Os autores deste blog estão comprometidos com os registros históricos de Areia Branca, sobretudo, mas não exclusivamente, aqueles referentes às três décadas, de 1950 a 1980. Esses registros incluem:

  • descrição de documentos oficiais ou cópias digitalizadas dos mesmos;
  • registros iconográficos diversos;
  • transcrições da história oral;
  • relatos do folclore areia-branquense.

É natural que alguns desses relatos provoquem constrangimentos às pessoas envolvidas. Quando este for o caso, os autores omitirão os nomes e as referências que facilitem a identificação das personagens.

Procedimento similar será adotado com relação aos comentários dos leitores.

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Em 1985, eu era pesquisador da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em Rio Branco-AC.
Meu campo de trabalho foi em um Projeto de Assentamento do INCRA, cuja sede se localizava no Km 61 da BR 364 (AC – RO).
Fiz logo amizade com todos, e vivi em harmonia com aquela comunidade rural.
Inúmeros foram os convites para ser padrinho de crianças, professor da escola local, palestrante, etc.
Só não rezei missa, mas fiz de tudo para agradar a todos.
Espero, em breve, escrever um livro sobre essas inúmeras histórias.
Um dos relatos dos quais me lembro foi o parto de uma das jovens produtoras rurais. Foi um momento mágico, sublime, e inesquecível.
Lembrei-me da minha infância em Areia Branca, quando o médico clínico geral, Dr. “faz-tudo”, Dr. Chico Costa, realizava partos na Maternidade Sara Kubistckeck, com o auxílio indispensável da sua assistente, Sra. Valmira Pereira da Silva, famosa parteira da cidade.
Em Areia Branca, ouvia inúmeros casos sobre Dr. Chico não se encontrar na cidade, e, na sua ausência, o parto ter sido realizado pela competentíssima parteira, Sra. Valmira.
O pessoal da cidade dizia:
- Dona Valmira não é santa não, mas obra milagres!
Várias foram as crianças que foram aparadas por suas santas mãos.
Ela nunca se negou a ajudar alguém em trabalho de parto. Prontamente, naquela sua paciência e experiência de vida profissional, acalmava as famílias envolvidas, as parturientes aflitas, principalmente as mães de primeira viajem.
Tomei conhecimento que ela recentemente comemorou seu natalício de número 90 (noventa), junto aos seus muitos familiares, e aos seus milhares de amigos.
Dona Valmira, que a Sra. goze de merecida boa saúde e disposição, na cidade que nasceu, junto aos familiares, amigos, admiradores,  e continue fazendo os milagres, se necessários forem.

Recentemente, falando com o Grande Mestre Deífilo Gurgel, escutei dele o vaticínio:
- Os escritores geralmente escrevem sobre sua cidade natal, ou sobre a terra que amam.
Eu, como aprendiz de escritor, estou confirmando a profecia.
Vai e volta, a minha mente me transporta à minha infância, final da década de 1960 em Areia Branca.
Meus avós maternos, Izídio Souza/Maria Nogueira, residiam na praia de Upanema, numa casa onde anos mais tarde foi a residência de Leo Rolim, concomitante com o seu Bar/Restaurante.
Meus avós criavam um tatu-peba (Euphractus sexcinctius), dentro de um tonel metálico de cor azul-marinho.
Quando eu os visitava, matava sempre minha curiosidade, indo naquele tonel para ver de perto o tatu-peba. Bicho feio e esquisito.

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Meu temor era que o tatu conseguisse sair dali e me atacasse. Tranquilizaram-me dizendo que ele não conseguiria subir.
Certo dia, foram pegar o tatu-peba para transformá-lo em comida saborosa. Parece que o tatu adivinhou que ia para a panela. Desvencilhou-se das mãos hábeis do seu algoz, empreendendo fuga espetacular para o quintal, colocando toda a família no seu encalço.
O bicho era esperto, mas seu destino já estava traçado.
Engraçada foi a cena daquele monte de gente correndo atrás do tatu. E a gritaria no meio do terreiro?
- Pega o bicho! Pega!
Não comi aquela carne muito branca, apesar do bonito aspecto apresentado. Causou-me certa repugnância.

Anos mais tarde, eu, professor da Universidade Federal do Acre, fazia refeições no Restaurante Universitário, e alguns alunos me informaram que iam colocar no cardápio carne de rato!
Claro que era improvável. Não passava de extremo exagero. Tão somente, a direção do R.U optou por fornecer carne de preá (Galea spixii), que era criado e fornecido pelo departamento, do qual fazia parte.
Ri bastante daqueles adultos agindo como crianças, e me lembrei da família Rolim de Areia Branca.
Sempre que ia na residência do Sr. Ivani Rolim, olhava admirado aqueles belos preás da sua criação.
Eu dizia que eram ratos, o que prontamente era corrigido.
Não havia quem me demovesse do contrário. Já estava completamente dominado pela idéia de  que eram ratos, e pronto.
Até os dias de hoje, há quem ainda defenda essa ridícula tese.
Eu não passava de uma criança. Será que essa turma adulta, defensora dessa tese arcaica, crianças não são?

Toda cidade que se preze tem no mínimo um doido. Louco, alienado, demente, mentecapto, leso…

Às vezes, ele se apresenta extremamente calmo, tranquilo, sereno… Mas em outras ocasiões, altamente agitado, louco-varrido, indômito, implacável… Ah! Isso sim!
Em Areia Branca, nas décadas de 1960-1970, houve um muito famoso.
Como eu era muito criança, achava-o  muito alto, moreno claro, de estatura entre 1,78m a 1,80m. Posso estar enganado. Também o achava extremamente elegante, apesar de se tratar de um louco.
Defendo a tese que a dita elegância, não depende da pessoa possuir bens materias, roupas caras e de grife, ou especificamente dinheiro. Ela está intrinsicamente interligada na combinação correta de certos fatores como discrição, total naturalidade, muito cuidado consigo mesmo, combinação de cores, e, por fim, simplicidade.
Por mais estapafúrdio que fosse, ele como um bom doido que era, não tinha tanto cuidado consigo, porém, apesar dos pesares, achava-o elegante.
Posso também ser taxado de louco por defender minha opinião. Mas quem não for louco, ou nunca teve um momento de loucura na vida, “atire a primeira pedra”…
Fabiano, invariavelmente estava com a barba por fazer, os cabelos castanhos um pouco grandes (estilo soldado romano) despenteados, trajando uma calça verde-oliva social, e uma camisa branca de linho. Andava garbosamente pelas ruas da cidade, naqueles passos largos, firmes, decisivos, e não molestava a ninguém.
Havia momentos que alguém cortava seus cabelos, sua barba, e até lavava suas roupas. Ele se apresentava, de certo modo, até ligeiramente normal. Os mais desavisados que não o conheciam, se o encontrassem, jamais pensariam se tratar de um louco. Ele era um doce de pessoa.
Havia várias histórias sobre ele. Diziam que ele tinha ficado louco por um amor não correspondido. Outros diziam que ele fora bancário, e de tanto fazer contas enlouqueceu. Falavam também que ele tinha decorado todos os números das placas dos carros da cidade. Era só lhe perguntar que prontamente ele respondia.
Algumas almas caridosas davam comida para ele. Chamavam-no e davam-lhe frutas, e, às vezes, doces e salgadinhos.
Nunca ouvi dizerem que ele tenha desacatado alguém, ou que alguém o tenha agredido.
Falaram-me que ele dormia lá pras bandas do Tirol, próximo à empresa F. Souto. Lá era o seu refúgio.
Em vários períodos das minhas férias escolares, encontrei-me com Fabiano, até que, em um determinado ano, relataram- me que tinha morrido.
Realmente, nunca soube sobre suas raízes, sua família, a origem da sua loucura, nem muito menos a causa de sua morte. Parece-me que morreu com pouca idade. O que sei com clareza é que ele era tranquilo e não mexia com ningém.
A imagem que guardo dele é daquele homem alto, forte, elegante, passos firmes…
Será que estou doido?

Rebocadas ou bordejando, elas vinham carregadas das salinas e fundeavam na maré, onde permaneciam até quando a enchente do rio permitisse a passagem na boca da barra.
Saíam de barra afora com o vento soprando em suas velas, em belíssimas manobras feitas pela maestria dos seus marinheiros, que dava gosto apreciar. Após cobrirem um percurso de 3 milhas, atracavam no costado do navio.
Agora, outra operação se fazia necessária para o descarregamento. Eram os estivadores que entravam em cena. Um grupo de cinco homens era responsável pela transferência do sal do porão das barcaças para os porõs dos navios, feita através de tinas com capacidade de 700 a 900 Kg.
Esses cinco estivadores, sob as ordens de um contramestre, se dividiam em dois operadores do guincho, dois que entornavam a tina com sal e um portaló que orientava os guincheiros na retirada do produto do porão dos veleiros para o convés do cargueiro. Quatro barcaças eram descarregadas simultaneamente.
Os navios que fundeavam no nosso lamarão recebiam sua carga completa, variando de 4 a 8.000 toneladas. O Mandu, navio pertencente ao Lloyd Brasileiro, e maior cargueiro da América do Sul, como diziam, era o único que tinha capacidade para transportar 11.000 toneladas.
A estadia de cada vapor no nosso porto demorava de 8 a 10 dias, dependendo do número de navios ancorados.
Hoje, 1 navio com capacidade de 30.000 toneladas é carregado na sua totalidade em questão de horas. As barcaças de madeira foram substituídas por embarcações de ferro, que não dependem do vento para a sua locomoção, e cada uma tem capacidade de transportar 1.000 toneladas.
A estocagem de sal no Porto-Ilha é feita por elas, independente de ter ou não navio ali atracado. Isso facilita um desempenho mais rápido no carregamento dos cargueiros. Atualmente, com menos de 10% do efetivo humano que exigia antigamente, opera-se um maior número de tonlagem do que antes. O progresso veio para destruir 90% dessa mão-de-obra.
Pode-se até argumentar que se promove aqui algo contra o desenvolvimento admirável alcançado pela criatura humana. Não, não é isso que inculca a mente desse incurável saudosista, que se ufana de sua Areia Branca ter, talvez, o único Porto-Ilha do País.
O que o faz meditar é saber que a quantidade de sal que se produzia outrora, em Areia Branca e Mossoró, é muito menos da que se fabrica hoje. E o mais interessante: dava para sustentar milhares de seres humanos, levando-se em conta, ainda, que os salários pagos ao operariado em geral causavam inveja a quantos deles tinham conhecimento.
Enfim, viva o progresso! Mas que dá para se ter uma grande saudade dos salineiros, dos barcaceiros e dos estivadores, ah!, isso dá.
Livro: Folhas de outono
Autor: Francisco Rodrigues da Costa (Chico de Neco Carteiro).
Editora: Sarau das Letras, 2008, 158p.

Inesquecíveis, também, foram as brincadeiras no período de carnaval na sua residência da Rua do Meio, entre à casa de vovô Izídio Souza, e o Sindicato dos Carpinteiros. Casa esta que atualmente é um hotel. Quando escutávamos um som gostoso, animado, ritmado, de uns frevos pernambucanos e de umas marchinhas carnavalescas executadas por uma bandinha de música tocando lá, corríamos para participar também. Tanto fora quanto dentro da residência, observávamos que ela  ficava cheia, com gente “saindo pelo ladrão”. Eles providenciavam logo um porteiro, que de prontidão, no portão de ferro na entrada, impedia, principalmente, a entrada de bêbados, “penetras”, desconhecidos impertinentes, e crianças chatas. Eu pertencia ao último grupo. Claro que eu era barrado também. Após  me identificar, implorava ao mesmo para que chamasse a Sra. Alzenir. O porteiro não dava a mínima. Estava exercendo o seu ofício de forma brilhante e exemplar.
Eu ficava extremamente irritado e aflito. Há um ditado popular, cantado também em verso e prosa que diz assim: “quem não chora não mama”. Eu gritava a plenos pulmões: dona Alzenir! Dona Alzenir! Quando ela ouvia os gritos, vinha ao portão para ver do que se tratava, e quando via a minha ansiedade e aflição, dizia ao porteiro:
- Pode deixá-lo entrar.
A felicidade ficava estampada em meu rosto. Por um momento eu abria um largo sorriso de satisfação, ficava muito feliz! Por outro lado, ficava deveras comovido, pois outras crianças que conhecia, desconhecidas da Sra. Alzenir, eram sumariamente barradas e ficavam inconsoladas.
Ao entrar, via que a residência estava completamente lotada de familiares, alguns conhecidos, e repleta de brincantes que nunca tinha visto. A animação reinava ali, e entre os mais animados se destacava a Ângela Maria de Melo, irmã da Sra. Alzenir. Era a animação em pessoa.
Eu, perdido naquela multidão, saía ziguezagueando entre os presentes, com o intuito de chegar o mais próximo da bandinha de música. Quando conseguia o intento, ficava ali saboreando o delicioso som muito bem orquestrado. Quando a charanga tocava “Vassorinhas”, eu não me continha e caía no frevo. O esposo da Sra. Alzenir, também dono da casa, Sr. Antonio Rodrigues, mais conhecido na cidade por Toinho Beiju, era impassível, ficando todo o tempo deitado numa bela, grande, e chique rede, numa área ampla, conversando com alguns amigos que lá se encontravam. Vez por outra, ele se levantava para tomar uma dose de uísque, aquele com a estampa de um cavalo branco. Bebericava, mas não caía no frevo. Voltava sempre para sua aconchegante rede.
Como via muita gente se servindo numa grande mesa farta, com vários tipos de comida e bastante salgadinhos como “tira-gosto”, psicologicamente, aquela visão estimulava o meu apetite, então aproximava-me e provava aquelas iguarias, verdadeira comida de reis. Lá não havia limites, todos se serviam à vontade. “A coisa corria frouxa”.
Depois de muito “pularmos carnaval”, já à tarde, encostava um grande e possante caminhão em frente à casa e a bandinha subia na sua carroceria. Eu não queria perder nenhum detalhe e os acompanhava também.
Muitos ficavam na residência. Sobrava vaga no caminhão, que empreendia sua marcha lentamente, para que ninguém se machucasse. Os músicos já muito bem alimentados, calibrados com muitas doses de bebidas alcoólicas, tocavam divinamente aquelas marchinhas inesquecíveis: “Mamãe eu quero”, “Bandeira branca”, “índio quer apito”, “Sapo não lava o pé”, “Cabeleira do Zezé”, “Cachaça não é água”, etc.
A animação continuava naquela carroceria. Vez por outra o caminhão freava bruscamente, e todos nós brincantes na carroceria, íamos em direção à parte dianteira do carro, próxima à boléia, onde estava a charanga. Ríamos muito daqueles encontrões. Principalmente quando íamos de encontro aos músicos de sopro, que invariavelmente desafinavam e erravam a música.
Outra recordação a qual me lembro, é que também  em alguns fins-de-semana, encontrava-me com a Sra. Alzenir na sua casa na praia de Upanema, naquela residência que fica no alto de um morro, com visão para o Arrombado.
Eu, estudante do primeiro grau, geralmente nessas horas estava sem dinheiro, “sem lenço e sem documento”, bastante faminto, e o horário passando das 14h 00. Ia lá na intenção de comer algo, pois sabia que sua mesa era sempre farta e também ela sempre me convidada para comer, e comida da melhor qualidade.
Inegável afirmar que praia abre o apetite de qualquer ser humano. Eu era a própria fome em pessoa, e não disfarçava aquela minha “cara de pidão”, porém, independente disso, ela sempre me oferecia algo do seu lauto almoço.
Parece que estou vendo ela falando. Aquela bondade em pessoa…
- Você já almoçou meu filho? Quer comer alguma coisa, beber algo? Tem isso, tem aquilo…Não se acanhe. Pode se servir à vontade.
Eu não me fazia de rogado. Não perdia tempo, pegava o prato e me empanzinava.
Um fato interessante é que quando criança eu não distinguia em nada os sobrenomes das Alzenir. Fazia uma confusão entre Alzenir Rolim e Alzenir Noronha.
Inúmeras vezes, mamãe se encontrava com uma delas no centro em Natal e dizia:
-Ah! Encontrei-me no Grande Ponto (centro da cidade) com Alzenir Noronha.
Na minha inocência eu dizia: mamãe, foi com dona Alzenir rica ou dona Alzenir pobre?
Mamãe não “perdia a esportiva” e respondia prontamente, para o meu parco entendimento:
- Alzenir rica!
Como esquecer a Sra. Alzenir Noronha? Pessoa de alma boa, simples, humilde e riquíssima, tanto financeiramente como espiritualmente?
Dona Alzenir Rica! Que Deus a abençoe e a encha de riquezas espirituais e materiais.