Os autores deste blog estão comprometidos com os registros históricos de Areia Branca, sobretudo, mas não exclusivamente, aqueles referentes às três décadas, de 1950 a 1980. Esses registros incluem:

  • descrição de documentos oficiais ou cópias digitalizadas dos mesmos;
  • registros iconográficos diversos;
  • transcrições da história oral;
  • relatos do folclore areia-branquense.

É natural que alguns desses relatos provoquem constrangimentos às pessoas envolvidas. Quando este for o caso, os autores omitirão os nomes e as referências que facilitem a identificação das personagens.

Procedimento similar será adotado com relação aos comentários dos leitores.

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Convidamos o visitante do blog a dar uma espiada na coleção de livros sobre Areia Branca. Quem tiver sugestão de livros porventura não incluídos na nossa lista, pode enviar capa e detalhes editoriais (título, autor, editora, endereço para aquisição, etc) para cas.professor@gmail.com.

           Desde a infância dos pais dos nossos pais que os canoeiros da Barra transportam pessoas e riquezas através do rio Mossoró. São, segundo Deífilo Gurgel, os primeiros meios utilizados pela população de Areia Branca, nascida à margem do rio Mossoró, a dois passos do Oceano Atlântico e cortada por gamboas por todos os lados.

            Com suas velas triangulares, esses pequenos barcos parecem emergir de um tempo que já não existe, dinossauros de madeira. São bonitos, simples e eficientes. Vieram antes que os médios e grandes barcos, e conviveram com os iates, as barcaças e os botes de pesca, com as baleeiras, e os rebocadores; trafegaram ao lado das catalinas – hidroaviões da Condor e da Pan Air – que, de forma elegante, amerrissavam nessas águas límpidas, com seus lindos manguezais ainda hoje preservados.

            Mas a canoa não existiria sem o seu personagem principal. O altivo canoeiro, homem forte e viril, com sensibilidade para sentir o pulsar das marés, o chamado dos primeiros raioso do sol da manhã, expulsando a madrugada, e a abordagem silenciosa da noite, que sorrateiramente lhe rouba o direito de navegar, impingindo-lhe a escuridão. E um olhar cuidadoso para a negritude dos manguezais mostra, aqui e ali, longínquos vagalumes que teimavam em continuar seu serviço de reconhecida utilidade pública, transportando pessoas, cargas e histórias de vida.

Visite: www.evaldoab.wordpress.com

 

 

 

            Este senhor nos proporcionou um passeio maravilhoso pelas águas do rio Mossoró

          Retornei à minha cidade após quarenta anos. As ruas estreitas, os quarteirões onde outrora passava correndo – em especial na rua do meio, pros lados do Cine Coronel Fausto, tomando banho de chuva -, a água a cair das bicas. O rio, a Rua da Frente, a visão de Barra e Pernambuquinho, do outro lado do rio, com suas canoas de velas triangulares, e Tibau brilhando distante, com suas areias multicoloridas. Os iates movidos a grandes velas se foram; as barcaças, também. O movimento do sal, agora, é lá pras bandas do porto ilha.

            Depois da janta, ao caminhar pelas ruas, atualmente limpas e bem cuidadas, fiquei emocionado ao ver um grupo de crianças brincando de cantigas de roda, e rememorar aquela música que diz mais ou menos assim… Lagarta pintada, quem foi que te pintou, foi a velhinha do tempo da areia, puxa lagarta na minha orelha.

            Fim de noite. Uma última olhada para o Beco da Galinha Morta, e tomei o rumo do hotel, que fica bem ao lado de um velho farol, guia de velhos marinheiros, e agora de pintura nova. No horizonte escuro uma estrela cadente rasgou o céu. Vou caminhando solitário pela beira da praia. Era noite, vento forte, com assobio de fantasma; aquele assobio agudo, que vai se tornando um pouco grave, fere os ouvidos e parece sumir. Ao longe, vindo de um bar qualquer, escutei aquela música meio brega, falando de amores vãos, mulheres perdidas, esperanças findas. Sei que era de um artista da noite; o som ia e vinha, ondulando ao sabor do vento. Tentei identificar o cantor, mas não deu.

            Imaginei vitrola, luzes vermelhas, bebida rolando, fumaça de cigarro, conversa jogada fora, prostitutas, notívagos de todos os tons. E aquela música a vagar pela noite quente de ventos salitrados, misturando-se ao cheiro dos cajueiros floridos.

            A areia fina fazia cócegas nas pernas, enquanto ao longe passava um barquinho. Sabia que era um barquinho por causa da luz que brilhava distante, na solidão dos marinheiros.

            Já era quase madrugada. No céu escuro, majestosa entre as estrelas, a lua cheia impregnava tudo de melancolia, e o barulho do mar de Upanema parecia trazer as lembranças que o tempo teimava em querer apagar.

            Cheguei ao hotel. Identifiquei o cantor: era Zezo, o príncipe dos teclados, que, à distância, com muito esforço, ouvia cantar Ronda, e a certeza de estar em Areia Branca, onde as madrugadas são assim: regadas a saudade.

 

            Do livro ESCRITOS MENORES, de Evaldo Alves de Oliveira

            evaldooliveira@brturbo.com.br

O ser humano tem, por peculiar tendência, idolatrar outros seres, em sua natureza, semelhantes a ele.
Não sei informar catedraticamente se essa característica é inata ou logo adquirida na infância. Talvez, quem sabe, moldada aos poucos, ao longo da sua existência. Sei que ela existe, se perpetua, e é bastante cultivada, até com certos exageros, absolutamente incabíveis na atualidade.
Sou totalmente contrário a toda e qualquer forma de idolatria. Abomino peremptoriamente essas manifestações exacerbadas de fãs de gostos duvidosos, que chegam a se apresentar como o supra-sumo da imbecilidade e infantilismo doentio, haja vista as crescentes manifestações hediondas ao longo do globo terrestre.
Sim, têm pessoas as quais admiro, na sua maioria, pelo conjunto das suas obras inéditas, criativas, aliadas ao talento nato do artista. Porém, gosto de maneira normal, civilizada, e com total bom senso. Nada de exageros.
Sempre gostei de música, e tenho um gosto até eclético. Não me detenho somente por um estilo musical. Procuro extrair dos mais variados sons aquilo de bom que a música transmite, e que o autor quis atingir. Seja jazz, blues, erudita, tango, cantochão, bolero, chorinho, etc.
No final dos anos de 1960, de tardizinha, quando passava em frente ao Ivipanim Clube e escutava os acordes do conjunto musical LSD (Luz Som e Dimensão), não resistia e entrava para assistir ao ensaio. Lembro-me muito bem de um cabeludo tocando uma guitarra vermelha e branca. Ele solava uma música, que salvo engano era a famosa O Milionário ( mais conhecida por Milionários), de autoria do conjunto musical Os Incríveis.


O cabeludo era bom no que fazia. No dito linguajar de hoje:”o homem fazia miséria com sua guitarra”! Dedilhava divinamente nela, extraindo sons maviosos e inesquecíveis.
Havia momentos que ele tocava de forma tão espetacular, que escutávamos verdadeiros sons de vibrações canoras. Seus dedos mágicos suavemente postos nas cordas de aço, tais quais bailarinos, exibiam uma bela coreografia, subindo e descendo, naquele vai-e-vem interminável, como que imitando o movimento pendular de uma baleeira em parque de diversão. Emitia assim, verdadeiros lamentos, encontrando eco no mais profundo âmago da alma dos seus ouvintes. Por outro lado, ele também com sua versatilidade, fazia acordes tão ritmados e animados, que quando não dançávamos, ficávamos batendo o pé e balançando o corpo no canto que estávamos parados.
Além de tudo, ele namorava uma das mais belas jovens da época. Uma de sardas no rosto.
Quando os via, naquelas cenas românticas, me estimulava a aprender a tocar violão que nem ele, e alimentava a esperança de, quando crescesse, também namorar belos brotinhos (gatas).
Anos mais tarde, soube que se graduou engenheiro de pesca em Recife-PE.
Nunca mais o vi tocar, apesar de esporadicamente vê-lo em sua cidade natal.
As últimas notícias que recebi é que o mesmo reside nos Estados Unidos.
Creio eu que ele deve estar encantando os gringos, deixando-os boquiabertos quando maneja o violão ou guitarra.
Tarcizo Cirilo, Engenheiro de Pesca, mas antes de tudo, um craque na arte do instrumento de cordas, principalmente na guitarra!

Em 1985, eu era pesquisador da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em Rio Branco-AC.
Meu campo de trabalho foi em um Projeto de Assentamento do INCRA, cuja sede se localizava no Km 61 da BR 364 (AC – RO).
Fiz logo amizade com todos, e vivi em harmonia com aquela comunidade rural.
Inúmeros foram os convites para ser padrinho de crianças, professor da escola local, palestrante, etc.
Só não rezei missa, mas fiz de tudo para agradar a todos.
Espero, em breve, escrever um livro sobre essas inúmeras histórias.
Um dos relatos dos quais me lembro foi o parto de uma das jovens produtoras rurais. Foi um momento mágico, sublime, e inesquecível.
valmira-pereira-dasilva Lembrei-me da minha infância em Areia Branca, quando o médico clínico geral, Dr. “faz-tudo”, Dr. Chico Costa, realizava partos na Maternidade Sara Kubistckeck, com o auxílio indispensável da sua assistente, Sra. Valmira Pereira da Silva (Foto ao lado, extraída de http://www.costabrancanews.com/falamemoria.html), famosa parteira da cidade.
Em Areia Branca, ouvia inúmeros casos sobre Dr. Chico não se encontrar na cidade, e, na sua ausência, o parto ter sido realizado pela competentíssima parteira, Sra. Valmira.
O pessoal da cidade dizia:
- Dona Valmira não é santa não, mas obra milagres!
Várias foram as crianças que foram aparadas por suas santas mãos.
Ela nunca se negou a ajudar alguém em trabalho de parto. Prontamente, naquela sua paciência e experiência de vida profissional, acalmava as famílias envolvidas, as parturientes aflitas, principalmente as mães de primeira viajem.
Tomei conhecimento que ela recentemente comemorou seu natalício de número 90 (noventa), junto aos seus muitos familiares, e aos seus milhares de amigos.
Dona Valmira, que a Sra. goze de merecida boa saúde e disposição, na cidade que nasceu, junto aos familiares, amigos, admiradores,  e continue fazendo os milagres, se necessários forem.

Recentemente, falando com o Grande Mestre Deífilo Gurgel, escutei dele o vaticínio:
- Os escritores geralmente escrevem sobre sua cidade natal, ou sobre a terra que amam.
Eu, como aprendiz de escritor, estou confirmando a profecia.
Vai e volta, a minha mente me transporta à minha infância, final da década de 1960 em Areia Branca.
Meus avós maternos, Izídio Souza/Maria Nogueira, residiam na praia de Upanema, numa casa onde anos mais tarde foi a residência de Leo Rolim, concomitante com o seu Bar/Restaurante.
Meus avós criavam um tatu-peba (Euphractus sexcinctius), dentro de um tonel metálico de cor azul-marinho.
Quando eu os visitava, matava sempre minha curiosidade, indo naquele tonel para ver de perto o tatu-peba. Bicho feio e esquisito.

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Meu temor era que o tatu conseguisse sair dali e me atacasse. Tranquilizaram-me dizendo que ele não conseguiria subir.
Certo dia, foram pegar o tatu-peba para transformá-lo em comida saborosa. Parece que o tatu adivinhou que ia para a panela. Desvencilhou-se das mãos hábeis do seu algoz, empreendendo fuga espetacular para o quintal, colocando toda a família no seu encalço.
O bicho era esperto, mas seu destino já estava traçado.
Engraçada foi a cena daquele monte de gente correndo atrás do tatu. E a gritaria no meio do terreiro?
- Pega o bicho! Pega!
Não comi aquela carne muito branca, apesar do bonito aspecto apresentado. Causou-me certa repugnância.

Anos mais tarde, eu, professor da Universidade Federal do Acre, fazia refeições no Restaurante Universitário, e alguns alunos me informaram que iam colocar no cardápio carne de rato!
Claro que era improvável. Não passava de extremo exagero. Tão somente, a direção do R.U optou por fornecer carne de preá (Galea spixii), que era criado e fornecido pelo departamento, do qual fazia parte.
Ri bastante daqueles adultos agindo como crianças, e me lembrei da família Rolim de Areia Branca.
Sempre que ia na residência do Sr. Ivani Rolim, olhava admirado aqueles belos preás da sua criação.
Eu dizia que eram ratos, o que prontamente era corrigido.
Não havia quem me demovesse do contrário. Já estava completamente dominado pela idéia de  que eram ratos, e pronto.
Até os dias de hoje, há quem ainda defenda essa ridícula tese.
Eu não passava de uma criança. Será que essa turma adulta, defensora dessa tese arcaica, crianças não são?