Enquanto aguardava no aeroporto Pinto Martins, a chegada de uma sobrinha procedente de São Paulo ouvi a seguinte pergunta, dirigida a um funcionário da TAM:
- Por favor, o avião chegará às 6 horas ( 18 horas), pelo horário daqui ou de lá? – referindo-se ao horário de verão.
Isto me transportou para a nossa querida Areia Branca, ao ano de 1949 e de 1950. Em 1949, quando o presidente Dutra instituiu pela terceira vez no Brasil (as duas primeiras foram Getulio Vargas), o horário de verão, em todo território nacional. Naquela época, era comum alguém quando indagado sobre as horas, responder, por exemplo, são dez horas na hora velha, e onze na hora nova ou hora solar. Essa frase “hora solar”, geralmente era usada por aqueles que tinham certos conhecimentos, e queriam demonstrá-los aos que não tinham. Não se ouvia falar em horário de verão. E em 1950 devido uma marchinha carnavalesca sobre a “hora nova ou solar”.
Eram poucos os que tinham relógios naquela época. Uns por falta de dinheiro para comprá-los, e outros por não saber ler as horas. Porem isto não foi empecilho para Zé do cais (nome fictício), “barcaceiro endinheirado”, que mesmo não sabendo as horas, comprasse um vistoso relógio que creio ter se arrependido de tal feito. Isto porque as pessoas propositadamente lhe perguntavam as horas só para escutarem as mais desconcertantes respostas, que serviam de risos. Certa vez, ele ia para casa e ao passar em frente a casa de sua comadre, esta perguntou:
- cumpade que horas são?
Ele parou, consultou o relógio por varias vezes e disse:
- cumade, depois que inventaram essa hora nova com hora solar, misturada com a hora véia, dá uma confusão danada pra “distrinchar”, porem como estou indo pra casa almoçar, são umas 11 horas.
Naquela época, era praxe o almoço ser servido às 11 horas, bem como o jantar às 18 horas.
Isto foi o suficiente, para que Amaro de Frederico, que dispensa comentário sobre seus dotes poéticos, fizesse uma marchinha para o bloco da “bagaceira” ou bloco do sujo, no carnaval de 1950 intitulada “tá tudo errado”, que era assim:
Tá tudo errado cumpade
Tá tudo errado cumpade
Até as horas ninguém sabe como está
Agora existe cumpade
Agora existe cumpade
A hora nova, a hora velha e hora solar.
Eu vou lhe contar um caso
Como foi que aconteceu
O cumpade comprou relógio
E nem as horas aprendeu
Fui uma festa na casa de zebedeu
Entre todos os errados
O mais torto era eu.
Essa referencia sobre Zebedeu, foi devido a uma musica gravada por Pedro Raimundo, intitulada “Na casa de Zé Bedeu”, muito tocada na época, da qual por ser muito extensa recordo alguns trechos, em que conta o que houve naquela casa, durante uma festa junina. Os versos iniciais estão corretos, o restante é aleatório.
Eu vou contá pra vocês / Tudo que aconteceu
Numa noite de São João / Na casa de Bedeu.
Pela volta das seis horas / tava grossa a brincadeira
Zé Bedeu gritou, moçada / vâmo acender a fogueira.
Zé Bedeu foi o primeiro / a cair na brincadeira
Foi pular com mão no bolso / Caiu dentro da fogueira
A velha chica lorota / Estava toda animada
Foi pular caiu à saia / Ficou toda sapecada.
Quando foi às onze horas / Zé Bedeu gritou assim
Vamos todos pra cozinha / tem batata e aipim
Os véios tão proibidos de comer amendoim.
Essas mocinhas de hoje / toda cheias de coisinhas
Não quiseram soltar bomba / pra mode soltar rodinha,
O rapaz envergonhado / só pro mode as muié
Não quizeram soltá bomba / mas soltavam buscapé
E tinha muito mais, tudo na base da gozação.
Este é o segundo resgate da historia poética de Areia Branca. O primeiro foi à glosa do Malaquias. Ambos não ficarão perdidas no tempo, como muitas se perderam. É por este motivo, que o blog é um serviço de utilidade para todos areia-branquenses…. Com ou sem hífem.