Os autores deste blogue estão comprometidos com os registros históricos de Areia Branca, sobretudo, mas não exclusivamente, aqueles referentes às três décadas, de 1950 a 1980. Esses registros incluem:

  • descrição de documentos oficiais ou cópias digitalizadas dos mesmos;
  • registros iconográficos diversos;
  • transcrições da história oral;
  • relatos do folclore areia-branquense.

É natural que alguns desses relatos provoquem constrangimentos às pessoas envolvidas. Quando este for o caso, os autores omitirão os nomes e as referências que facilitem a identificação das personagens.

Procedimento similar será adotado com relação aos comentários dos leitores.

42-15683251Quem desejar colocar um link para seu blogue pessoal basta enviá-lo para cas.professor@gmail.com.

Veja como os links aparecem na barra lateral, em Links de colaboradores e visitantes.

Convidamos o visitante do blog a dar uma espiada na coleção de livros sobre Areia Branca (atualizada em 19.02.2001) Quem tiver sugestão de livros porventura não incluídos na nossa lista, pode enviar capa e detalhes editoriais (título, autor, editora, endereço para aquisição, etc) para cas.professor@gmail.com.

Tudo começou com uma provocação de um dos mais ativos memorialistas do bloque, nosso Doutor Honoris Causa (DHC) Antônio Fernando Miranda. Se espalhou entre um grupo de assíduos colaboradores e frequentadores do blogue e antes que a noticiássemos aqui, o jornal “O Mossoroense” (caderno Cidades, página 5) nos deu um verdadeiro furo, publicando a ideia no dia primeiro de abril, sem que esta seja mentira. É a mais pura verdade, estamos trabalhando, já com a colaboração de um batalhão de gente, articulado pelo nosso DHC, para organizarmos, em outubro ou dezembro, a Semana da Cultura Areia-Branquense. 

Veja a matéria

Esta semana, comentando o fato de ter participado das comemorações – perfeitas nos mínimos detalhes – dos quarenta anos de minha formatura, que aconteceram em um resort de Porto de Galinhas, uma constatação: não disponho de uma só fotografia daquele acontecimento festivo do dia 10 de dezembro de 1971, em Natal. Nem da festa de formatura nem do baile.

Lembro da música de Roberto Carlos embalando o ponto alto do evento, com o brilho das lantejoulas e a elegante sisudez dos paraninfos e patronos – Um dia a areia branca seus pés irá tocar, e vai molhar seus cabelos a água azul do mar. Janelas e portas vão se abrir pra ver você chegar; e ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos uma história pra contar de um mundo tão distante. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, um soluço e a vontade de ficar mais um instante -, porém não tenho uma foto sequer daquela noite.

Dando-me conta desse descaso com minha história de vida, a perplexidade foi mais longe no tempo. Constatei que não disponho de uma foto com a farda da Escola Técnica de Comércio, nem do Círculo Operário, bem como dos barcos dos beijus, da barraca do Zacarias, point das festas de Nossa Senhora dos Navegantes.

Forçando a memória, descobri que não tenho uma foto de minhas poucas pescarias no Tirol, nem de um instantâneo feito na calçada do Cine Coronel Fausto, nem dos professores das escolas por que passei, nem da Rua da Frente, quando era a via mais importante da cidade, nem do bar de Honorina. Tampouco disponho de uma foto do Botequim da Bosta nem das marés de sizígia que encantaram a minha meninice.

Outra falta grave: onde estarão as fotos das meninas de nossas escolas, dos banhos no rio Ivipanim, das conversas nos bancos da pracinha, das figuras típicas de nossa cidade, do velho motor da usina de luz?

E as fotos contemplando os cataventos de outrora, em seu giro com sabor de liberdade e barulho de supermatraca e aspecto de animais da Era do Gelo, onde estarão? E as fotos dos nossos músicos de então, especialmente no momento em que tocavam nos intervalos dos filmes, no Cine Coronel Fausto, onde estarão? E as retretas na pracinha, alguém fotografou?

Suspeito de que Toinho do Foto – nosso inesquecível Antonio do Vale -, as tivesse. Quem sabe, algum dia descubramo-nos em fotos de seu arquivo pessoal, em uma garimpagem junto com seus familiares.

A foto que falta a cada um. Uma lacuna em nossa história.

O Rio São Francisco – o Velho Chico – tem sua nascente real no município de Medeiros, em Minas Gerais. Antes, sua nascente histórica era tida como sendo na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Atravessa os estados da Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, onde desagua no Oceano Atlântico, depois de percorrer 2830 quilômetros.

No contraponto, o Ivipanim – 210 quilômetros de extensão -, um pequenino grande rio. É batizado com esse nome quando entra no território de Areia Branca, que se oferece inteira à sua margem direita; do outro lado, o rio Ivipanim traz beleza e charme ao município de Grossos.

Em Areia Branca, o rio é saudado pela igreja matriz, que o reverencia qual uma esfinge fincada em sua margem. Segue silente e permeia a Rua da Frente, misturando-se com as águas do oceano um pouco mais adiante, já vislumbrando o morro do Pontal e sonhando com a praia de Upanema. Um breve relato para um rio tão importante.

De fato, o Ivipanim nasce na Serra de Luís Gomes com o nome de rio Apodi, atravessando os municípios localizados na chapada do Apodi. Em sua errante perambulação, convida para acompanhá-lo os rios Carmo-Upenema, Umari e Pitombeira, pela direita, o que fortalece o fluxo de suas águas; à esquerda, recebe adesão dos rios Tapuio, Grande e Bom Sucesso. Ao chegar à metrópole do oeste, ganha o belo nome de rio Mossoró, para em seguida firmar sua certidão de batismo com um nome muito charmoso: Ivipanim. Não faço ideia de onde surgiu essa palavra.

O rio Ivipanim, poluído pelo lixo e o esgoto jogados em suas águas, especialmente a partir de Mossoró, chega a Areia Branca pedindo socorro. Se paciente internado em UTI, bastaria uma simples oximetria de pulso para constatar a gravidade de seu estado de saúde, cianótico, devido ao baixíssimo nível de oxigenação. Por sorte, a recepcioná-lo, belos manguezais e o conforto das águas do oceano, que chegam pela entrada da barra, num encontro agendado pelos desígnios da natureza, e saudado pelas salinas e seus bilhões de microespelhos, que reluzem à luz de um sol impiedoso. Em seguida, como há muitos e muitos anos, o mistério de seu desaparecimento, que somente às sereias é concedido o dom de decifrar.

Quando chega a Areia Branca, depois de percorrer 200 quilômetros- apenas cerca de quinze quilômetros entre nós -, e já distante de seu berço na Serra de Luís Gomes, o segundo maior rio potiguar alegra-se com a acolhida e, oxigenado, recupera um pouco de sua vitalidade – os nutrientes trazidos pelas águas vindas do oceano – antes de se lançar nas águas salitradas do mar, que o recepciona com o abraço barulhento de suas ondas. É aqui, antes de sua metamorfose rio-mar, que o rio Ivipanim se exibe bonito e revigorado, esforçando-se para sair bem nas fotos, deste Toinho do Vale.

Um pequeno grande rio, onde – meninos da Rua da Frente – nos aventuramos, em suas águas salobras, fosse nas canoas para Barra e Pernambuquinho, fosse festejando os folguedos de Nossa Senhora dos Navegantes, nos costados de suas barcaças ou, de longe, admirando os iates com suas velas brancas. Hoje, modernas embarcações motorizadas conduzem pessoas e riquezas em suas águas.

Ivipanim. Dez a quinze quilômetros de um rio que nos chega quase morto.

Vamos manter esta beleza pulsando.

Apenas alguns dias de férias, na última semana de 2011, bastaram para um reencontro com as alegrias da minha infância. Fui convidado para visitar um amigo , que mora em um pequeno sítio na entrada de Monte Alegre, pertinho de Parnamirim, parede e meia com Natal.

Logo na entrada do sítio Asa Branca, seguimos por uma estradinha de terra ladeada de cajueiros exibidos, com seus frutos vermelhos querendo se sobressair sobre os amarelos, ao lado, como se fosse a Diana do cordão encarnado a provocar o cordão azul. Os passarinhos, indiferentes à disputa, preferiam os dois. O cheiro os guiava, não a cor.

Conheci frutas exóticas, como a lichia, que se esforçava em sua peleja por espaço contra as frutinhas do campo. As mangas, todas lindas, fossem amarelas, verdes ou vermelhas, banhavam-se desnudas ao sol abrasador de dezembro. Sem falar nos cocos, nas pinhas e nas mangabas, que nos olhavam de longe.

Aqui e ali, calangos se exibiam sem temor, recompensando, com seu bailado, o respeito dos moradores. Porém de olho em dois enormes gansos que os espreitavam de soslaio. Conheci um berçário com uma infinidade de filhotes de palmeiras sendo banhadas por minichuveiros que formavam minúsculos arco-íris quase no nível do chão que, molhado, exalava frescor de meninice.

No final da tarde, com o olho da noite a nos espreitar, percebi, sobre uma lona, um monte de castanhas de caju. Lembrei-me de que, criança, jogava castanhas na calçada da Rua do Meio, atrás da minha casa, ao lado do sobradinho dos padres. As crianças das famílias abastadas não conheciam essa brincadeira.

O caseiro, ao perceber nossa aproximação – e mais uma vez sendo gentil -, ofereceu-se para assar algumas castanhas para o visitante, que imagino julgar ilustre. Logo o fogo tomava conta dos gravetos, na areia, soprando suas labaredas fugidias. Um tacho abarrotado de castanhas foi colocado sobre o fogo e o espetáculo teve início. As castanhas bailavam e explodiam, empesteando o ar com o cheiro de seu óleo fumegante. Vira, revira, pula para um lado, esquiva-se do outro, cuidado com os olhos, o fogo a nos amedrontar com seu bafo ameaçador. Meu filho, fotógrafo profissional em São Paulo, deslumbrava-se com aquele ritual stonehengeano, e os disparos da máquina se sucediam.

Ao final, o melhor. Quebrar as castanhas com uma pedra, e comê-las. Na verdade, não as comemos; degustamo-las sem pudor, quase queimando a boca. O puro gosto da natureza, com a cinza quente a nos enegrecer mãos e unhas. Gormets do interior, pobres comedores de castanhas caipiras. Crianças de cabelos gris.

Foi aí que entendi – já imaginando um próximo convite – os belos versos de Fagner, que sentenciam: de uma coisa fique certa; a porta vai estar sempre aberta; o meu olhar vai dar uma festa na hora que você chegar.

Pura pretensão, a minha.

Uma autêntica festa no interior… do meu coração.

 

Recebi, no dia dois de janeiro, um resumo estatístico dos acessos ao Blog do Evaldo durante o ano de 2011. Muitos dados, números diversos, percentuais, mapa mundi. Não é fácil manter um blog de crônicas em atividade.

Foram 2.700 acessos durante o ano. O número não é grande. Porém se entendermos tratar-se de um blog de crônicas, sem outro interesse, qualquer que seja, esse dado pode ser considerado excelente.

Na América do Sul, o Blog do Evaldo foi acessado no Brasil e no Equador; na América do Norte, nos Estados Unidos e no Panamá; na África, em Angola e no Quênia; na Europa, Portugal detém o maior número de acessos, com 69,6% das visitas de estrangeiros, e a França 17,4%, além de Rússia, Alemanha e Ucrânia; Hong Kong, na Ásia, também acessou nosso blog.

Muitos foram os caminhos utilizados pelos leitores de todas as latitudes para encontrar o nosso blog. Além do boca-a-boca, as vias foram, por ordem decrescente de importância: areiabranca.wordpress.com, facebook.com, webcache.googleusercontent, private networks e palavrastodaspalavras.wordpress.com.

Afinal, alguém poderia perguntar: o que Areia Branca tem a ver com tais números? Apenas responderia que boa parte das crônicas postadas em meu blog referem-se a Areia Branca, seu povo, seus costumes, seu modo de falar e de viver, sua história. É comum que me dirijam esse tipo de pergunta: Pô, cara, que cidade tão bonita é aquela do seu blog? De onde você tirou aquela cidade que está no seu blog? Ah! É no Rio Grande do Norte? Tem hotel para nos hospedarmos? Então iremos lá quando formos para Natal. Entre alguns amigos há uma caravana em formação para assistir à Chuva de Bala no País de Mossoró, em junho. Areia Branca no programa.

Muitas vezes, no Blog do Evaldo, tenho vontade de falar de nossas praias, quase sempre assombradas pelo assobio dos ventos que, ricocheteando nas salinas, distribuem seu bafejo quente e salitrado; do Cine Coronel Fausto, do Cine São Raimundo, do Cine Miramar, do Palacete Municipal e sua famosa sonora, do Beco da Galinha Morta, com suas estórias de amores fortuitos e vultos escamoteando-se na escuridão das noites de então, e que povoam o imaginário de todos nós; do Portal da Rua do Meio, do Morro do Urubu, da Rua da Frente, do Botequim da Bosta, este, um equipamento comunitário sem foto, e com raras testemunhas, talvez em função do seu nome; da Rampa, do Tirol, onde a cidade pulsava, descortinando o rio Ivipanin; de nossas canoas, nossos manguezais; dos personagens típicos de nossa cidade, sejam os de hoje ou de antigamente. Aqui e ali afloram, qual eflúvios auditivos, histórias antigas, permeadas de intrigas, serracões, desencontros. Coisas da nossa infância.

Apesar dos números, boa parte do meu orgulho, em relação ao Blog do Evaldo, deve-se a uma foto, feita de uma canoa, em momento de reencontro com os manguezais do rio Ivipanin, feita por um fotógrafo de São Paulo, levado para conhecer a deusa das salinas, chão da minha infância.

Acesse www.evaldoab.wordpress.com e entenda o por que da minha satisfação.

 

 

Enquanto aguardava no aeroporto Pinto Martins, a chegada de uma sobrinha procedente de São Paulo ouvi a seguinte pergunta, dirigida a um funcionário da TAM:

- Por favor, o avião chegará às 6 horas ( 18 horas), pelo horário daqui ou de lá? – referindo-se ao horário de verão.

 

Isto me transportou para a nossa querida Areia Branca, ao ano de 1949 e de 1950. Em 1949, quando o presidente Dutra instituiu pela terceira vez no Brasil (as duas primeiras foram Getulio Vargas), o horário de verão, em todo território nacional. Naquela época, era comum alguém quando indagado sobre as horas, responder, por exemplo, são dez horas na hora velha, e onze na hora nova ou hora solar. Essa frase “hora solar”, geralmente era usada por aqueles que tinham certos conhecimentos, e queriam demonstrá-los aos que não tinham. Não se ouvia falar em horário de verão. E em 1950 devido uma marchinha carnavalesca sobre a “hora nova ou solar”.

 

Eram poucos os que tinham relógios naquela época. Uns por falta de dinheiro para comprá-los, e outros por não saber ler as horas. Porem isto não foi empecilho para Zé do cais (nome fictício), “barcaceiro endinheirado”, que mesmo não sabendo as horas, comprasse um vistoso relógio que creio ter se arrependido de tal feito. Isto porque as pessoas propositadamente lhe perguntavam as horas só para escutarem as mais desconcertantes respostas, que serviam de risos. Certa vez, ele ia para casa e ao passar em frente a casa de sua comadre, esta perguntou:

- cumpade que horas são?

Ele parou, consultou o relógio por varias vezes e disse:

- cumade, depois que inventaram essa hora nova com hora solar, misturada com a hora véia, dá uma confusão danada pra “distrinchar”, porem como estou indo pra casa almoçar, são umas 11 horas.

Naquela época, era praxe o almoço ser servido às 11 horas, bem como o jantar às 18 horas.

 

Isto foi o suficiente, para que Amaro de Frederico, que dispensa comentário sobre seus dotes poéticos, fizesse uma marchinha para o bloco da “bagaceira” ou bloco do sujo, no carnaval de 1950 intitulada “tá tudo errado”, que era assim:

 

Tá tudo errado cumpade

Tá tudo errado cumpade

Até as horas ninguém sabe como está

Agora existe cumpade

Agora existe cumpade

A hora nova, a hora velha e hora solar.

 

Eu vou lhe contar um caso

Como foi que aconteceu

O cumpade comprou relógio

E nem as horas aprendeu

Fui uma festa na casa de zebedeu

Entre todos os errados

O mais torto era eu.

 

Essa referencia sobre Zebedeu, foi devido a uma musica gravada por Pedro Raimundo, intitulada “Na casa de Zé Bedeu”, muito tocada na época, da qual por ser muito extensa recordo alguns trechos, em que conta o que houve naquela casa, durante uma festa junina. Os versos iniciais estão corretos, o restante é aleatório.

 

Eu vou contá pra vocês / Tudo que aconteceu

Numa noite de São João / Na casa de Bedeu.

 

Pela volta das seis horas / tava grossa a brincadeira

Zé  Bedeu gritou, moçada / vâmo acender a fogueira.

 

Zé Bedeu foi o primeiro / a cair na brincadeira

Foi pular com mão no bolso / Caiu dentro da fogueira

 

A velha chica lorota / Estava toda animada

Foi pular caiu à saia / Ficou toda sapecada.

 

Quando foi às onze horas / Zé Bedeu gritou assim

Vamos todos pra cozinha / tem batata e aipim

Os véios tão proibidos de comer amendoim.

 

Essas mocinhas de hoje / toda cheias de coisinhas

Não quiseram soltar bomba / pra mode soltar rodinha,

 

O rapaz envergonhado / só pro mode as muié

Não quizeram soltá bomba / mas soltavam buscapé

 

E tinha muito mais, tudo na base da gozação.

 

Este é o segundo resgate da historia poética de Areia Branca. O primeiro foi à glosa do Malaquias. Ambos não ficarão perdidas no tempo, como muitas se perderam. É por este motivo, que o blog é um serviço de utilidade para todos areia-branquenses…. Com ou sem hífem.

 

 

 

 

 

 

 

 

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