Inesquecíveis, também, foram as brincadeiras no período de carnaval na sua residência da Rua do Meio, entre à casa de vovô Izídio Souza, e o Sindicato dos Carpinteiros. Casa esta que atualmente é um hotel. Quando escutávamos um som gostoso, animado, ritmado, de uns frevos pernambucanos e de umas marchinhas carnavalescas executadas por uma bandinha de música tocando lá, corríamos para participar também. Tanto fora quanto dentro da residência, observávamos que ela ficava cheia, com gente “saindo pelo ladrão”. Eles providenciavam logo um porteiro, que de prontidão, no portão de ferro na entrada, impedia, principalmente, a entrada de bêbados, “penetras”, desconhecidos impertinentes, e crianças chatas. Eu pertencia ao último grupo. Claro que eu era barrado também. Após me identificar, implorava ao mesmo para que chamasse a Sra. Alzenir. O porteiro não dava a mínima. Estava exercendo o seu ofício de forma brilhante e exemplar.
Eu ficava extremamente irritado e aflito. Há um ditado popular, cantado também em verso e prosa que diz assim: “quem não chora não mama”. Eu gritava a plenos pulmões: dona Alzenir! Dona Alzenir! Quando ela ouvia os gritos, vinha ao portão para ver do que se tratava, e quando via a minha ansiedade e aflição, dizia ao porteiro:
- Pode deixá-lo entrar.
A felicidade ficava estampada em meu rosto. Por um momento eu abria um largo sorriso de satisfação, ficava muito feliz! Por outro lado, ficava deveras comovido, pois outras crianças que conhecia, desconhecidas da Sra. Alzenir, eram sumariamente barradas e ficavam inconsoladas.
Ao entrar, via que a residência estava completamente lotada de familiares, alguns conhecidos, e repleta de brincantes que nunca tinha visto. A animação reinava ali, e entre os mais animados se destacava a Ângela Maria de Melo, irmã da Sra. Alzenir. Era a animação em pessoa.
Eu, perdido naquela multidão, saía ziguezagueando entre os presentes, com o intuito de chegar o mais próximo da bandinha de música. Quando conseguia o intento, ficava ali saboreando o delicioso som muito bem orquestrado. Quando a charanga tocava “Vassorinhas”, eu não me continha e caía no frevo. O esposo da Sra. Alzenir, também dono da casa, Sr. Antonio Rodrigues, mais conhecido na cidade por Toinho Beiju, era impassível, ficando todo o tempo deitado numa bela, grande, e chique rede, numa área ampla, conversando com alguns amigos que lá se encontravam. Vez por outra, ele se levantava para tomar uma dose de uísque, aquele com a estampa de um cavalo branco. Bebericava, mas não caía no frevo. Voltava sempre para sua aconchegante rede.
Como via muita gente se servindo numa grande mesa farta, com vários tipos de comida e bastante salgadinhos como “tira-gosto”, psicologicamente, aquela visão estimulava o meu apetite, então aproximava-me e provava aquelas iguarias, verdadeira comida de reis. Lá não havia limites, todos se serviam à vontade. “A coisa corria frouxa”.
Depois de muito “pularmos carnaval”, já à tarde, encostava um grande e possante caminhão em frente à casa e a bandinha subia na sua carroceria. Eu não queria perder nenhum detalhe e os acompanhava também.
Muitos ficavam na residência. Sobrava vaga no caminhão, que empreendia sua marcha lentamente, para que ninguém se machucasse. Os músicos já muito bem alimentados, calibrados com muitas doses de bebidas alcoólicas, tocavam divinamente aquelas marchinhas inesquecíveis: “Mamãe eu quero”, “Bandeira branca”, “índio quer apito”, “Sapo não lava o pé”, “Cabeleira do Zezé”, “Cachaça não é água”, etc.
A animação continuava naquela carroceria. Vez por outra o caminhão freava bruscamente, e todos nós brincantes na carroceria, íamos em direção à parte dianteira do carro, próxima à boléia, onde estava a charanga. Ríamos muito daqueles encontrões. Principalmente quando íamos de encontro aos músicos de sopro, que invariavelmente desafinavam e erravam a música.
Outra recordação a qual me lembro, é que também em alguns fins-de-semana, encontrava-me com a Sra. Alzenir na sua casa na praia de Upanema, naquela residência que fica no alto de um morro, com visão para o Arrombado.
Eu, estudante do primeiro grau, geralmente nessas horas estava sem dinheiro, “sem lenço e sem documento”, bastante faminto, e o horário passando das 14h 00. Ia lá na intenção de comer algo, pois sabia que sua mesa era sempre farta e também ela sempre me convidada para comer, e comida da melhor qualidade.
Inegável afirmar que praia abre o apetite de qualquer ser humano. Eu era a própria fome em pessoa, e não disfarçava aquela minha “cara de pidão”, porém, independente disso, ela sempre me oferecia algo do seu lauto almoço.
Parece que estou vendo ela falando. Aquela bondade em pessoa…
- Você já almoçou meu filho? Quer comer alguma coisa, beber algo? Tem isso, tem aquilo…Não se acanhe. Pode se servir à vontade.
Eu não me fazia de rogado. Não perdia tempo, pegava o prato e me empanzinava.
Um fato interessante é que quando criança eu não distinguia em nada os sobrenomes das Alzenir. Fazia uma confusão entre Alzenir Rolim e Alzenir Noronha.
Inúmeras vezes, mamãe se encontrava com uma delas no centro em Natal e dizia:
-Ah! Encontrei-me no Grande Ponto (centro da cidade) com Alzenir Noronha.
Na minha inocência eu dizia: mamãe, foi com dona Alzenir rica ou dona Alzenir pobre?
Mamãe não “perdia a esportiva” e respondia prontamente, para o meu parco entendimento:
- Alzenir rica!
Como esquecer a Sra. Alzenir Noronha? Pessoa de alma boa, simples, humilde e riquíssima, tanto financeiramente como espiritualmente?
Dona Alzenir Rica! Que Deus a abençoe e a encha de riquezas espirituais e materiais.