de fio helanca, manga longa e gola rolê. Depois dele, o único goleiro que vi se vestir assim foi Raul, que jogou no Cruzeiro e no Flamengo. Repito, Raul usou camisa de manga rolê depois de Toninho.

Como parte do meu ganha-pão vem das hipóteses que me atrevo a apresentar, vou largar mais uma: alguém falou para o Raul que em Areia Branca, um goleiro jogava com camisa helanca de manga rolê. Raul não titubeou, plagiou.

É fácil comprovar a hipótese. Basta ir a Curitiba e perguntar ao Raul. Ele é comentarista esportivo na terra de César Lattes e Jaime Lerner.

Terminada a quarta série do curso primário, fiz o Exame de Admissão para passar direto para o curso ginasial que, em Areia Branca, tinha a Escola Técnica de Comércio como a melhor opção. Era uma dificuldade. A gente estudava, reestudava, discutia, tirava as dúvidas com outras pessoas, o nervosismo tomando conta do ambiente. Enfim, valia tudo para ter acesso à Escola Técnica de Comércio.

À noite, quando o estudo se estendia um pouco mais, tinha que acender a lamparina, com sua fumaça escura, produzia fuligem de filmes de vampiro. A usina elétrica desligava seu gerador movido a diesel às dez horas, e a escuridão reinava absoluta, do Rio Mossoró ao Beco da Galinha Morta, de Zé Filgueira a Honorina, passando pelos tabuleiros brancos das salinas.

Morando na Rua da Frente, surgia o medo, no meio da noite, quando ouvia os ruídos vindos do rio logo à frente, no seu vai e vem, entregando-se às vontades do mar que entrava pela barra, vindo dos lados de Tibau e Upanema. Pareciam gemidos, ora finos, ora graves, barulhos de fantasmas, arrepios de lobisomem. Mas eram apenas os estertores normais de um local repleto de barcos e homens a trabalhar, e preparar suas embarcações para o dia que se avizinhava.

E se fosse noite de lua cheia, o barulho da água do rio a bater no cais, nas marés de janeiro, quando a água fugia do controle e saía em busca das casas, brincando de atacar, mas logo retornava, pois era hora de a maré baixar. Muitas vezes os barulhos tinham outras origens. Eram os notívagos de corações solitários, vindos de todos os barcos, ancorados ou não, em busca de prazeres, e se dirigiam lá pros lados de Honorina, num vozerio madrugada afora, com o cheiro de salitre se misturar ao bafo da cerveja trazida de outras paragens, em seus barcos fugidios.

Todo esse esforço tinha um objetivo: entrar para a Escola Técnica de Comércio, sonho de toda criança pobre da cidade. E esse era o meu acalanto, meu nirvana educacional.

Aprovado no exame de admissão, veio a emoção do primeiro dia de aula, o coração aos pulos, a imaginação muito além do horizonte azul. Já acordei desejando que o dia passasse rápido, que não houvesse tarde, e que o anoitecer investisse sobre o dia, roubando-lhe a luz, para que, enfim, eu tivesse o prazer – quase um sonho – de vestir aquele uniforme cáqui, com uma listra vermelha ao lado de cada perna da calça, a camisa bem passada, o sapato – tinha que ter sapato – de solado e salto de borracha de pneu. Era um charme só. Não esqueci de passar brilhantina Glostora no cabelo, claro. Uma olhada para trás, pra ver se a mãe estava na porta com aquele olhar comprido e o coração orgulhoso. E caminhava devagar, para ser observado, quem sabe tenha a sorte de encontrar aquela menininha da Rua do Meio pelo caminho.

Em torno dos doze anos os meninos adquiriam o direito de usar cueca, ao tempo em que deixavam de lado os suspensórios, que tanto atrapalhavam nos jogos e nas diabruras dos dias de férias que estavam por terminar.

Depois da aula, com os livros debaixo do braço, ir à pracinha conversar e se exibir, com o ouvido ligado na sonora no alto da prefeitura – Palacete Municipal – a anunciar as novidades e os filmes em cartaz no Cine Coronel Fausto. Finalmente, o retorno à casa. Estava chegando a hora de a usina de luz descansar.