Retornei à minha cidade após quarenta anos. As ruas estreitas, os quarteirões onde outrora passava correndo – em especial na rua do meio, pros lados do Cine Coronel Fausto, tomando banho de chuva -, a água a cair das bicas. O rio, a Rua da Frente, a visão de Barra e Pernambuquinho, do outro lado do rio, com suas canoas de velas triangulares, e Tibau brilhando distante, com suas areias multicoloridas. Os iates movidos a grandes velas se foram; as barcaças, também. O movimento do sal, agora, é lá pras bandas do porto ilha.
Depois da janta, ao caminhar pelas ruas, atualmente limpas e bem cuidadas, fiquei emocionado ao ver um grupo de crianças brincando de cantigas de roda, e rememorar aquela música que diz mais ou menos assim… Lagarta pintada, quem foi que te pintou, foi a velhinha do tempo da areia, puxa lagarta na minha orelha.
Fim de noite. Uma última olhada para o Beco da Galinha Morta, e tomei o rumo do hotel, que fica bem ao lado de um velho farol, guia de velhos marinheiros, e agora de pintura nova. No horizonte escuro uma estrela cadente rasgou o céu. Vou caminhando solitário pela beira da praia. Era noite, vento forte, com assobio de fantasma; aquele assobio agudo, que vai se tornando um pouco grave, fere os ouvidos e parece sumir. Ao longe, vindo de um bar qualquer, escutei aquela música meio brega, falando de amores vãos, mulheres perdidas, esperanças findas. Sei que era de um artista da noite; o som ia e vinha, ondulando ao sabor do vento. Tentei identificar o cantor, mas não deu.
Imaginei vitrola, luzes vermelhas, bebida rolando, fumaça de cigarro, conversa jogada fora, prostitutas, notívagos de todos os tons. E aquela música a vagar pela noite quente de ventos salitrados, misturando-se ao cheiro dos cajueiros floridos.
A areia fina fazia cócegas nas pernas, enquanto ao longe passava um barquinho. Sabia que era um barquinho por causa da luz que brilhava distante, na solidão dos marinheiros.
Já era quase madrugada. No céu escuro, majestosa entre as estrelas, a lua cheia impregnava tudo de melancolia, e o barulho do mar de Upanema parecia trazer as lembranças que o tempo teimava em querer apagar.
Cheguei ao hotel. Identifiquei o cantor: era Zezo, o príncipe dos teclados, que, à distância, com muito esforço, ouvia cantar Ronda, e a certeza de estar em Areia Branca, onde as madrugadas são assim: regadas a saudade.
Do livro ESCRITOS MENORES, de Evaldo Alves de Oliveira
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